terça-feira, 7 de agosto de 2018

Após serem quase extintas, ariranhas retornam a rios na Amazônia.

Após serem quase extintas pela caça comercial, as ariranhas estão retornando a rios da Amazônia.
Os últimos indícios da recuperação da espécie foram divulgados nesta semana pela revista científica Biological Conservation.
Liderada pela bióloga Natália Pimenta, a pesquisa analisou sinais da presença de ariranhas na bacia do rio Içana, no noroeste do Amazonas, onde ela havia sido considerada extinta. O estudo foi feito após outras pesquisas apontarem uma tendência de recuperação da espécie - com nome científico Pteronura brasiliensis - em diferentes partes da Amazônia, como a bacia do Solimões e a região da hidrelétrica de Balbina.
Maior carnívoro semiaquático da América do Sul, com até 1,80 m quando adulta, a ariranha é um dos dois tipos de lontra encontrados no Brasil e está na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação, entre as espécies consideradas ameaçadas de extinção.

Mordidas de ariranha

O estudo no Içana teve início após membros do povo baniwa alertarem sobre o retorno das ariranhas a seu território, dentro da Terra Indígena Alto Rio Negro.
Presidente da Associação Indígena da Bacia do Içana, André Baniwa diz que moradores notaram os primeiros sinais da volta dos animais uns dez anos atrás, ao encontrar carcaças de peixes com mordidas de um bicho que não reconheciam.
Os mais velhos deram o veredicto: a ñeewi (ariranha, em língua baniwa) estava de volta.
Nos últimos anos, os sinais aumentaram - e vários moradores chegaram a topar com os mamíferos.
Membros da comunidade participaram do estudo sobre o retorno dos animais, que contou com o apoio das fundações Capes, CNPq, The Rufford Foundation e Idea Wild.
Baniwa conta que ariranhas não eram vistas na região desde os anos 1940. Na época, eram as espécies mais cobiçadas no movimentado mercado de peles amazônicas.

Comércio de peles de animais

Ao pesquisar o tema, a bióloga Natália Pimenta encontrou estudos que estimaram em 23 milhões os animais caçados na Amazônia Ocidental para a extração de peles entre 1904 e 1969.
O couro de ariranha - animal amazônico que mais sofreu com a caça comercial, segundo a pesquisadora - costumava ser exportado para os Estados Unidos ou a Europa, onde viraria casacos, chapéus e echarpes.
Em um catálogo de 1946 de uma loja de peles em Manaus, o couro de ariranha é vendido por 180 cruzeiros - acima do preço de peles de onça (150), maracajá (150) e caititu (47).
Baniwa diz que os próprios membros da comunidade caçavam os animais para trocar as peles por armas e outros bens. Um bom couro de ariranha valia o equivalente a duas espingardas.
A modernização das técnicas de caça acelerou o extermínio da espécie.
A partir dos anos 1960, leis passaram a regulamentar o comércio de peles silvestres no país. Em 1975, o Brasil aderiu a uma convenção internacional que proibia o comércio de espécies ameaçadas - entre elas, as ariranhas.
A demarcação de grandes terras indígenas na Amazônia a partir dos anos 1990 também golpeou a atividade.
A demanda pelas peles diminuiu, permitindo que as ariranhas começassem a se recuperar.

Encontros com ariranhas

"As ariranhas estão voltando, mas é só o início de um processo de recuperação", diz à BBC News Brasil a bióloga Natália Pimenta, que chefiou a pesquisa sobre a volta da espécie ao Içana.
Segundo Pimenta - analista de pesquisa intercultural do Instituto Socioambiental (ISA), em São Gabriel da Cachoeira -, a densidade da população de ariranhas na região ainda é baixa.
Ela diz que, para que a recuperação se consolide, é necessário que haja diversidade genética entre os grupos remanescentes.
Pimenta notou que, embora os encontros com ariranhas no Içana tenham se tornado mais frequentes, elas ainda são muito ariscas - "possivelmente por terem sido tão cruelmente caçadas no passado".
"Como estavam muito isoladas, não estão acostumadas com a presença de humanos. Quando escutam o barco, logo fogem."
Ela conta que, no passado, as ariranhas eram encontradas da Venezuela ao sul da Argentina. Mas a caça predatória fez com que ficassem restritas a poucas áreas, como o Pantanal e as cabeceiras de alguns rios amazônicos.
Outrora o maior habitat do animal no planeta, a bacia do rio Negro quase viu a espécie desaparecer.
Nos últimos anos, conforme a espécie começou a se recuperar no Brasil, Pimenta conta que países vizinhos - como a Bolívia, a Colômbia e as Guianas - também viram as ariranhas ressurgirem.

