sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Como os cupins ajudam as florestas equatoriais a sobreviverem às mudanças climáticas.

Árvores em meio à neblina da floresta equatorial no Parque Nacional de Gunung Palung, na Ilha de Bornéu, na Indonésia. (FOTO DE TIM LAMAN, NAT GEO IMAGE COLLECTION)
Árvores, algumas das mais altas do mundo, erguiam-se diante de Hannah Griffiths e seus colegas toda manhã quando eles adentravam um trecho intacto de floresta equatorial na Bacia de Maliau, em Bornéu. Pássaros cantavam e animais silvestres apareciam de vez em quando. Um dia, um urso-malaio surgiu na frente deles. No outro, uma cobra real se esgueirou pelo caminho.
Contudo os cientistas continuavam andando, atravessando pontes suspensas e adentrando cada vez mais a floresta, onde haviam instalado uma série de experimentos para analisar os efeitos ecológicos de criaturas menores e menos chamativas: os cupins.
Os cupins, como eles já sabiam, dominam o chão da floresta, mastigando folhas que caem das árvores, escavando túneis e arejando o solo em uma verdadeira “engenharia” do ecossistema. Mas eles não conheciam exatamente a importância que os insetos têm na manutenção da saúde e do funcionamento da floresta—então tiveram que descobrir o papel dos cupins, retirando-os de uma determinada área da floresta e verificando a reação do ambiente.
Por sorte, eles começaram o experimento quando a floresta passava por uma grande estiagem, durante o fenômeno El Niño de 2015-2016. E o que eles descobriram—resumido em um estudo publicado na revista científica Science foi inesperado: os cupins estavam por toda parte—quase o dobro da quantidade encontrada em um ano com precipitação normal. E esses cupins ajudaram a floresta a suportar a estiagem e manter-se intacta e saudável: nas áreas ricas em cupins, o solo permaneceu úmido, mais sementes de árvores germinaram e o sistema prosperou, apesar do longo e duro período de seca.
“Eles são como um seguro ecológico”, afirmou Griffiths, entomologista da Universidade de York no Reino Unido. Os cupins, explica ela, acabaram protegendo a floresta do estresse das mudanças climáticas.

Cupins ao resgate

Os cupins têm má reputação. Eles viram notícia, pois consomem bilhões de dólares em bens todos os anos nos Estados Unidos—e, por vezes, literalmente comem dinheiro. Eles são responsáveis por cerca de 2% das emissões de carbono globais, apenas em razão de suas populações enormes e devido à tendência de se alimentarem de materiais ricos em carbono. Uma indústria inteira está direcionada ao extermínio deles.
Contudo, eles exercem um papel fundamental em muitos ecossistemas naturais. Os cientistas sabem há anos que, em florestas tropicais, os cupins alimentam-se de folhas caídas e madeira morta, mantendo o número de troncos caídos sob controle e devolvendo ao sistema nutrientes do material morto para serem usados por outras plantas, insetos e animais.
Foi muito difícil identificar o papel exato dos cupins em muitos dos ecossistemas habitados por eles—quem exatamente era responsável pela maior parte da arrumação do chão da floresta: os cupins, os micróbios do solo, as formigas ou todos eles juntos? Mas a equipe descobriu uma forma de exterminar os cupins, e apenas os cupins de algumas pequenas regiões da floresta, colocando montinhos de celulose envenenada como iscas—“bem parecidos com rolos de papel higiênico”, afirma Griffiths—que apenas os cupins eram capazes de digerir. O que restou foi um ecossistema praticamente livre de cupins que pôde ser comparado a ecossistemas não afetados, permitindo identificar o papel exato exercido pelos insetos.
Em anos sem estiagem, eles observaram, não havia muita diferença entre os lotes normais e aqueles em que eles retiraram os cupins. Entretanto, durante a estiagem, os efeitos foram acentuados. Onde havia mais cupins alimentando-se de depósitos de folhas mortas, o solo permaneceu úmido e sementes germinaram, ajudando a floresta a enfrentar a pior estiagem em 20 anos.
“Os cupins podem ser eficientes para abrandar as mudanças climáticas”, afirma Rob Pringle, ecologista da Universidade de Princeton, que não participou do estudo. “Quanto mais fizermos para tentar manter a integridade dos conjuntos de comunidades naturais, mais resistentes elas estarão aos desafios futuros, como as mudanças climáticas”.

