sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Groenlândia preocupa Dinamarca após ‘interesse’ de Trump.

Pela primeira vez a região da Groenlândia se tornou uma das principais preocupações de segurança nacional da Dinamarca, à frente do terrorismo e de crimes cibernéticos.
O Serviço de Inteligência de Defesa (FE) do país relaciona a mudança na prioridade ao interesse dos Estados Unidos na região expressado pelo presidente americano Donald Trump, que disse que queria comprar o território no Ártico.
A Groenlândia é parte da Dinamarca, mas tem bastante autonomia, incluindo liberdade para assinar grandes acordos comerciais.
A China tem acordos de mineração assinados com a Groenlândia.
O chefe do FE, Lars Findsen, disse que agora a região é uma questão de segurança prioritária para a Dinamarca porque há um “jogo de de poder se desenrolando” entre os EUA e outras potências no Ártico.
Em agosto, o governo dinamarquês havia dito que a sugestão de Trump de que os EUA comprassem a Groenlândia é um “absurdo”. Trump então cancelou uma visita de Estado à Dinamarca e chamou o primeiro-ministro do país, Mette Frederiksen, de ‘sórdido’.
O interesse dos EUA na Groenlândia existe há décadas. O país tem uma base aérea da época da Guerra Fria na região de Thule que é usada para vigilância espacial através de um enorme radar. É a base militar norte-americana mais ao norte, que cumpre a função de alertar caso os EUA sofram algum tipo de ataque aéreo.

Da onde vem o novo foco na região?

A importância estratégica da Groenlândia aumentou em meio às crescentes tensões no Ártico. As águas do Ártico estão se tornando mais navegáveis graças ao derretimento do gelo, em consequência do aquecimento global, e cada vez mais navios fazem transporte de mercadorias pelas rotas do norte. Também há um aumento da competição internacional por minérios raros.
A enorme ilha está estrategicamente localizada entre a América do Norte e a Europa, sendo um entreposto para muitos mercados.
“Decidimos começar a análise de risco deste ano com um capítulo sobre o Ártico, já que os interesses das potências na região têm um impacto direto e um significado crescente para o Reino da Dinamarca”, disse Lars Findsen, chefe do FE, à BBC.
“Apesar da ambição conjunta das nações do Ártico de manter a região livre de discordâncias sobre políticas de segurança, o interesse militar na região está crescendo. Um jogo de poder está se desenrolando entre Rússia, EUA e a China, o que aprofunda as tensões na região.”
A Rússia aumentou suas atividades econômicas e militares no Ártico. E há disputas territoriais entre a Dinamarca, a Rússia, os EUA e o Canadá no Polo Norte, onde recursos energéticos e minerais estão se tornando mais acessíveis.
Kasper Wester, jornalista especializado em defensa do site OLFI, diz que a Dinamarca faz patrulhas de rotina das águas e do espaço aéreo da Groenlândia.
No entanto, em agosto, o país enviou um enorme navio de apoio à Groenlândia pela primeira vez. O Absalon é um dos maiores navios do país.

E os minérios preciosos da Groenlândia?

A mineração está sendo expandida na Groenlândia porque a vasta camada de gêlo que cobre a ilha tem diminuído nos últimos anos. Um parceira entre as empresas Greenland Minerals, da ilha, e Shenghe Resources Holding, da China, vai permitir ao país asiático importar minerais raros que contêm urânio e tórium radioativos.
A Corporação Nacional Nuclear da China está participando do projeto.
O site export.gov, do governo dos EUA, diz que “especialistas na indústria de minérios antecipam que a diminuição do gêlo vai tornar os ricos depósitos de matéria-prima da ilhas mais acessíveis.”
A região também tem depósitos de rubis, safiras, ouro, platina, zinco, chumbo e molibdênio.
A empresa Bluejay Mining, de Londres, está criando uma mina para extrar ilmenita de uma região próxima à base aérea de Thule. A ilmenita é o principal mineral usado para produzir titânio. Ações da mina foram vendidas à empresa dinamarquesas e groenlandesas.
A Bluejay diz que está construindo duas outras minas na Groenlândia: um projeto enorme para extração de níquel, cobre e platina e outro para extração de zinco, chumbo e prata. Mais da metade da mão de obra da Bluejay é groelandesa ou dinamarquesa.

