sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Cúpula do Clima reúne líderes mundiais para debater alternativas sustentáveis.

Líderes de todo o mundo se reúnem hoje, dia 23, para debater e propor ações que possam evitar impactos e crises ambientais.

No dia, 23 de setembro, acontece em Nova York a Cúpula do Clima da Organização das Nações Unidas (ONU). O Secretário Geral da ONU, António Guterres, convidou a todos os líderes para estar presentes neste encontro, que considera urgente devido às necessidades de pactuar planos que possam reduzir as emissões nos próximos anos.
A Cúpula acontece um dia antes da abertura da Assembleia Geral da ONU. Na conferência de imprensa, Guterres afirmou sobre a importância de enfrentar os desafios da mudança climática com metas e prazos claros. “Os objetivos são muito difíceis, mas possíveis, o que precisamos é de vontade política. Esta ainda não existe, mas vejo a opinião pública cada vez mais forte, e a juventude radicalmente comprometida”, afirmou.
O espaço de discursos da Cúpula será destinado aos países que vêm apresentando atitudes inspiradoras sobre o combate ao crime ambiental e implementando programas de preservação e sustentabilidade.
Mas além de discursos, esperam-se ações concretas. Guterres afirma que é com a pressão social que os governos agem. “Quero toda a sociedade pressionando os Governos para que entendam que precisam ir mais rápido, porque estamos perdendo a corrida, as consequências dos desastres naturais são cada vez mais devastadoras”, alertou.
Entre as ações com maior enfoque neste encontro, a ONU listou 6 setores importantes que se devem priorizar:
  • Finanças: movimentação de investimentos e financiamentos públicos e privados
  • Transição energética: Incentivo às energias renováveis e eficiência energética
  • Transição industrial: Transformação das indústrias
  • Medidas com base na natureza: diminuir as emissões e aumentar a resiliência nos setores produtivos e nos ecossistemas
  • Ação local e nas cidades: Avance para a mitigação e a resiliência urbano e local, para edifícios, transportes e toda a infraestrutura com compromissos para reduzir as emissões, com atenção especial às pessoas mais vulneráveis
  • Adaptação: melhorar os esforços para enfrentar os impactos da mudança climática.
A ONU já declarou antes que é necessário reduzir em 45% as emissões de dióxido de carbono para 2030, e que esta emissão não supere a capacidade absorção em 2050.
“É preciso fazer as pessoas compreenderem que há uma emergência climática hoje, que o problema da mudança climática é de hoje, que a saúde pública está ameaçada hoje, que o mar está subindo hoje, que as temperaturas já estão provocando problemas muito graves.”, alertou o Secretário Geral da ONU.
Para profissionais interessados em se especializar sobre as ações e estratégias de mitigação e resiliência, a FUNIBER patrocina o Mestrado em Mudanças Climáticas, enfocado em conhecimentos que ofereçam alternativas sustentáveis de desenvolvimento.
Fontes:

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Queimadas diminuem na Amazônia, mas crescem em outras regiões.

Depois de aumentos alarmantes em julho e agosto, os números de queimadas na Amazônia diminuíram em setembro em relação ao mesmo mês do ano passado, segundo dados divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisa Espacial (Inpe) nesta terça-feira (01/10). Focos de incêndios em outros biomas, porém, cresceram no mesmo período.

Segundo o Inpe, em setembro, foram registrados 19.925 focos de incêndios na Amazônia, o que representa uma queda de 19,66% em relação ao mesmo mês de 2018, quando houve mais de 24 mil focos. Já em relação a agosto, a queda foi de 35,52%.
Historicamente setembro costuma ser um mês em que há aumento no número de queimadas na Amazônia. De acordo com especialistas, a redução ocorreu devido ao envio de militares para combater o fogo na região.
Diante do recorde de focos de incêndios registrados em julho e agosto e da pressão internacional, o presidente Jair Bolsonaro proibiu queimadas na região por 60 dias e enviou militares para ajudar a combater os incêndios.
Em relação ao acumulado do ano, o número de queimadas nos primeiros nove meses chegou a 66.750 e já bateu a quantidade registrada em todo o ano de 2018. Em relação a janeiro e setembro de 2018, houve um aumento de 42,11%, quando no ano passado foram registrados 46.968 focos.
O Inpe, no entanto, alertou para o aumento do desmatamento na região. Entre 1º e 19 de setembro, a Amazônia perdeu 1.173 quilômetros quadrados de cobertura vegetal, 58,65% a mais do que no mesmo período de 2018.
Apesar da queda na Amazônia, as queimadas aumentaram em setembro em outras regiões do país. O bioma mais afetado no momento é Cerrado, onde os focos dobraram, passando de 11.467 em setembro de 2018 para 22.989 em 2019.
Grandes altas foram registradas ainda na Mata Atlântica, com 4.333 mil focos em setembro de 2019 contra 2.309 no mesmo mês do ano passado, um aumento de 87,65%, e no Pantanal, com 2.887 mil focos em setembro de 2019 contra 785 no mesmo mês do ano passado, um aumento de 267,7%.
Já no Pampa, houve um aumento de 307,4%, passando de 67 focos em setembro de 2018 para 273 no mesmo período deste ano. Somente na Caatinga, as queimadas se mantiveram estáveis em cerca de 2,8 mil focos.
Fonte: Deutsche Welle

A ‘Ilha Inacessível’ no meio do oceano que virou um depósito de plástico.