Boas pescadoras

André Baniwa diz que a ariranha tem papel importante na mitologia de seu povo, considerada um dos cinco animais que surgiram no início do mundo e que viraram pajés, ao lado de botos, morcegos, onças e lontras.
No topo da cadeia alimentar, são associadas à saúde e ao equilíbrio das águas - e vistas como excelentes pescadoras. "Ela não come qualquer peixe. Não assusta, não bagunça a água, escolhe o peixe e come só a parte que interessa."
Ele conta que muitos indígenas esperam que a volta dos animais seja um indício de que a população de peixes também esteja aumentando.
Outros, porém, temem que as ariranhas compitam com os humanos pelos pescados. Um ariranha adulta pode consumir até 4 kg de peixe por dia.

Ataque de ariranhas em Brasília

Também chamadas de onças d'água, elas vivem em grupos de até 20 indivíduos e são territorialistas. No YouTube, há vídeos de ariranhas expulsando onças de seu território.
"Se alguém chega no ambiente delas, elas vão para cima para se defender, ainda mais se estiverem com filhote", diz a bióloga Natália Pimenta.
Em 1977, um acidente no zoológico de Brasília fez com que a espécie se tornasse temida em muitos lares brasileiros.
Naquele ano, o sargento do Exército Sílvio Delmar Hollenbach saltou no tanque das ariranhas para resgatar um garoto de 13 anos que havia caído no local.
O jovem se salvou, mas o sargento não suportou as mais de cem mordidas e, três dias depois, morreu no hospital.
Para Natália Pimenta, o comportamento de ariranhas em zoológicos, onde vivem confinadas e estressadas, deve ser relativizado.
"Nunca ouvi nenhum relato de ataques de ariranhas a pessoas em ambientes naturais", afirma.
Fonte: BBC

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Tapetes do futuro: orgânicos e ecologicamente corretos.

Quando os tapetes ficam velhos, as pessoas costumam jogá-los fora. E eles dificilmente são reciclados – na maioria das vezes acabam simplesmente queimados. Mas isso pode mudar em breve, com a fabricação de tapetes totalmente orgânicos.
Uma equipe de cientistas conseguiu criar tapetes de lã compostos apenas de materiais naturais que podem ser processados depois que ficam gastos, podendo gerar novos e bonitos tapetes ou tendo novas utilidades, como fertilizantes na agricultura.
O novo projeto, financiado pelo governo holandês, chama-se Erutan. Se você ler a palavra ao contrário, vai perceber o termo “nature” se forma. E não é por menos, já que o tapete é uma iniciativa amiga da natureza.
No projeto, os pesquisadores substituíram todas as substâncias sintéticas e produtos químicos por materiais orgânicos, enzimas e polímeros. O resultado final é um tapete natural com a mesma flexibilidade e durabilidade do que qualquer outro feito de lã.
Apesar de tecidos feitos de lã e celulose serem biodegradáveis, os tapetes atuais também contém outro elemento que mantém as fibras unidas: o látex, responsável por fazer os tapetes acabarem em um forno.
Normalmente são necessários cerca de 1,2 quilos de látex por metro quadrado de tapete, e é praticamente impossível retirar o elemento depois para uma futura reciclagem. Mas os pesquisadores conseguiram substituir o látex por um adesivo orgânico.
Além disso, a limpeza da lã usada no tapete dispensa detergentes, sais, ou qualquer outro produto químico e precisa de menos água, por não conter látex. Os corantes usados na pigmentação dos tapetes são naturais e se fixam ao tapete a partir de uma tecnologia criada pelo grupo.
Quando os tapetes ficarem velhos, ao invés de incinerados, eles podem ser triturados e reutilizados. As empresas envolvidas no projeto Erutan estão preparadas para pagar as pessoas para entregarem seus antigos tapetes para elas, garantindo a reciclagem.
Muitas pessoas entregam seus tapetes para algumas empresas atualmente. Mas elas viram lixo industrial, já que queimam com facilidade. Ao invés disso, os tapetes podem ser reutilizados como matérias-primas em outros produtos. Bom para o consumidor e para o planeta. 