Como estão as relações entre a Dinamarca e a Groenlândia?

A população da Groenlândia é de cerca de 56 mil pessoas – um pouco menos do que o bairro de Pinheiros, na cidade de São Paulo. Há décadas o território tem sido economicamente independente da Dinamarca.
A lei de Auto Governo de 2009 garantiu à região ampla autonomia, mas a Dinamarca continua tendo controle sobre questões de relações internacionais, segurança e imigração.
A pesca é responsável por mais de 90% das exportações da Groenlândia, a maior parte disso vai para a Dinamarca – e camarão é a principal espécie pescada.
A Dinamarca está ajudando a Groenlândia a construir três grandes aeroportos internacionais, um deles na capital, Nuuk. Uma proposta chinesa para a construção do aeroporto foi rejeitada.
O governo de Copenhagen faz todos os anos um repasse de 3.9 bilhões de coroas dinamarquesas (R$ 2,4 bilhões).
Em conversa com a BBC, o jornalista Kasper Wester disse acreditar que “para a população da Groenlândia há um enorme potencial de renda na exportação de minério, e toda a discussão sobre independência tem a ver com isso”.
Alguns políticos do território, diz ele, estavam pressionando por independência, mas a maioria sabe que “estariam muito piores sem os subsídios da Dinamarca”.
Mas ainda há discussões sobre se a postura da Dinamarca em relação à Groenlândia é muito colonialista.
“Políticos dinamarqueses são muito cuidadosos em relação a isso tudo. Não há muitos que digam que não é uma boa ideia intensificar os negócios com os chineses”, diz ele.
Fonte: BBC

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Peixe é encontrado com garrafa plástica inteira no estômago.

Imagens mostram uma situação preocupante sobre a poluição marinha: um tamboril foi encontrado com uma garrafa de plástico de 500 mililitros alojada inteira em seu estômago. A espécie tem boca larga e estômago distensível, o que significa que pode engolir diferentes itens. Por conta disso, a ingestão de qualquer objeto inorgânico coloca a espécie de peixe em perigo.
De acordo com a organização ambiental Jeonbuk Environmental Movement Coalition, a fotografia foi tirada por um grupo de pescadores depois de capturar os peixes perto de Buan-Gun, no norte de Jeolla, na Coreia do Sul.
“Esta é a prova de que o problema do lixo marinho é grave na Coreia. Em particular, as águas em Buan são tão fortes que o lixo chega de todas as partes do país e da China”, declarou Lee In-gyu, membro da Associação de Meio Ambiente do Norte de Jeolla.
Não é incomum encontrar lulas inteiras no organismo de um tamboril, por exemplo. Quando o pescador Hwan capturou o peixe, percebeu uma protuberância e decidiu abrir o animal, esperando encontrar uma criatura inteira. Mas não foi o que aconteceu.
“Estamos encontrando mais plástico e lixo dentro dos peixes hoje em dia. É preocupante porque as pessoas não parecem se importar com o meio ambiente”, disse Hwan ao jornal sul-coreano JoongAng Ilbo. “Encontrei produtos de vinil, latas e pedaços de plástico dentro de alguns peixes, que não se limitam ao tamboril. Encontrei resíduos de plástico dentro de mudskippers e blenny do bartail também.”
O problema da poluição não se resume ao fatos de os animais marinhos engolirem objetos de plásticos ou outros materiais. Estudos já mostraram que partículas de microplásticos, com menos de cinco 5 milímetros de comprimento, podem ficar embutidos no tecido dos bichos por ingestão ou respiração, dificultando sua sobreviência. E como muitos peixes são alimentos para outros seres marinhos maiores, o ciclo de ingestão de microplástico não é interrompido.
Fonte: Revista Galileu

Baleia é encontrada morta com 100 kg de lixo no estômago.