Uma ilha remota no sul do Oceano Atlântico ajudou a revelar a escala do problema dos resíduos plásticos que os mares enfrentam.

Cerca de 75% das garrafas encontradas na costa da Ilha Inacessível, no Atlântico Sul, eram da Ásia. A maioria delas foi feita na China e fabricada recentemente, dizem pesquisadores da África do Sul e do Canadá, escrevendo no periódico Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), o que indicaria que teriam sido descartadas de navios.
Estima-se que 12,7 milhões de toneladas de plástico vão parar nos oceanos a cada ano. Mas esse número se refere apenas ao que é de descartado a partir da terra.
Os autores do estudo apontam que hoje se supõe que a maioria do lixo encontrado no mar tenha essa origem. No entanto, os cientistas disseram que evidências indicam o contrário.

Garrafas PET são o lixo mais comum

“Quando estávamos [na chamada Ilha Inacessível] no ano passado, foi realmente chocante a quantidade de garrafas de bebida que havia”, explica Peter Ryan, diretor do Instituto de Ornitologia Africana FitzPatrick da Universidade da Cidade do Cabo, na África do Sul, e principal autor do estudo.
Durante sua pesquisas na ilha, que é considerada um patrimônio mundial pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco, na sigla em inglês), os cientistas examinaram 3.515 objetos em 2009 e 8.084 em 2018.
As garrafas de polietileno tereftalato (PET) foram o tipo mais comum de detrito e o que mais aumentou em número: 14,7% a cada ano, desde a década de 1980.
O objeto mais antigo, encontrado em 2018, foi um recipiente de polietileno de alta densidade fabricado em 1971. No entanto, a maioria das garrafas havia sido fabricada dois anos antes de ser achada em terra.

De onde vêm os detritos?

“É possível obter informações mesmo de garrafas sem rótulos. Eles têm datas, marcas de fabricantes e, quando você conhece os diferentes fabricantes, pode descobrir de onde vêm”, diz Ryan.
“O que realmente chocou foi como a origem mudou da América do Sul, que é o que você esperaria em algum lugar como a Ilha Inacessível, por causa da direção do vento. Mas, nos três meses em que estivemos na ilha, 84% das garrafas encontradas tinham vindo da Ásia.”
A combinação do fato de as garrafas serem da Ásia, especialmente da China, e o fato de terem sido fabricadas há pouco tempo, o que não permitiria que elas chegassem levadas pelas correntes oceânicas globais, indica que elas foram descartadas de navios que passavam pela região.
“Pensei inicialmente que seriam embarcações de pesca, porque estes barcos costumam ir para regiões nas quais os navios mercantes não costumam navegar. Mas, como a maioria das garrafas é da China, isso não bate, porque as embarcações de pesca no Atlântico Sul são taiwanesas e japonesas “, observa Ryan.
“Acho que há fortes evidências de que são provenientes de navios mercantes. Houve um aumento bem grande neste tipo de transporte marítimo, principalmente da América do Sul para a Ásia na última década. Foi um choque para mim, porque eu pensava que as frotas mercantes cumpriam razoavelmente [os acordos internacionais para que lixo não seja jogado no mar].”
Ryan diz estar interessado em dialogar com o setor de transporte marítimo internacional sobre estas descobertas e acrescenta: “Precisamos pensar com muito cuidado em como melhorar monitoramento e a aplicação das regulamentações”.
Fonte: BBC

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Venezuelanos e brasileiros removem 1 tonelada de lixo da maior bacia hidrográfica do mundo.

No meio do principal parque urbano de Manaus (AM), por onde correm as águas que irão desembocar na maior bacia hidrográfica do mundo, um grupo de cerca de 60 pessoas se uniu para uma ação pontual, mas com um propósito muito maior: limpar as margens do igarapé como forma de contribuir para preservação do lugar que hoje eles chamam de lar.

Inspirados a contribuir com a comunidade que os acolheu e a preservar o meio ambiente, cerca de 30 venezuelanos se juntaram à iniciativa “Igarapés Limpos”, que promove mutirões de limpeza nas margens dos rios da bacia amazônica. Um deles foi Omar, venezuelano de 70 anos que vive na cidade desde setembro de 2017 e atua como promotor comunitário da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).