domingo, 5 de agosto de 2018

Refugiados impulsionam cultivo orgânico na Itália.

Muitos dos migrantes ainda não conhecem onde vão poder morar no futuro (Foto: DW/Ylenia Gostoli)
Todas as manhãs, Dembo Cisse, um rapaz de 21 anos da Guiné, espera o carro que o vem pegar. Entram no veículo ele e outros dois, que moram num apartamento pertencente ao sistema privado de acolhimento de migrantes na Itália.
O velho carro de família toma então a direção de Oleggio, uma pequena cidade na região do Piemonte, no norte do país, para chegar a um campo agrícola nas proximidades.
Dembo e seus companheiros não trabalham na cadeia de fornecimento de alimentos, dominada por grandes distribuidores que demandam preços cada vez mais baixos e, portanto, mão de obra barata – proporcionada por muitos de seus colegas africanos por falta de melhores opções.
O motorista do carro é Raffaele D'Acunto, conhecido como Lello, o primeiro agricultor orgânico da região. Agora aposentado, ele decidiu montar uma pequena empresa agrícola para cultivar produtos orgânicos e vendê-los no mercado local.
Lello, Dembo e outros quatro imigrantes do Mali, Senegal e Nigéria – o mais jovem deles tem apenas 19 anos – estão prestes a se tornar sócios igualitários no florescente negócio que denominaram apropriadamente de "Zappa Arcobaleno" (enxada arco-íris). A empresa está envolvida agora nos trâmites burocráticos, aguardando o registro oficial.
"Ninguém cuidou dessa terra nos últimos 40 anos", diz Dembo, enquanto pega suas luvas e um balde para jogar fora parasitas que se aninharam entre as batatas que plantou ali há três meses. "Quando começamos, aqui estava cheio de pedras, era uma terra muito difícil de cultivar."
Três meses atrás, o grupo começou reabilitando parte do terreno abandonado, depois de contatar os proprietários originais, que não tiveram nenhuma objeção. Batatas, alcachofras e abóboras estão entre as culturas plantadas ali. Para desenvolver a sua própria horta, a equipe também chegou a um acordo com o centro local de acolhimento de migrantes, onde vivem alguns dos jovens.
"Aqui podemos ser nossos próprios chefes. O que plantamos é o que ganhamos", diz Dembo em bom italiano. Ele está no país há 18 meses. A maior parte desse tempo, passou esperando uma entrevista com a comissão de refúgio, e agora aguarda uma resposta de seu pedido.
Lello (c.) diz que pode passar sua expertise e paixão pela agricultura (Foto: DW/Ylenia Gostoli)
A espera pode ser longa. Em toda a UE, no final de maio de 2018, mais da metade dos solicitantes de refúgio aguardava uma decisão há mais de seis meses. Na Itália, não é incomum escutar casos de pessoas passarem mais de dois anos hospedadas em centros de acolhimento privados, mas financiados pelo governo.
Os mais sortudos encontram um trabalho mal remunerado no mercado informal, o que ainda é melhor que os 2,50 euros por dia oferecidos pelo Estado. Os centros de acolhimentos de gestão privada, conhecidos como CAS, recebem até 35 euros por dia para cada solicitante de refúgio – dinheiro que deve ser destinado a programas de acomodação e integração, incluindo aulas de idioma.
Enquanto alguns realmente fornecem tais serviços, o sistema caótico deixa brechas para abusos, incluindo a infiltração da máfia. Para estrangeiros recém-chegados presos na engrenagem burocrática, isso significa simplesmente viver num limbo.
"Não cabe a mim escolher continuar neste trabalho. Depende de onde eu vou poder viver futuramente. Não sei o que acontecerá amanhã", afirma Dembo, que estuda italiano e participou de um curso profissionalizante de jardinagem e agricultura, onde conheceu Lello, que foi seu professor.