Um futuro árido

Cientistas preveem que, com o avanço das mudanças climáticas, as estiagens da região podem se tornar mais severas, causando ainda mais estresse aos últimos fragmentos da floresta equatorial intocada de Bornéu, conta Jane Hill, entomologista da Universidade de York, que trabalha na floresta de Maliau há anos. Contudo, para ela, a mensagem está clara: os cupins são importantes para manter a integridade da floresta diante das mudanças climáticas.
Entretanto, a maior parte das florestas tropicais restantes no mundo—em Bornéu e em outros lugares—não é tão perfeita e inexplorada assim e, em muitas delas, as populações de cupins já foram drasticamente reduzidas. “Muitas florestas foram fragmentadas ou degradadas”, afirma Hill. “Qual o grau de resiliência delas?”.
E, em um futuro determinado pelo clima, até o reforço que os cupins podem oferecer à floresta pode não ser suficiente. “É evidente que os cupins têm o potencial de serem muito benéficos”, conta Carina Tarnita, ecologista da Universidade de Princeton, que não participou do estudo. “Mas o que acontecerá com eles após os efeitos das mudanças climáticas? Até quando conseguirão aguentar?”.
Para Griffiths, o seu próprio estudo lhe mostrou o quanto ainda temos que aprender sobre as inter-relações desse ecossistema com o ecossistema de florestas tropicais ao redor do mundo. Eles descobriram a verdadeira importância dos cupins ao sistema por acaso, porque decidiram estudar a estiagem, destaca ela. E isso “me preocupa”, prossegue, “porque me faz pensar no que mais não sabemos? Se começarmos a destruir comunidades biológicas, nunca conheceremos as consequências”.
Fonte: National Geographic

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Colapso de insetos cria desastre ecológico, afetando população de aves e repteis, em Porto Rico.

O cientista Brad Lister retornou à floresta tropical de Luquillo, em Porto Rico, depois de 35 anos para descobrir que 98% dos insetos haviam desaparecido do solo.
Ele pode notar a diferença de cara: não havia pássaros em nenhum lugar.
Aos poucos, Lister chegou à conclusão aterradora: a população de insetos que uma vez forneceu alimento abundante para as aves em todo o montanhoso parque nacional havia desmoronado.
No chão, 98% tinham ido embora. Nas copas frondosas, 80% haviam desaparecido. “É um verdadeiro colapso das populações de insetos na floresta tropical. Começamos a perceber que isso é terrível – um resultado muito, muito perturbador”, disse.

Desastre ecológico

Os insetos são 17 vezes mais abundantes que os humanos na Terra, e fundamentais para a cadeia alimentar. Seu colapso beira um “Apocalipse Ecológico” e o culpado mais provável é, de longe, o aquecimento global.
O trabalho em Porto Rico é apenas um dos poucos estudos que avaliam essa questão vital.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Bebê orca de espécie ameaçada aparece nos Estados Unidos.