No meio do principal parque urbano de Manaus (AM), por onde correm as águas que irão desembocar na maior bacia hidrográfica do mundo, um grupo de cerca de 60 pessoas se uniu para uma ação pontual, mas com um propósito muito maior: limpar as margens do igarapé como forma de contribuir para preservação do lugar que hoje eles chamam de lar.
Inspirados a contribuir com a comunidade que os acolheu e a preservar o meio ambiente, cerca de 30 venezuelanos se juntaram à iniciativa “Igarapés Limpos”, que promove mutirões de limpeza nas margens dos rios da bacia amazônica. Um deles foi Omar, venezuelano de 70 anos que vive na cidade desde setembro de 2017 e atua como promotor comunitário da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).
“O que me motiva a ser um promotor comunitário é poder ajudar pessoas, especialmente refugiados que têm muitas necessidades; e assim eu posso também colaborar com o país que me acolhe”, afirmou.
Nem o calor de mais de trinta graus desanimou o grupo. Durante um dia todo, luvas, máscaras e sacos de lixo foram os instrumentos de trabalho usados para remover plástico, papel, borracha, metal e até equipamentos eletrônicos do Parque do Mindu, uma área de conservação ambiental.
E os esforços do grupo renderam frutos: uma tonelada de lixo foi retirado das margens do rio. Em média, cada pessoa removeu 17 quilos de resíduos da natureza.
“Sinto que estou mudando alguma coisa, fazendo parte de algo que gera transformação. O que mais gostei é poder fazer algo produtivo pela comunidade e meio ambiente que nos rodeia”, afirmou Cristina, venezuelana de 40 anos que participou da inciativa.
Como parte dos seus esforços enquanto conectores entre refugiados e a comunidade brasileira, Omar, Cristina e outros promotores comunitários mobilizaram seus familiares e conhecidos para participar desta ação e promover maior integração local.
O ACNUR incentiva e desenvolve o projeto dos promotores comunitários junto com organizações parceiras, como Caritas Manaus, e com o apoio financeiro da União Europeia, que tem contribuído com a resposta ao fluxo venezuelano no Norte do país. Os projetos apoiados tem o objetivo de promover o empoderamento e autonomia de pessoas venezuelanas, assim como facilitar a convivência com a comunidade anfitriã.
Raquel Casellato, oficial de proteção do ACNUR, destacou a importância dos esforços coletivos. “É muito importante incentivar ações que promovam a integração dos refugiados com a comunidade local e a preservação ambiental. Os resultados são muito mais significativos quando as pessoas se unem.”
Enquanto coletava os resíduos com seus filhos de 16 e 22 anos, Cristina avaliou que a vivência superou suas expectativas. “Essa foi uma oportunidade muito importante de vivenciar a integração entre refugiados, comunidades de acolhida e o meio ambiente, ainda mais dessa cidade onde a gente vive hoje. Cuidar da natureza é cuidar de nós mesmos”, disse.
Fonte: ONU

Iceberg de 315 bilhões de toneladas se desprende da Antártida.

A plataforma de gelo Amery, localizada na na Antártida, acaba de produzir seu maior iceberg em mais de 50 anos.

O bloco tem uma área de 1.636 km² — um pouco maior que a cidade de São Paulo — e foi batizado de D28.
Assim que começa a se deslocar, um iceberg desse tamanho passa a ser monitorado e rastreado, pois no futuro pode se tornar um risco para o transporte marítimo. A Amery não produzia um iceberg tão grande desde a década de 1960.
Amery é a terceira maior plataforma de gelo da Antártida e um importante canal de escoamento para o leste do continente.
A plataforma é a extensão flutuante de várias geleiras que fluem na direção do mar. Perder icebergs para o oceano é a maneira como essas correntes de gelo mantêm o equilíbrio diante dos acúmulos de mais neve.
Mas os cientistas já previam esse acontecimento. O interessante é que boa parte da atenção sobre a área foi focada no leste do trecho que se separou.

‘Dente’ vizinho

Este é um segmento da Amery que ficou carinhosamente conhecido como Dente Mole, devido à sua semelhança em imagens de satélite com a dentição de uma criança. Ambas as áreas de gelo tinham o mesmo sistema de fendas.
Mas, embora pendente, o Dente Mole ainda continua preso. O D28 é que foi “extraído”.
“É um molar quando comparado a um dente de leite”, disse à BBC a professora Helen Fricker, da Scripps Institution of Oceanography.
Fricker havia previsto em 2002 que o Dente Mole se descolaria em algum momento entre 2010 e 2015.
“Estou empolgada em ver esse evento após todos esses anos. Sabíamos que isso aconteceria eventualmente, mas, para ficarmos mais espertos, não aconteceu exatamente quando esperávamos”, disse ela.
A pesquisadora do Scripps enfatizou que não havia ligação entre este evento e as mudanças climáticas.
Dados de satélite capturados desde a década de 1990 mostraram que a Amery está em equilíbrio com o ambiente, apesar de sofrer forte derretimento da superfície durante o verão.
“Embora haja muito com o que se preocupar na Antártida, ainda não há motivo de alarde em relação a essa plataforma de gelo em particular”, acrescentou a professora Fricker.
Entretanto, a Divisão Australiana da Antártida vai observar a Amery de perto para ver como ela reage. Os cientistas da divisão têm instrumentos na região.
É possível que a perda de um iceberg tão grande mude o equilíbrio na plataforma de gelo. Isso pode influenciar o comportamento das rachaduras e até a estabilidade do Dente Mole.
Calcula-se que o D28 tenha cerca de 210 metros de espessura e cerca de 315 bilhões de toneladas de gelo.
O nome vem de um sistema de classificação administrado pelo Centro Nacional de Neve e Gelo dos Estados Unidos, que divide a Antártida em quadrantes.
O quadrante D cobre as longitudes de 90 graus Leste a zero grau, o Meridiano de Greenwich. O tamanho do D28 é ofuscado pelo poderoso iceberg A68, que rompeu com a plataforma de gelo Larsen C em 2017. Atualmente, ele cobre uma área três vezes maior.
As correntes e ventos costeiros levarão o D28 para o oeste. É provável que demore vários anos para que se desmanche e derreta completamente.
Fonte: BBC