Além de uma queda de 77% nas chegadas de migrantes através da rota do Mediterrâneo Central, o número de pedidos de refúgio caiu 50% no primeiro trimestre deste ano na Itália, em comparação com o ano anterior. Em média, 60% das solicitações são rejeitadas.
A Itália tende a conceder mais comumente a chamada "proteção humanitária", que vem com uma autorização de residência de dois anos e é planejada para ajudar aqueles que não cumpriram os requisitos para o status de refugiado ou proteção subsidiária.
Numa carta oficial no início deste mês, o ministro do Interior da Itália, o ultradireitista Matteo Salvini, pediu a comissões de refúgio encarregadas de examinar os pedidos que limitassem o número de permissões humanitárias emitidas, causando preocupação entre grupos de direitos humanos. Os ativistas afirmam que forçar um órgão administrativo a aceitar diretrizes políticas levará a decisões injustas e a mais caos administrativo.
Perspectiva de negócio próprio incentiva refugiados a trabalharem (Foto: DW/Ylenia Gostoli)
"Em nível nacional, vimos que as comissões estão se tornando cada vez mais duras, com poucas exceções", diz Donatella Bava, advogada da região de Turim e membro da Associação de Estudos Jurídicos sobre Imigração. "Observamos um declínio nas boas práticas. Temos casos em que autorizações de residência foram revogadas, mesmo com recurso pendente."
Fazendo campanha (e agora governando com o Movimento Cinco Estrelas) com temas anti-imigração, o partido Liga, de Salvini, angariou quase 30% dos votos em Oleggio, mais do que qualquer outra legenda. Desde a eleição em março, a popularidade da Liga tem aumentado em toda a Itália.
Vários boatos estão circulando – o mais comum é que os solicitantes de refúgio embolsam 35 euros por dia do Estado. Como resultado, os migrantes são frequentemente vistos com desconfiança pela população local.
"Às vezes, quando você para alguma pessoa na rua para pedir informações, elas se afastam", diz Dembo. "Elas talvez achem que estamos pedindo dinheiro, como nossos irmãos que fazem isso na frente do supermercado, e então não respondem".
Mas na fazenda, Dembo, Lello e os outros têm motivações próprias para continuar seu trabalho. Nas últimas semanas, eles começaram a vender seus produtos diretamente aos consumidores, enquanto se esforçam para transformar seus negócios numa empresa totalmente operacional.
Para Lello, um ex-engenheiro químico que migrou da cidade de Salerno há mais de 30 anos para trabalhar numa fábrica, é uma maneira de transmitir sua expertise e paixão.
"Conhecer os garotos me fez perceber o valor de certas coisas que eu não era capaz de fazer com meus próprios filhos", afirma Lello. "A agricultura requer alguns sacrifícios: nas horas de trabalho, nos feriados, no bom e no mau tempo. Mas eu sou otimista e digo a eles: 'Não temos nada a perder'."
Fonte: Deutsche Welle

sábado, 4 de agosto de 2018

Mosquito da dengue erradicado em cidade australiana

A dengue está longe de ser um problema apenas para o Brasil. A doença tem avançado globalmente em tempos recentes. No entanto, uma cidade na Austrália – país que sofre com índices recordes de contaminação com 2.000 pessoas infectadas apenas no ano passado – conseguiu reverter essa tendência e erradicar a doença por completo.
Desde 2014 a cidade de Townsville, no estado australiano de Queensland, não registra um caso sequer de dengue. A solução encontrada foi liberar milhões de mosquitos Aedes aegypti infectados com a bactéria Wolbachia, tornando-os incapazes de transmitir o vírus da dengue.