CIENTISTAS ESTÃO PREOCUPADOS COM A SOBREVIVÊNCIA DA ORCA BEBÊ (FOTO: CENTER FOR WHALE RESEARCH)
população de orcas de Puget Sound, nos Estados Unidos, tem algo para comemorar: uma fêmea deu à luz. Em 10 de janeiro, imagens aéreas registraram o filhote nadando perto da fêmea de 31 anos conhecida como L77.
A espécie (Orcinus orca) é monitorada desde 1976 pelo Centro de Pesquisa de Baleias (CWR). Elas são conhecidas como orcas residente no sul e são classificadas em três grupos sociais, nomeados de J, K e L.
Em 11 de janeiro, os cientistas da CWR saíram em um barco para investigar a aparição do bebê. Sua presença foi confirmada às 9h50 do horário local. “O filhote parecia ter cerca de três semanas de idade e estava pulando entre L25, L41, L77, L85 e L119”, informou um comunicado da instituição.
ORCA BEBÊ L124 NADA AO LADO DE L41 AND L85 (FOTO: CENTER FOR WHALE RESEARCH)
Os pesquisadores ainda não conseguiram identificar o sexo do recém-nascido, chamado de L124. Eles esperam futuras observações para desvendar essa questão, mas estão preocupados com o bebê. Isso porque cerca de 40% dos filhotes de orcas residentes do sul não sobrevivem após o primeiro ano.
Segundo a Marine Mammal Commission (MMC), agência federal de conservação de mamíferos marinhos, entre 2006 e 2011, havia 85 a 89 indíduos da espécie, mas o número diminuiu. Em 2018, a população perdeu um bebê e uma fêmea de 3 anos, o que reduziu seu número total para 74 orcas – o menor em mais de três décadas.
Fonte: Revista Galileu

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

América Latina e África podem se beneficiar da produção de bioenergia da cana.

Apesar de ser a energia renovável mais consumida no mundo – com participação equivalente à da energia hídrica, eólica, solar e de outras fontes renováveis somadas –, a bioenergia ainda é produzida de forma limitada frente ao potencial existente. O Brasil e os Estados Unidos, por exemplo, respondem juntos por mais de 80% da produção atual de biocombustíveis líquidos.