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Como a poluição em Manaus tem afetado chuvas e fotossíntese na Amazônia.

A poluição emitida no ar diariamente em Manaus tem alterado a composição química da atmosfera da floresta amazônica, modificando a formação de nuvens, a ocorrência de chuva, a incidência de luz solar na mata e o processo de fotossíntese da vegetação, atividades essenciais ao ecossistema da Amazônia.

A descoberta é de um grupo de pesquisadores brasileiros, alemães e americanos do GoAmazon 2014/2015, um projeto científico internacional que estuda como as mudanças promovidas pelo homem no meio urbano afetam a atmosfera limpa da região amazônica.
“Buscamos entender a transição que ocorreu entre as condições primitivas nos tempos pré-industriais para as condições atuais, impactadas pelas emissões urbanas”, conta o professor Henrique Barbosa, do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF-USP), integrante do GoAmazon.
Em março, 36 cientistas do GoAmazon, entre eles oito brasileiros, publicaram artigo na revista Nature Communications explicando por que, apesar de ser uma das poucas regiões continentais que ainda conservam uma atmosfera limpa semelhante a situações pré-industriais, o ar da Amazônia tem apresentado elevados níveis de aerossóis secundários (SOA), gases atmosféricos altamente poluentes e tóxicos ao meio ambiente e à saúde das pessoas.
“Ao observar o entorno de Manaus, cidade cercada por 1.500 quilômetros de floresta pristina (virgem), constatamos que os ventos conseguem carregar e espalhar a poluição urbana metropolitana sobre centenas de quilômetros da Amazônia”, explica Barbosa, que é um dos autores do artigo.
Uma vez em contato com o ar extremamente limpo da Amazônia, as partículas dos poluentes urbanos reagem com compostos orgânicos voláteis produzidos naturalmente pela floresta, formando altos níveis de aerossóis secundários.
“As emissões urbanas são compostas de poluentes gasosos e material particulado. Por meio de uma complexa química atmosférica, essas emissões influenciam a formação natural de aerossóis secundários na floresta, aumentando a quantidade de material particulado naquela atmosfera limpa”, explica Barbosa.
Em outras palavras, ao sofrer interferência das emissões urbanas, a própria floresta, que já produzia naturalmente níveis baixos de aerossóis, passou a produzir altos níveis do aerossol secundário, modificando a composição química natural da sua atmosfera.
O aerossol secundário – formado por partículas que podem ser sólidas, líquidas ou gasosas – age para desequilibrar a formação de chuvas na região da mata. “Essas partículas têm impacto na convecção (quando um fluído, como a água ou o ar, é aquecido e seu tamanho é expandido), formação e desenvolvimento de nuvens”, afirma Barbosa. Ele explica que, quanto maior a taxa desses aerossóis no ar, mais partículas ultrafinas vão compor as nuvens, o que dificulta a condensação do vapor d’água. Como resultado, demorará mais tempo para as chuvas se formarem.
Além dessa interferência, as partículas também participam do “balanço radiativo (troca de calor entre o planeta e a atmosfera) e da transmissão de radiação solar da atmosfera para as folhas”, afirma Barbosa. Por isso, quanto mais partículas do aerossol secundário houver na atmosfera, mais difícil será para a luz do sol alcançar as camadas mais baixas da floresta. Tal fator diminui a quantidade de energia disponível para as folhas mais baixas, já que as plantas dependem da absorção da radiação solar para a fotossíntese.
O próximo passo do estudo do GoAmazon, programado para ocorrer em 2020, será entender em detalhes os efeitos desses aerossóis tóxicos para as florestas tropicais. Com isso, o grupo pretende aprofundar o entendimento da comunidade científica sobre o papel das florestas tropicais nas mudanças climáticas globais.
“Nosso estudo se aplica a outras regiões de florestas tropicais no mundo, existentes na África e Sudoeste da Ásia. Ou seja, os mesmos processos devem estar acontecendo em todas as florestas tropicais que sofrem influência de poluição produzida pela atividade humana”, pontua Barbosa, se referindo a outras gigantes tropicais, Floresta do Congo, na África Central, e Floresta da Indonésia, na Ásia.