O projeto

Nesta cidade de apenas 187.000 habitantes, pesquisadores da Universidade Monash em parceria com o World Mosquito Program fizeram dos próprios residentes locais os agentes nessa empreitada. O projeto recrutou 7.000 famílias na área metropolitana da cidade para abrigar uma pequena cuba de ovos de Aedes aegypti infestados de Wolbachia. Eventualmente, 4 milhões de mosquitos infectados se misturaram com a população selvagem e espalharam a bactéria durante os períodos de acasalamento. O artigo dessa pesquisa foi publicado no Gates Open Research.
Os pesquisadores australianos afirmam que esta foi a primeira vez que a dengue foi completamente erradicada em uma cidade inteira.

Para além da dengue

Esses resultados promissores colocam agora a atenção em outras doenças causadas pelo mesmo mosquito. Os pesquisadores acreditam que seja possível obter resultados semelhantes no combate à zica e chikungunya. “Nós queremos causar um impacto significativo sobre essa doença. Quando o assunto é dengue e zica, nada está funcionando em termos de controle. Há evidências de índices crescentes da doença bem como uma grave pandemia de zica que se espalhou pelas Américas recentemente e pelo resto do mundo”, disse Scott O’Neill, diretor do World Mosquito Program, em matéria publicada no site do jornal The Guardian.
O mesmo projeto já está em andamento na cidade no Rio de Janeiro, onde os mosquitos já foram liberados nas áreas mais críticas da cidade. No entanto, ainda que a tecnologia seja promissora, suas experiências até o momento foram majoritariamente em áreas de no máximo 1.5 km². A cidade de Townsville foi a primeira experiência bem-sucedida em larga-escala, abarcando uma área total de 65 km². Além do Rio de Janeiro, o projeto já atua em 12 países, em diferentes estágios de progresso desde pesquisa até a liberação do mosquito infectado, tais como em Medellín na Colômbia e em Jogjacarta na Indonésia.
No longo prazo, se o uso da bactéria Wolbachia for comprovadamente seguro e eficaz, o próximo passo está no combate à malária. A doença afetou 216 milhões de pessoas em 2016 ao redor do mundo, causando 445.000 mortes. “Existem dados laboratoriais que mostram que essa investida pode ser eficaz também no combate à malária, mas isso é algo para o futuro “, disse O’Neill.

Outras Tentativas

Esta não é a primeira experiência científica que tenta erradicar a dengue através da modificação dos próprios mosquitos. Pesquisas genéticas já experimentaram com mosquitos resistentes ao vírus ou mosquitos machos que morrem com o tempo, o que levaria a uma queda vertiginosa na quantidade dos insetos. A própria bactéria Wolbachia poderia ser usada para infectar apenas os machos e quaisquer ovos fertilizados com fêmeas não infectadas seriam estéreis, o que também causaria uma eventual extinção do mosquito.
O método Wolbachia do World Mosquito Program, no entanto, apresenta várias vantagens. Modificação genética é um assunto polêmico e pode esbarrar em reações públicas. Da mesma forma, a erradicação do próprio mosquito pode gerar impactos negativos no meio ambiente. O World Mosquito Program defende que seu projeto tem pouco impacto no meio ambiente uma vez que a bactéria Wolbachia já se espalha naturalmente pelo mundo mundo, com pouco risco de espalhar um patógeno para outras espécies.
Uma outra vantagem está no custo. Atualmente o programa custa em torno de $15 por pessoa, mas os pesquisadores já planejam formas de reduzir este valor para $1 por pessoa, facilitando a sua implantação em regiões mais pobres do mundo, justamente onde existe maior urgência. [The GuardianSmithsonianBBC]

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Em 1º de agosto consumimos mais recursos que a Terra consegue gerar em um ano. Veja como reduzir sua pegada ecológica.