“Diversos países também estão usando a bioenergia, mas poderia ser muito mais. Isso dá a impressão de que a bioenergia seria uma ‘jabuticaba’, que só funciona em alguns países”, disse Luiz Augusto Horta Nogueira, pesquisador associado do Núcleo Interdisciplinar de Planejamento Energético da Universidade Estadual de Campinas (Nipe-Unicamp) e membro da coordenação do Programa FAPESP de Pesquisa em Bioenergia (BIOEN).
A fim de superar essa visão, mostrando que a bioenergia pode ser produzida de forma eficiente e proporcionar benefícios econômicos e sociais para vários outros países, Nogueira e colegas do Nipe-Unicamp e de diversas instituições do Brasil e do exterior realizaram um estudo, nos últimos cinco anos, apoiado pela FAPESP, em que avaliaram o potencial de expansão da produção de bioenergia da cana na América Latina e na África.
Os resultados do trabalho denominado Projeto LACAF, realizado no âmbito do BIOEN, foram reunidos no livro Sugarcane bioenergy for sustainable development, lançado em 14 de dezembro na sede da FAPESP.
O livro reúne 33 artigos, de autoria de 60 pesquisadores do Brasil e do exterior, em que avaliam o potencial da bioenergia da cana como uma estratégia para o desenvolvimento sustentável de países da América Latina e da África.
As duas regiões foram escolhidas porque apresentam condições muito favoráveis para produção e são estratégicas para a expansão da bioenergia no mundo. Um estudo feito pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) apontou que cerca de 440 milhões de hectares de terra estariam disponíveis globalmente para serem usados para produção de bioenergia até 2050.
Mais de 80% dessas terras estariam localizadas justamente na África e na América do Sul e Central, sendo que cerca de 50% delas em apenas sete países: Angola, República Democrática do Congo e Sudão, na África, e Argentina, Bolívia, Colômbia e, em maior parte, no Brasil, na América Latina.
“O Brasil é, de longe, o país com maior disponibilidade de terra para plantio de cana para produção de bioenergia. O país é um exemplo raro, caso atípico, de produção de bioenergia a partir da cana com alta produtividade”, disse Luis Augusto Barbosa Cortez, professor da Unicamp e coordenador do projeto, durante o lançamento do livro.
De acordo com os estudos, além do Brasil, outros países da América Latina que tiveram sucesso no cultivo da cana foram a Colômbia, a Argentina e a Guatemala.
A exemplo do Brasil, a Colômbia produz cana e etanol com alta produtividade. Por sua vez, a Argentina iniciou recentemente um programa de geração de bioenergia a partir da cana e do milho e tem atingido níveis de mistura de etanol na gasolina próximos aos do Brasil. E, paradoxalmente, a Guatemala é um grande produtor de açúcar da cana, produz e exporta etanol para os Estados Unidos e importa toda a gasolina de que necessita.
Já na África, as experiências mais bem-sucedidas ocorreram na África do Sul – que hoje é o maior produtor de açúcar da cana do continente africano –, além das Ilhas Maurício, Malawi e, mais recentemente, Moçambique.
Em comum nas duas regiões uma parcela expressiva de suas populações ainda não tem acesso à eletricidade e energia limpa para cocção de alimentos. Na África Austral, por exemplo, estima-se que 59 milhões de pessoas utilizem carvão para cozinhar – o que gera sérios problemas de saúde e ambientais, como o desmatamento. “A energia limpa para cocção na África pode ser a bioenergia”, disse Nogueira.
A demanda por etanol para cocção de alimentos na África Austral seria muito superior à voltada para o abastecimento da frota veicular da população das cidades, onde até 90% da população usa energia de baixa qualidade e em condições insalubres para cozinhar, estimam os pesquisadores. Uma família típica da região precisaria de 360 litros de etanol por ano para abastecer um fogão a etanol, calcularam.
“A produção de etanol para cocção já foi tentada em alguns países da África, como em Moçambique, mas não foi adiante porque faltou combustível. Mas se tiver disponibilidade de etanol para essa finalidade com certeza o mercado vai absorver a produção”, disse Nogueira.
Os pesquisadores estimaram que a produção de 4,1 bilhões de litros de etanol de cana e de 2,7 terawatt-hora (TWh) de eletricidade por ano em Moçambique geraria 3,3 milhões de empregos e aumentaria em 28% o Produto Interno Bruto (PIB) do país africano.
Para produzir essa quantidade de combustível e de eletricidade seria necessário cultivar cana em 600 mil hectares, o que corresponde a menos de 3% da terra disponível para plantação de cana no país africano, afirmaram.
“Há terra adequada e disponível suficiente no país para expandir a produção de cana-de-açúcar, sem prejudicar outros usos, como a produção de alimentos e de ração animal. A visão de que a produção de bioenergia competiria com os alimentos é equivocada”, disse Nogueira.
A inclusão de pequenos produtores deve fazer parte do modelo de produção dos países que adotarem a bioenergia da cana, segundo Manoel Regis Lima Verde Leal, professor da Unicamp e um dos editores do livro, juntamente com Cortez e Nogueira.
À exceção do Brasil, da Austrália e dos Estados Unidos, no resto do mundo a cana é cultivada por pequenos produtores, em propriedades agrícolas menores do que 10 hectares. “A Índia, que é o segundo maior produtor de cana no mundo hoje, tem 5 milhões de hectares de cana plantada e 50 milhões de produtores”, disse Leal.
Participação no debate mundial
Na avaliação de Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da FAPESP, estudos como o realizado pelos pesquisadores do projeto LACAF têm contribuído para inserir a pesquisa em bioenergia feita no Estado de São Paulo na discussão mundial sobre a sustentabilidade da bioenergia da cana.
Há menos de uma década o espaço dos pesquisadores brasileiros no debate mundial sobre esse tema era muito menor do que é hoje. “Estudos como esse contribuem para que os pesquisadores da área em São Paulo participem e até mesmo liderem a discussão mundial sobre quais são as condições necessárias para se produzir bioenergia a partir da cana em grande escala em outras regiões do mundo”, disse Brito Cruz.
Prestes a completar 10 anos – em 2019 –, o BIOEN já resultou em mais de mil publicações. O impacto dos trabalhos publicados fez com que, em 2013, pesquisadores ligados ao programa fossem convidados a coordenar um estudo da sustentabilidade da bioenergia global para o Comitê Científico para Problemas do Ambiente (Scope, na sigla em inglês) – agência intergovernamental associada à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).
“A realização desses estudos têm realmente ajudado a projetar os resultados da pesquisa sobre bioenergia em São Paulo nos fóruns mundiais sobre o tema”, disse Gláucia Mendes Souza, professora do IB-USP e membro da coordenação do BIOEN.
Sugarcane bioenergy for sustainable developmentLançamento: 2018
Preço: US$ 120
Páginas: 418
Mais informações: www.routledge.com/Sugarcane-Bioenergy-for-Sustainable-Development-Expanding-Production-in/Cortez-Leal-Nogueira/p/book/9781138312944
Fonte: FAPESP

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Mar engole condomínio de luxo e pontos turísticos em Sergipe.