Laboratório a céu aberto

Fundada em 1669 no coração da floresta amazônica – em outubro a cidade fará 350 anos – Manaus passou por um intenso processo de urbanização e industrialização na década de 1960, com a criação da Zona Franca de Manaus, uma área de livre comércio de importação e exportação e de incentivos fiscais estabelecida com a finalidade de criar no interior da Amazônia um centro industrial, comercial e agropecuário.
“Com a criação da Zona Franca, a população de Manaus passou a aumentar 40% a cada 10 anos desde a década de 1960. Hoje, a capital reúne mais de 2 milhões de habitantes e cerca de 710 mil veículos, um aumento da frota de 250% na última década”, aponta Barbosa, citando dados do IBGE de 2019.
Atualmente, a zona franca manauara é um dos maiores polos industriais do Brasil, reunindo aproximadamente 600 indústrias, cercadas por importantes rios para a floresta, como o Rio Negro e o Rio Solimões, e por vegetação amazônica.
Apesar de parecerem números pequenos em relação a metrópoles como São Paulo, que tem 12 milhões de habitantes e uma frota de 7 milhões de veículos, Barbosa afirma que os efeitos da poluição urbana em Manaus podem ser mais perigosos ao meio ambiente, já que a cidade é uma das poucas, senão a única capital no mundo a estar isolada por uma densa floresta tropical em todas as suas direções.
“Manaus um laboratório a céu aberto”, define o professor do IF-USP, afirmando que por menor que seja o aumento da emissão de poluentes na capital do Amazonas, o aumento de aerossóis secundários na floresta será sempre devastador.
“Quando afetada pela poluição urbana, a formação de aerossóis secundários dentro da Amazônia é muito maior do que o que foi observado na maioria dos locais em outras partes do mundo”, exemplifica Barbosa, afirmando que a pluma urbana emitida em Manaus aumentou a taxa de produção de aerossóis secundários na floresta em até 400%.
Para se ter noção de como o ar em porções amazônicas que não sofrem interferência de poluentes urbanos é limpo, o meteorologista Glauber Cirino, professor do Programa de Pós-Graduação em Riscos e Desastres Naturais na Amazônia, da Universidade Federal do Pará, afirma que, durante o período chuvoso, a atmosfera na região é semelhante àquelas encontradas sobre oceanos remotos.
“As concentrações de partículas na Bacia Amazônica medidas durante a estação chuvosa estão entre as mais baixas encontradas em qualquer continente no mundo. Nessa época, o ar sobre a maior parte da região amazônica é limpo como o ar sobre o oceano aberto”, compara Cirino.