Ainda estamos em agosto, mas já ultrapassamos o orçamento anual de recursos naturais da Terra para 2018.
De acordo com a Global Footprint Network (GFN), a partir do primeiro dia desse mês, esgotamos os recursos naturais que o planeta pode renovar em um ano.
É como se, a partir de agora, estivéssemos vivendo de uma “poupança” que pode nos custar muito lá na frente.

Dia da Sobrecarga da Terra

A GFN começou a fazer o cálculo do “Dia da Sobrecarga da Terra” no início dos anos 70. Desde então, a data de esgotamento de recursos renováveis anuais chega cada vez mais cedo. Em 1970, era no final de dezembro. Em 1997, no final de setembro. Em 2018, em 1 de agosto.
Para calcular a data, a GFN divide a biocapacidade do planeta (recursos ecológicos gerados a cada ano) pela totalidade da demanda da humanidade por esses recursos.
Vários fatores são levados em consideração, incluindo a capacidade da Terra de sequestrar carbono e a quantidade de alimentos e outros recursos naturais que podemos cultivar em um ano.
Em 2018, usaremos o equivalente a 1.7 Terras para apoiar a civilização humana. Nas taxas atuais, duas Terras serão necessárias para acompanhar a demanda até 2030. A degradação resultante é visível nos desmatamentos, secas, emissões de gases de efeito estufa e extinção de espécies em todo o planeta.

Balança desequilibrada

A GFN estima que 86% dos países estão atualmente vivendo além de suas possibilidades, gerando o que chamamos de “déficit ecológico”.
Alguns são muito piores do que outros. Por exemplo, se o mundo inteiro consumisse recursos à taxa dos americanos, o dia do esgotamento cairia em 15 de março.
Nem tudo são péssimas notícias, no entanto. A data não tem mudado muito desde 2011, apesar do crescimento populacional, o que é um sinal encorajador de que podemos reverter a tendência.
Nos últimos anos, as nações europeias e os EUA continuaram a crescer economicamente usando menos energia; nos tornamos muito mais eficientes na fabricação, a energia renovável está mais competitiva ou mais barata que os combustíveis fósseis, e os níveis de pobreza no mundo em desenvolvimento têm diminuído mais rapidamente do que em qualquer outro período registrado na história.

Faça sua parte

Será que o planeta tem salvação? As visões sobre isso são conflitantes, mas não podemos desistir. Se você quer fazer a sua parte, pode tomar algumas ações para reduzir sua pegada ecológica na Terra. Por exemplo:
Abandone o carro pelo menos algumas vezes por semana
Grande parte das emissões de gases causadores do efeito estufa vem do transporte. Se você mora perto do trabalho, tente ir a pé. Você também pode pedir para trabalhar a partir de casa pelo menos um dia por semana.
Se você mora longe, tente fazer o trajeto de bicicleta. Se não puder pedalar, tente utilizar transporte público, ou combinar carona com colegas de trabalho. Se duas pessoas dirigem em um só carro ao invés de dois, já reduzem suas emissões de carbono pela metade.
Diminua seu lixo
Desperdiçamos muitos recursos do planeta devido à quantidade de coisas que compramos e jogamos fora. O maior problema certamente é o excesso de plástico. Ao invés de usar copos, canudos e potes descartáveis, tente ter utensílios reutilizáveis consigo o tempo todo. O mesmo vale para sacolas em supermercados e lojas.
Se quiser ir além, você pode até mesmo fazer seus próprios produtos de limpeza, ao invés de comprá-los, como sabão. Também pode escolher produtos com menos embalagens durante as compras. Pode trocar o absorvente descartável pelo coletor menstrual, e assim por diante.
Coma menos carne e mais vegetais
Uma quantidade significativa de nossa pegada ecológica vem dos alimentos que comemos. Isso porque a pecuária usa mais superfície terrestre global do que qualquer outra atividade humana, e é responsável por 14,5% das emissões de gases de efeito estufa produzidos pela civilização.
Não precisa virar vegetariano ou vegano. Mas você pode diminuir seu consumo de carne. Por exemplo, escolher um dia da semana para investir nos vegetais.
Viaje com consciência
Longas viagens de avião podem aumentar muito sua pegada ecológica. Para reduzir os danos, você pode se organizar para voar menos, bem como escolher uma companhia aérea com bons valores ecológicos quando reservar um voo.
Também pode programar férias ecologicamente conscientes, incluindo não alugar um carro no destino e comer alimentos locais.