Menor Estado do país, Sergipe começa a sentir com maior intensidade os efeitos do avanço do mar. A invasão das águas afetou povoados e condomínio de luxo. Na capital, Aracaju, vem destruindo pontos turísticos e já ameaça bairros inteiros.
O transtorno mais recente em Aracaju se estende desde o dia 3 de maio. Um trecho de 600 metros da avenida Beira-Mar, uma das principais da cidade, foi interditado em razão do avanço das águas do rio Sergipe, que é ligado ao oceano Atlântico.
Enquanto a prefeitura (do DEM) e o governo (do PT) não se entendem sobre os estudos ambientais necessários à obra de recuperação, o trânsito na avenida fica caótico nos horários de pico e comerciantes reclamam da queda no movimento.
A chamada erosão costeira – desequilíbrio entre “o que chega” e “o que sai” de sedimentos no mar – responde em grande parte pela mudança de cenário em Sergipe.
“Nossa costa é formada por depósitos sedimentares, não é rochosa e com contenção costeira como em outras regiões. E temos muita água ao redor de Aracaju, influência do mar e de marés”, diz o secretário estadual do Meio Ambiente, Genival Nunes.
Na orla da praia de Atalaia, a mais famosa de Aracaju, a praça de eventos foi interditada após o mar destruir parte da estrutura. Bares localizados no início desta praia também já viraram história, assim como parte do asfalto da avenida litorânea.
Até uma atração de Aracaju que figurava no Guinness Book cedeu ao avanço das águas. Reconhecida em 2010 como “maior árvore de Natal do mundo”, a estrutura não é montada desde 2011, quando o local da montagem foi coberto por dois rios. 
Fonte: Folha.com

sábado, 12 de janeiro de 2019

ONU Meio Ambiente aponta lacunas na reciclagem global de plástico.

Refugiado sírio trabalha como catador de lixo no Líbano. Foto: ACNUR/Lynsey Addario.

O mundo produz cerca de 300 milhões de toneladas de lixo plástico a cada ano. Até o momento, somente 9% do lixo plástico gerado foi reciclado e somente 14% são coletados para reciclagem. A ONU Meio Ambiente explica desafios e soluções para o reaproveitamento do material.