Piora na estiagem

Em julho, as queimadas no estado do Amazonas atingiram níveis preocupantes: dos 1.699 focos de incêndios registrados no primeiro semestre do ano, 80% deles ocorreram em julho, segundo dados da Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Amazonas.
No dia 2 de agosto, o governo estadual do Amazonas decretou estado de emergência na região metropolitana de Manaus por 180 dias em função das queimadas.
Naquele mesmo mês, os avós do estudante universitário manauara Ivan Santana, de 19 anos, se mudaram da capital por causa de problemas respiratórios agravados pelo ar poluído da região.
“Em 2018, meus avós vieram de Porto Velho (Rondônia) para Manaus por causa do trabalho e para ficar próximos da família”, lembra Santana. “Logo que minha avó, que tem asma, chegou na cidade, começou a reclamar que o ar de Manaus era muito pesado”.
O estudante conta que a doença respiratória da avó estava controlada antes da mudança. Porém, depois de algumas semanas morando em Manaus, as crises asmáticas voltaram a ocorrer. Em junho, quando começaram as queimadas na região, a avó passou a ter até duas crises por dia.
“Minha avó ligava em casa e dizia que se não se mudasse de Manaus, ela sentia que poderia morrer sem ar”, lembra Santana.
Nesse mesmo período, uma nuvem de fumaça vinda das queimadas começou a pairar sobre a cidade. “Essa fumaça aparece todo ano nesse período, mas até minha avó começar a sofrer com o problema, eu nunca tinha me atentado para o fato de como o ar da cidade é perigoso”, afirma o estudante.
Em julho, no ápice das ocorrências de focos de incêndio no entorno de Manaus, os avós voltaram a morar em Porto Velho.
“A mudança aconteceu num momento insuportável de queimadas na região, mas minha avó reclamava do ar pesado na cidade muito antes do período de estiagem começar. Ou seja, temos um ar muito poluído o ano todo, e que fica insuportável nos meses das queimadas por causa da fumaça”, comenta Santana.
Erickson Oliveira dos Santos, doutor em química ambiental pela Universidade Federal do Amazonas, explica que Manaus, por estar localizada em uma região de clima equatorial, não tem as quatro estações do ano, apresentando apenas duas situações climáticas: um período chuvoso, que vai de novembro a maio, e outro seco, entre julho e setembro. Em ambos, as temperaturas costumam ser elevadas. Tal característica piora a qualidade do ar na região.
“Sabemos que nos meses de estiagem, correspondente ao inverno, a poluição atmosférica da cidade piora consideravelmente por causa das queimadas na região, mas ainda não podemos mensurar a qualidade do ar de modo detalhado por falta de dados, uma vez que seria necessário fazer uma medição diária e durante todo o ano em Manaus”, defende Santos, afirmando que, com um monitoramento diário do ar, o governo poderia emitir alertas à população e se preparar com antecedência para combater os problemas ocorridos durante a estiagem.
Assim como a cidade e a população, o meteorologista Cirino explica que o ecossistema da Amazônia também sofre com as queimadas na região metropolitana da capital, uma vez que as nuvens de fumaça carregadas pelos ventos alteram o ciclo hídrico da floresta.
“Devido as neblinas de fumaça emitidas durante as queimadas na região, um número muito maior de gotículas pequenas demais para precipitar na forma de chuva foram encontradas na atmosfera da Amazônia. Tal fato aumenta o tempo de vida da nuvem e diminui a precipitação na floresta”, descreve Cirino.
Já no período chuvoso, o meteorologista explica que as partículas geradas pelas queimadas florestais são removidas da atmosfera de forma relativamente rápida, “fazendo com que os focos de fogo deste período sejam praticamente irrelevantes para a atmosfera amazônica”.
Energia suja
Para os pesquisadores, não é correta a ideia de que o ar de Manaus é poluído somente na época da estiagem, em decorrência dos incêndios e queimadas florestais.
“Assim como em qualquer metrópole, a queima de combustíveis fósseis em Manaus é a principal fonte de poluição atmosférica”, afirma Santos.
“Além das queimadas florestais durante a estiagem, a queima de combustíveis fósseis em Manaus está presente o ano todo nas emissões veicular, industrial e nas usinas termelétricas, distribuídas por todo o estado do Amazonas”, completa o químico ambiental.
Segundo Barbosa, a produção de eletricidade por meio da queima de combustíveis fósseis é uma das maiores fontes de poluição atmosférica em Manaus.
“Cerca de 86% da eletricidade de Manaus é produzida em usinas termelétricas, que queimam óleo combustível, gás natural e óleo diesel para produzir energia”, explica Barbosa.
Pesquisas do GoAmazon confirmaram que os principais gases emitidos em Manaus e que são responsáveis pelo aumento da produção de aerossóis secundários na Amazônia são justamente os óxidos de nitrogênio, gases poluentes emitidos pela combustão dos combustíveis fósseis.
“O impacto da produção de energia no estado do Amazonas não é pior porque, em 2009, começou a operar o gasoduto que liga Urucu a Manaus, em que o combustível principal deixou de ser o diesel para ser o gás natural”, afirma o professor do IF-USP.

Soluções

Uma das soluções para amenizar os danos da poluição urbana de Manaus na floresta amazônica, segundo os pesquisadores, é investir em tecnologias limpas de transporte urbano e de produção de energia renováveis.
De acordo com a tese de doutorado de 2018 desenvolvida no Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (Inpa), intitulada “Efeitos da mudança de combustíveis das usinas termelétricas de Manaus na qualidade do ar”, cerca de 65% da produção de energia em Manaus se dá a partir do gás natural.
Antes da chegada do gás natural, o estudo mostrou que as termelétricas da região metropolitana manauara emitiam 16 toneladas de monóxido de carbono e 129 toneladas de óxidos de nitrogênio por dia. Com 65% da produção de energia a partir do gás natural, as emissões caíram para 12 toneladas de monóxido de carbono e 52 toneladas de óxidos de nitrogênico.
Se 100% da energia gerada em Manaus fosse substituída por gás natural, segundo os resultados do estudo, as emissões de óxidos de nitrogênio e gás carbônico diminuiriam em 89% e 55%, respectivamente. A mudança total para gás natural na matriz energética também reduziria as concentrações máximas de ozônio em mais de 70% nos dias mais poluídos, quando as concentrações desse gás são maiores.
Fonte: BBC

A hidrelétrica controlada pelos governos francês e brasileiro acusada de matar 80 mil peixes na Amazônia.

Entre 30 de janeiro e 4 de fevereiro, o cenário era desolador entre as cidades de Cláudia e Sinop, a 500 km de Cuiabá, ao norte em Mato Grosso. 13 toneladas de peixes de todos os portes boiavam mortos às margens do rio Teles Pires, na área do reservatório da usina hidrelétrica Sinop.