Fonte: Hypescience

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

MUNDO

Lagos vitais desaparecem pelo mundo

A escassez de água é um problema crescente, com a África sendo duramente atingida. Com aumento das temperaturas e redução das chuvas, os lagos secam. Confira alguns dos exemplos mais emblemáticos.
Imagens de satélite mostram a regressão do lago Poopó, na Bolívia, nos últimos três anos
Lago Poopó
Barcos de pesca vazios estão encalhados na terra ressecada e rachada do outrora imponente lago Poopó, na Bolívia. A redução do nível de água do lago tem sido contínua durante anos, mas no início de 2016 secou quase completamente – um desastre para a vida selvagem e famílias dependentes dele para a pesca.
O lago Poopó sempre foi raso. Mas cientistas afirmam que, desta vez, ele pode não se recuperar. As mudanças climáticas fazem parte do problema. A precipitação diminuiu regularmente, e as temperaturas aumentaram dois graus Celsius nas últimas três décadas – um fator agravado pelo fenômeno El Niño, segundo os especialistas.
Mas o ressecamento do lago é um desastre também causado pelo Homem. A água do rio que alimenta o lago é desviada para a agricultura, assim como às minas de prata e estanho na região.
Cerca de 30 milhões de pessoas dependem do lago Chade, cuja água diminuiu dramaticamente no último meio século
Lago Chade
O lago Chade chegou a ser um dos maiores do mundo. Durante séculos, tem sido uma fonte vital de alimento e água para as comunidades que vivem ao redor. Mas ele está desaparecendo num ritmo assombroso. Desde a década de '960, diminuiu de cerca de 25 mil quilômetros quadrados para 1.350 quilômetros quadrados – o que equivale aproximadamente ao tamanho de Belize, pequeno país caribenho. A área é agora um amontoado de lagoas, ilhas e vegetações rasteiras.
O que outrora era uma terra fértil virou poeira. Agricultura e reservas piscícolas entraram em colapso. Cerca de 30 milhões de pessoas em países que incluem Chade, Camarões, Níger e Nigéria dependem dessas águas. O encolhimento do lago mergulhou a bacia numa crise de alimentos e desnutrição "numa escala épica", de acordo com agências de ajuda humanitária.
Projetos insustentáveis de irrigação, desviando a água do lago e dos rios Chari e Logone, são parte do problema. Entre 1983 e 1994, a irrigação na área aumentou quatro vezes, segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). Mas as temperaturas elevadas e a diminuição das chuvas devido às mudanças climáticas também carregam culpa.
O Mar Morto é destino turístico apreciado por suas supostas propriedades curativas e pela diversão de flutuar
Mar Morto
O Mar Morto é, na verdade, um grande lago. É abastecido pelo rio Jordão e, embora não tenha nenhuma ligação com qualquer oceano, é tão salgado que nada além de alguns tipos de bactérias e algas conseguem sobreviver. Localizado na fronteira entre Israel, Cisjordânia e Jordânia, o Mar Morto é visitado por muitos banhistas e turistas devido às suas supostas propriedades de cura e à diversão de flutuar sem qualquer esforço. 
O lago sobreviveu por milhares de anos porque a relação da água que evapora dele e aquela que flui nele permaneceu relativamente estável. Mas esse equilíbrio foi conturbado com o crescimento populacional na região. A água tem sido desviada para abastecer casas e também para o uso no setor químico e em plantações de batata. O nível está caindo cerca de um metro por ano, e o Mar Morto pode desaparecer completamente.
Carcaças de embarcações encalhadas em áreas que outrora eram banhadas pelo Mar de Aral
Mar de Aral
Carcaças enferrujadas se erguem da areia como monumentos fantasmagóricos – numa região que já fora um porto de pesca vívido e próspero. A cidade de Moynaq, no Cazaquistão, teve em seu auge dezenas de milhares de habitantes e estava localizada nas margens do Mar de Aral. Agora, as águas do que já foi o quarto maior lago do mundo estão a mais de cem quilômetros de distância, e a próspera indústria pesqueira e de alimentos em conserva da cidade desmoronou.
O Mar de Aral tem encolhido desde a década de 1970. A água que fluía no grande lago foi desviada para irrigar a crescente produção de algodão do Uzbequistão, como parte do plano soviético de transformar a Ásia Central no maior produto mundial de algodão. Durante certo tempo, o país foi o maior exportador de algodão do mundo. Mas o desvio da água, juntamente com a construção de hidrelétricas e reservatórios, cobra o seu preço. É um desastre ambiental para as pessoas que vivem ao redor do lago e também para a vida selvagem.
Fonte: dw