Uma baleia cachalote que morreu após encalhar na Ilha Harris, na Escócia, tinha 100 kg de lixo no estômago.
Redes de pesca, cordas, sacolas e copos de plástico estavam entre os resíduos.
De acordo com especialistas em baleias, não está claro se os detritos contribuíram para a morte do animal.
A carcaça da baleia foi encontrada por moradores na praia de Seilebost na última quinta-feira.
“Foi extremamente triste, especialmente quando as redes de pesca e os detritos saíam do estômago dela”, declarou Dan Parry, que mora na praia vizinha de Luskentyre.
“Caminhamos nessas praias quase todos os dias e sempre levo uma sacola para recolher lixo, a maior parte relacionada à pesca.”
Segundo ele, o incidente é uma evidência clara do problema mais amplo da poluição marinha.
“Esse material poderia estar facilmente em uma rede ou ter se perdido em uma tempestade, nós simplesmente não sabemos, mas mostra a dimensão do problema que temos com a poluição marinha”, acrescenta.
Uma equipe do Scottish Marine Animal Stranding Scheme (Smass), organização escocesa que investiga mortes de baleias e golfinhos, dissecou o animal para tentar determinar a causa da morte.
“O animal não estava particularmente em más condições e, embora seja certamente plausível que essa quantidade de detritos tenha sido um fator para encalhar, não conseguimos encontrar, na verdade, evidências de que isso tenha afetado ou obstruído seu intestino”, diz uma publicação do Smass na página do grupo no Facebook.
“No entanto, ter essa quantidade de plástico no estômago é terrível, deve ter comprometido a digestão e serve para demonstrar mais uma vez os perigos que o lixo nos oceanos e equipamentos de pesca perdidos ou descartados podem representar à vida marinha.”

Cresce número de encalhes

Acredita-se que os detritos sejam provenientes tanto de terra firme quanto da indústria pesqueira.
Equipes da Guarda Costeira e do Western Isles Council, que administra as ilhas ocidentais da Escócia, ajudaram a examinar a baleia no sábado, além de cavar um buraco gigante na areia da praia para enterrar o animal.
Segundo dados do Smass, o número de encalhes de baleias e golfinhos na Escócia está aumentando.
Foram registradas 204 ocorrências em 2009, em comparação com mais de 930 em 2018.
Fonte: BBC

Mudanças climáticas: O que é a COP25 e o que ela espera conseguir.

Líderes políticos, diplomatas ligados ao clima, especialistas e ativistas se reunirão nas próximas duas semanas na Espanha para discutir as mudanças climáticas sob um senso crescente de urgência.
Batizada de COP25, a Conferência do Clima deste ano da Organização das Nações Unidas (ONU) reunirá quase 29 mil pessoas a partir desta segunda-feira (2) em Madri.
Para o secretário-geral da ONU, António Guterres, “o ponto de não retorno não está mais além do horizonte”.
Um relatório da organização não governamental Save The Children divulgado às vésperas do evento busca dar contornos reais e imediatos à crise climática.
Segundo a ONG, as mudanças em curso no clima do planeta levaram hoje à fome de 33 milhões de pessoas na África, sendo a metade delas crianças. A Save The Children afirma que ciclones, deslizamentos, inundações e secas elevam a insegurança alimentar a níveis alarmantes.
“A crise climática está acontecendo aqui, e está matando ou forçando as pessoas a deixarem suas casas, arruinando as possibilidades de um futuro para essas crianças”, diz Ian Vale, da ONG. Ele cita o exemplo de Moçambique, país que foi atingido por dois ciclones num período de seis semanas.
“Essas catástrofes estão aproximando o sistema humanitário do colapso. Reiterados ciclos de insegurança alimentar resultantes de emergências climáticas criam lacunas na arrecadação de recursos, que não dão conta da necessidade”, afirma Vale.