Em questão de dias, um odor fétido se espalhou-se por 25 km ao longo do curso do rio. Cacharas, capararis, corimbatás e dezenas de outras espécies típicas da Amazônia morreram em massa enquanto o rio era tomado por espumas não naturais e restos de vegetação em decomposição avançada.
O Teles Pires, também conhecido como rio São Manuel, fica bem na divisa com o Pará e é um dos formadores do rio Tapajós, essencial à bacia hidrográfica da maior floresta tropical do planeta.
A matança de peixes neste ponto da Amazônia, segundo o Ministério Público, pode ter as digitais dos governos brasileiro e francês. Curiosamente, o desastre aconteceu meses antes das rusgas entre os presidentes Emmanuel Macron e Jair Bolsonaro, motivadas pela questão da preservação da floresta.
A Sinop Energia, responsável pela hidrelétrica, é formada por estatais do setor energético dos dois países. Tanto para o Ministério Público Estadual quanto para o Federal, o crime ambiental no Teles Pires foi causado pela usina durante o enchimento de seu reservatório.
A concessionária responsável pela hidrelétrica une as estatais Electricité de France (EDF) e Eletrobras, e detém os direitos de exploração da usina até o ano de 2043. Líder mundial no setor, a EDF é sócia majoritária no consórcio, com 51% das ações sob seu comando. Os 49% restantes estão divididos entre duas empresas controladas pela Eletrobras.
Menos de seis meses após a tragédia, a Secretaria de Meio Ambiente do Mato Grosso autorizou o funcionamento da usina, no dia 20 de agosto. A decisão fomentou críticas, pois pesquisadores defendem que o governo do Estado tem sido conivente com a concessionária, independentemente das críticas socioambientais à iniciativa.
A Secretaria rebate dizendo que todas suas decisões sobre a hidrelétrica foram baseadas em critérios técnicos.
“Existe um discurso que as usinas trarão desenvolvimento, vão movimentar a economia local e que serão benéficas. Isso influencia a postura do governo, muitas vezes conivente [com os projetos], mesmo quando há críticas ou estudos que sugiram eventuais problemas”, diz João Andrade, coordenador de Direito Socioambiental no Instituto Centro de Vida (ICV).
A organização não governamental é uma das que monitoram a expansão de hidrelétricas e outros projetos de infraestrutura em Mato Grosso.

‘Não existem danos ambientais’, diz consórcio

O crime ambiental no Teles Pires foi o episódio mais grave de um longo imbróglio entre o Ministério Público, a Sinop Energia e o governo de Mato Grosso.
A iniciativa franco-brasileira é contestada por órgãos de controle estaduais e federais há pelo menos sete anos; neste mês, o caso teve novos capítulos.
No dia 20 de setembro, a Justiça Federal acatou um pedido feito pelo Ministério Público Federal em Mato Grosso e suspendeu a licença de operação concedida pelo governo estadual em agosto.
Porém, no dia 24, menos de uma semana após a decisão, a mesma Justiça Federal voltou atrás. O juiz Murilo Mendes autorizou a retomada das atividades na hidrelétrica até esta terça-feira, 1º de outubro, quando será julgada uma ação civil pública sobre a matança de mais de 81 mil peixes no Teles Pires.
O MP do Estado acusa a Sinop Energia e o governo de Mato Grosso de serem responsáveis por um crime ambiental no rio. Ainda em fevereiro, o Ministério Público pediu o bloqueio de R$ 20 milhões da concessionária franco-brasileira para “garantir a efetividade da eventual condenação para fins de reparação dos danos”.
No mesmo mês, a secretaria de Meio Ambiente multou a Sinop Energia em R$ 50 milhões por conta do episódio.
Pesquisadores como Philip Fearnside, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, têm criticado o projeto desde sua concepção. Integrante da equipe que recebeu o Nobel da Paz em 2007 por pesquisas sobre mudanças climáticas, o perito defende punições ao consórcio franco-brasileiro.
“A empresa tem que se responsabilizar pelos impactos, e as empresas responsáveis pelas outras barragens devem também ser responsabilizadas pelos impactos das suas obras”, diz Fearnside.
O rio Teles Pires tem outras três hidrelétricas de grande porte em seu curso, todas também alvos de críticas por conta de impactos sobre meio ambiente, povos indígenas e ribeirinhos.
À BBC News Brasil, o consórcio formado pela EDF e pela Eletrobras nega culpa no caso. A empresa afirma que “não existem danos ambientais decorrentes da implantação da usina hidrelétrica Sinop, mas alguns impactos ambientais negativos inerentes à implantação de empreendimento dessa magnitude”.

Um desastre evitável?