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Descoberto o primeiro híbrido entre dois tipos de golfinho

Pesquisadores no litoral do Havaí encontraram um golfinho híbrido que até então era desconhecido. A criatura é uma mistura entre um golfinho-de-dentes-rugosos (Steno bredanensis), e um golfinho-cabeça-de-melão (Peponecephala electra).
O animal foi encontrado perto da Kauai (Havaí) em agosto de 2017 e os cientistas que o identificaram conseguiram uma amostra de pele dele para analisar o DNA. Com base neste tecido, foi possível confirmar que o pai é um golfinho-de-dentes-rugosos e a mãe é um golfinho-cabeça-de-melão.
Golfinho-dentes-rugosos (acima) e golfinho-cabeça-de-melão (abaixo)
O biólogo Robin Baird, que faz parte do grupo de pesquisadores, diz que não ficaria surpreso em encontrar outros animais híbridos entre as duas espécies. “Eles se associam com bastante regularidade”, afirma ele. O que tornou este caso especial é que a mãe do golfinho integrou-se sozinha a um grupo de animais do tipo dentes-rugosos.
Os golfinhos-cabeça-de-melão costumam viajar juntos em grupos de cerca de 250 integrantes. Na região do Havaí há um grande grupo com cerca de 250 animais dessa espécie. Como esta fêmea decidiu mudar-se para um grupo de outra espécie, suas chances de cruzar com um macho dentes-rugosos aumentou.
A descoberta pode trazer informações interessantes sobre as espécies envolvidas. Uma delas é que híbridos costumam acontecer quando a espécie do pai ou da mãe passa por uma queda de população e os indivíduos têm dificuldade em encontrar parceiros dentro do mesmo grupo. Esta hipótese ainda não foi confirmada para este grupo específico.
“Ainda não temos nenhuma informação sobre a tendência populacional de nenhuma dessas duas espécies do Havaí, então não podemos dizer se este é o caso, mas estamos procurando evidência de outros híbridos”, explica ele.
O nascimento de um animal híbrido não significa necessariamente que uma nova espécie está sendo estabelecida. Isso porque muitos híbridos são inférteis ou se reproduzem com grande dificuldade, o que significa que não conseguem produzir herdeiros genéticos com outros híbridos. Um exemplo disso é a mula, híbrido entre um asno e um cavalo, que não consegue gerar filhotes.
Já um exemplo de híbrido que originou uma nova espécie são os fringilídeos de Galápagos, que se constituíram em apenas duas gerações.
Ainda não se sabe se este golfinho híbrido descoberto no Havaí é fértil ou infértil. Outros híbridos de golfinhos conhecidos são os filhotes de golfinhos-nariz-de-garrafa e falsa-orca, e também de baleias belugas e narvais.
Esta pesquisa foi realizada pelo coletivo Cascadia Research durante duas semanas, com financiamento da Marinha dos EUA para documentar a vida marinha que cerca a base Pacific Missile Range.

Fonte: Hypescience