Embora não exista solução imediata para a maré tóxica de plásticos emergindo em nossos oceanos, a reciclagem deve ser parte da resposta. O problema, segundo muitos especialistas, é que os processos atuais não são adequados ao propósito.
O mundo produz cerca de 300 milhões de toneladas de lixo plástico a cada ano. Até o momento, somente 9% do lixo plástico gerado foi reciclado e somente 14% são coletados para reciclagem.
As razões por trás disso são complexas. Nem todo plástico pode ser reciclado e uma falta de conscientização pública significa que coletas do material são frequentemente contaminadas. Isto pode aumentar o preço da reciclagem.
Nos Estados Unidos, por exemplo, a introdução da reciclagem de fluxo único – na qual recicláveis não são separados em coletas domésticas – levou a um grande aumento em taxas de reciclagem. Mas conforme os plásticos foram se tornando mais complexos, as pessoas começaram a colocar as coisas erradas em suas lixeiras. A Waste Management, a maior processadora de reciclagem residencial na América do Norte, diz que, atualmente, um em cada quatro itens em coletas seletivas não é reciclável.
“Químicos acrescentados aos polímeros plásticos, produtos feitos de materiais mistos e embalagens de alimentos contaminadas com restos orgânicos deixam a reciclagem difícil e cara”, escreveram os autores do relatório O Estado dos Plásticos, da ONU Meio Ambiente.
A necessidade de repensar a reciclagem se tornou mais visível quando a China, que importa quase metade do lixo do mundo desde 1992, parou de receber lixos plásticos estrangeiros em meados de 2018. A decisão do gigante asiático expôs os problemas das instalações de reciclagem em muitos outros países.
Há razões financeiras para as deficiências do setor. Dependendo do preço do petróleo, é frequentemente mais barato produzir plástico virgem, enquanto o preço do mercado para o plástico reciclado é notoriamente volátil, fazendo com que investidores fiquem relutantes em se comprometer com o reaproveitamento.
Durante anos, ativistas argumentaram que produtoras de embalagens e varejistas deveriam pagar mais para cobrir o custo de lidar com seus lixos. Embora muitas marcas tenham se comprometido a usar mais plástico reciclado, a pressão é crescente para que ampliem suas ações.
No Reino Unido, o governo afirmou que planeja cobrar dezenas de milhões de libras a mais dos supermercados, varejistas e grandes empresas, para arcar com os custos da reciclagem. A estratégia irá incluir planos para aumentar as contribuições de varejistas e produtores, de cerca de 70 milhões de libras ao ano para um valor entre 500 milhões e 1 bilhão de libras anuais. Também há a intenção de incluir produtores menores.
A Comissão Europeia divulgou uma Estratégia para Plásticos em janeiro, afirmando que sua meta de fazer com que todas as embalagens plásticas sejam reutilizáveis ou recicláveis até 2030 pode criar 200 mil empregos — mas só se as capacidades de reciclagem forem multiplicadas por quatro. A União Europeia recicla menos de 30% das suas 25 milhões de toneladas de lixo plástico a cada ano. Metade disso costumava ser enviada à China.
Como parte de sua nova política, o bloco europeu irá desenvolver novas regras sobre embalagens, com o intuito de aumentar a reciclabilidade de plásticos e a demanda. O objetivo é melhorar e ampliar as instalações de reciclagem, além de criar um sistema mais padronizado para a coleta e separação de lixo.