O possível crime ambiental em torno da hidrelétrica Sinop não veio sem avisos. Nos últimos anos, peritos e especialistas alertaram que o enchimento do reservatório traria danos irreversíveis ao rio Teles Pires e à sua biodiversidade.
O principal problema seria a alteração nos níveis de oxigênio nas águas do rio durante esta etapa de sua instalação.
O fenômeno aconteceria como consequência do alagamento de vegetações que não foram removidas do local escolhido para o reservatório, mantendo grande quantidade de biomassa para ser decomposta. Com isso, o rio se tornaria hostil à vida de peixes e outras espécies que dele dependem.
Philip Fearnside foi um dos alertaram sobre o risco da operação. O perito diz que “apenas 30% da vegetação havia sido removida da área [quando as comportas foram abertas], ao invés dos 100% exigidos por lei — uma lei que tem sido amplamente ignorada [em Mato Grosso]”.
“Deixar árvores em um reservatório como o da hidrelétrica Sinop contribui para diversos impactos ambientais, como a emissão de gases de efeito estufa — especialmente metano — e a transformação de mercúrio na sua forma venenosa, metil-mercúrio”, afirma Fearnside em seu relatório sobre o caso.
Logo após a matança dos peixes, uma equipe do Centro de Apoio às Promotorias de Justiça de Mato Grosso visitou a área para medir os danos. Baseado no relatório sobre o caso, o MP de Mato Grosso diz que a Sinop Energia removeu apenas 86 km² da vegetação na área inundada — o reservatório alagou 300 km², o equivalente a três vezes a área da capital do Espírito Santo, Vitória.
“Se as medidas de teor de oxigênio feitas pela Politec (Perícia Oficial e Identificação Técnica) estão certas, não há dúvida de que a falta de oxigênio na água era suficiente para matar os peixes, e a turbidez [das águas do rio] seria só uma agravante”, diz Philip Fearnside.
Tanto a concessionária franco-brasileira quanto o governo de Mato Grosso negam a hipótese. A Sinop Energia diz que “atende plenamente às exigências do licenciamento ambiental”, enquanto a Secretaria de Meio Ambiente alega que “a manutenção de parte da vegetação se deu dentro dos padrões da norma vigente, com apoio em dados técnicos”.

Economia de gastos, críticas e pesquisas ignoradas

Menos de duas semanas após as mortes de peixes no Teles Pires, o MP de Mato Grosso tentou punir os executivos responsáveis pela Sinop Energia. Em 13 de fevereiro, os promotores Marcelo Caetano Vacchiano e Joelson de Campos Maciel pediram o monitoramento, pela Justiça, de parte do conselho administrativo da empresa.
Como a Sinop Energia é um consórcio franco-brasileiro, havia a possibilidade de diretores fugirem do país. Os promotores pediram que o então presidente da usina, o engenheiro francês Jean Christophe Marcel Jos Delvallet, e outros três membros do conselho fossem obrigados a usar tornozeleiras eletrônicas, além de serem proibidos de entrar na área da hidrelétrica e em órgãos ambientais do Estado.
Procurada, a Sinop Energia diz que “o sr. Jean Christophe não é mais o Diretor-Presidente da companhia e nunca lhe foi imputado o uso de tornozeleira eletrônica ou qualquer outra medida que limitasse, ainda que parcialmente, seus direitos civis”.
Segundo o MP estadual, o grupo responsável pela usina teria cometido os crimes de associação criminosa e uma série de irregularidades ambientais: descumprimento de obrigação de relevante interesse, fraude em procedimento administrativo, omissão ou fraude em licenciamento e poluição.
O MP de Mato Grosso também diz que os responsáveis pela Sinop Energia escolheram métodos mais baratos para instalar a usina, que não garantiam a proteção ambiental do rio e de sua biodiversidade.
Em inquérito policial sobre o caso, os promotores dizem que o método escolhido “teve caráter estritamente econômico-financeiro”, pois assim haveria “economia de gastos com supressão vegetal, destinação de produtos florestais” e o consórcio poderia até ser “dispensado de pagamento de reposição florestal em virtude de não ter realizado a remoção”.
A Secretaria Estadual de Meio Ambiente nega qualquer responsabilidade. Já a empresa franco-brasileira afirma que “a supressão da vegetação, além das demais ações preparatórias ao enchimento do lago, foi corretamente planejada e executada”.

Problemas há mais de sete anos

Desde 2012, tanto o Ministério Público Estadual quanto o Federal questionam a viabilidade ambiental da hidrelétrica. Mas os problemas ligados à usina vão além: à época de concessão de licenças para instalação, por exemplo, a Procuradoria da República em Sinop identificou irregularidades em outras etapas do projeto.
Em uma ação civil pública, protocolada em junho de 2018 pelo procurador Felipe Giardini, o MPF em Mato Grosso viu problemas na aquisição de terras pela Sinop Energia. O MP federal acusava o consórcio franco-brasileiro de ter comprado imóveis na área onde a usina seria construída por um valor muito abaixo do preço de mercado.
A diferença entre os valores orçados pela empresa e os avaliados pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) é significativa. Segundo o MPF, o preço estipulado pelo Incra era de aproximadamente R$ 12 mil, enquanto o consórcio franco-brasileiro pagou R$ 3 mil por hectare. Mais de 200 famílias viviam nas redondezas, ocupando a chamada Gleba Mercedes, um assentamento da reforma agrária.
A empresa nega as acusações. A Sinop Energia diz que conseguiu fazer acordos com 90% dos proprietários na região atingida pela usina, alegando que isso “mostra de forma incontestável que a metodologia de avaliação e o preço pago pelos imóveis foi correta”. Mas a disputa em torno da área ainda parece longe do fim.
Em pesquisa no sistema eletrônico da Justiça Federal da 1ª Região, responsável por analisar o caso, a BBC News Brasil constatou que ainda existem processos em andamento. As ações pedem indenização por danos morais causados pela Sinop Energia.
Fonte: BBC