ONU na linha de frente contra o plástico descartável

A ONU Meio Ambiente, que começou sua campanha Mares Limpos em 2017, para eliminar plásticos descartáveis, também apoia a implementação de sistemas integrados de gerenciamento de lixo, por meio do seu Centro Internacional de Tecnologia Ambiental, no Japão.
Existe uma clara necessidade de apoiar estratégias de gestão de lixo em países mais pobres, onde autoridades municipais frequentemente não possuem as capacidades para implementar políticas adequadas. Alguns desses países estão entre os maiores poluidores dos mares: 90% dos plásticos em nossos oceanos vêm de apenas dez rios, sendo oito deles na Ásia.
Alguns dos maiores atores da indústria descobriram as lacunas. Em outubro, a companhia de gerenciamento de lixo Veolia e a gigante Unilever afirmaram estar trabalhando juntas para investir em novas tecnologias e aumentar a reciclagem, seguindo na direção de uma economia circular. A parceria de três anos irá focar, num primeiro momento, na Índia e na Indonésia, onde as empresas vão trabalhar para ampliar a coleta de lixo e as infraestruturas de reciclagem.
A Circulate Capital, uma companhia de gerenciamento de investimentos dedicada a prevenir a poluição dos oceanos com plásticos, afirmou em outubro que esperava 90 milhões de dólares em financiamentos. A verba vem de alguns dos maiores grupos de bens de consumo do mundo e companhias químicas, incluindo a PepsiCo, P&G, Dow e Coca-Cola.
Criada em colaboração entre a Closed Loop Partners e a Ocean Conservancy, a Circulate Capital busca demonstrar o valor de investir em gestão de resíduos e reciclagem no sul e sudeste da Ásia. A instituição usa fundos públicos e filantrópicos, assim como assistência técnica, para apoiar e desenvolver entidades estatais e não lucrativas. Com isso, espera implementar novas abordagens e melhorar as capacidades para combater o plástico.
“Nós reconhecemos que financiamento é uma barreira importante, as pessoas sempre querem saber ‘quem vai pagar por isso?’. Ao remover o capital para a infraestrutura e operadores como uma barreira, nós acreditamos que podemos acelerar soluções para políticas, educação, cadeias de fornecimento e mais”, afirma Rob Kaplan, fundador e CEO da Circulate Capital.
Grandes corporações não são os únicos atores relevantes. Em muitas economias em desenvolvimento, a reciclagem é realizada por milhões de catadores, frequentemente mulheres, crianças, idosos e desempregados. Eles podem estar no fronte da sustentabilidade, mas suas vidas são frequentemente cercadas por condições de trabalho insalubres, falta de direitos e estigmas sociais.
O Banco Mundial aponta em seu relatório What a Waste 2.0 que quando catadores são devidamente apoiados e organizados, a reciclagem informal pode criar empregos, aumentar a competitividade industrial local, reduzir a pobreza e diminuir gastos municipais.
Cidadãos também possuem um papel a ser desempenhado, mas a educação e a informação são essenciais. O Banco Mundial cita o exemplo da Jamaica, onde guardas ambientais, empregados pela Autoridade Nacional de Gestão de Dejetos Sólidos, ensinam seus vizinhos sobre como jogar fora seus lixos de forma ambientalmente amigável. As comunidades envolvidas coletam garrafas plásticas e removem outros resíduos feitos com o material de espaços compartilhados. As garrafas coletadas são vendidas para reciclagem.
“Não há solução imediata para resolver (o problema dos) plásticos nos oceanos e aumentar a reciclagem global. Investir em educação pública sem (melhorar a) infraestrutura não irá alcançar resultados e vice-versa”, avalia Kaplan, da Circulate Capital.
Em preparação para a Assembleia Ambiental das Nações Unidas, no próximo mês de março, a ONU Meio Ambiente está pedindo às pessoas que “pensem além” e “vivam dentro” dos limites sustentáveis do nosso planeta. Junte-se
Antes da Assembléia das Nações Unidas para o Meio Ambiente, em março próximo, o UN Environment está pedindo às pessoas que pensem além e vivam dentro delas. Junte-se ao debate nas redes sociais usando a hashtag #SolveDifferent para compartilhar as suas histórias e ver o que os outros estão fazendo para garantir um futuro sustentável para o nosso planeta.
Fonte: ONU

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Oceanos se aquecem mais rápido que o esperado e batem recorde de calor em 2018, dizem cientistas.

Aquecimento dos oceanos foi o mais acentuado registrado desde 1971 — Foto: dimitrisvetsikas1969/Creative Commons
Os oceanos estão se aquecendo mais rápido do que o estimado anteriormente, tendo atingido um novo recorde de temperatura em 2018 e mantendo uma tendência prejudicial à vida marinha, disseram cientistas nesta quinta-feira (10).
Novas medições, feitas com o auxílio de um rede internacional de 3,9 mil flutuantes lançados nos oceanos desde o ano 2000, mostraram o aquecimento mais acentuado desde 1971 e maior do que o calculado pela mais recente avaliação da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre o aquecimento global, feita em 2013, segundo os pesquisadores.
Eles acrescentaram que “registros observacionais do calor interno do oceano mostram que o aquecimento está acelerando”, escreveram cientistas da China e dos Estados Unidos em estudo publicado na revista Science, para o qual foram medidas as temperaturas até os 2 mil metros de profundidade.
A emissão de gases do efeito estufa pela ação humana estão aquecendo a atmosfera, de acordo com a grande maioria dos climatologistas, e uma grande parte desse calor é absorvida pelos oceanos. Isso obriga a vida marinha a fugir para águas mais frias.
“O aquecimento global está aqui e já tem grandes consequências. Não resta dúvida, nenhuma!”, escreveram os autores do estudo em um comunicado.
Pelo Acordo do Clima de Paris, cerca de 200 países concordaram em reduzir o uso de combustíveis fósseis ainda neste século, com o objetivo de conter o aquecimento. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que quer promover os combustíveis fósseis produzidos nos EUA, planeja se retirar do pacto em 2020.
Fonte: Reuters