Qual é a importância da COP25?

A conferência sobre o clima ocorreria no Chile, mas acabou transferida para a Espanha em razão das manifestações de rua em massa na capital chilena.
Inicialmente, o encontro estava previsto para ocorrer no Brasil, mas o presidente Jair Bolsonaro afirmou antes de assumir a Presidência que o país não queria sediar o evento por causa de questões orçamentárias e eventuais constrangimentos.
“Abrimos mão de sediar a Conferência Climática Mundial da ONU pois custaria mais de R$ 500 milhões ao Brasil e seria realizada em breve, o que poderia constranger o futuro governo a adotar posições que requerem um tempo maior de análise e estudo”, escreveu Bolsonaro no Twitter em dezembro de 2018.
A Conferência da ONU sobre o Clima, ou COP, é o foro internacional onde as partes envolvidas com o tema se reúnem para discutir o que já foi feito e os próximos passos em torno dos compromissos firmados.
O mais importante deles, o Acordo de Paris, foi aprovado em 2015 por 195 países e tem como objetivo central impedir que a temperatura média no mundo aumente mais do que 2 graus Celsius.
Para o secretário-geral da ONU, líderes políticos precisam dar uma resposta à iminente crise climática.
“Os próximos 12 meses serão cruciais, e é fundamental garantir compromissos nacionais mais ambiciosos, particularmente dos maiores emissores, que comecem imediatamente a reduzir de forma consistente os gases do efeito estufa até alcançarmos uma neutralidade do carbono até 2050”, afirmou.
“Abrimos mão de sediar a Conferência Climática Mundial da ONU pois custaria mais de R$ 500 milhões ao Brasil e seria realizada em breve, o que poderia constranger o futuro governo a adotar posições que requerem um tempo maior de análise e estudo”, escreveu Bolsonaro no Twitter em dezembro de 2018.
A Conferência da ONU sobre o Clima, ou COP, é o foro internacional onde as partes envolvidas com o tema se reúnem para discutir o que já foi feito e os próximos passos em torno dos compromissos firmados.
O mais importante deles, o Acordo de Paris, foi aprovado em 2015 por 195 países e tem como objetivo central impedir que a temperatura média no mundo aumente mais do que 2 graus Celsius.
Para o secretário-geral da ONU, líderes políticos precisam dar uma resposta à iminente crise climática.
“Os próximos 12 meses serão cruciais, e é fundamental garantir compromissos nacionais mais ambiciosos, particularmente dos maiores emissores, que comecem imediatamente a reduzir de forma consistente os gases do efeito estufa até alcançarmos uma neutralidade do carbono até 2050”, afirmou.
Guterres disse que é preciso parar de “cavar e extrair” e tirar vantagens das “vastas possibilidades” oferecidas pelas fontes renováveis de energia.
Ele cobrará os países por aumentos significativos das metas de redução das emissões de carbono.
Duas possíveis medidas são o fim dos subsídios para a exploração de combustíveis fósseis e o veto à construção de usinas termelétricas de carvão a partir de 2020.
Até o momento, quase todos os países do mundo assinaram e ratificaram o Acordo do Clima de Paris. Assim, de acordo com os termos acertados, até o fim de 2020 os envolvidos terão que discutir novos compromissos climáticos.
O encontro em Madri representa, portanto, o início de 12 meses de intensas negociações que culminarão na COP26 em Glasgow em novembro do ano que vem.

Bolsonaro e Trump faltarão ao evento

Mais de 50 chefes de Estado devem comparecer à Conferência do Clima na capital espanhola, mas o presidente americano, o republicano Donald Trump, não está entre eles.
De todo modo, o país estará representado, entre outros, por uma delegação do Congresso dos Estados Unidos liderada pela democrata Nancy Pelosi, presidente da Câmara de Representantes.
Ainda que a presença dela tenha sido elogiada, há pressão por ações concretas dos dois polos políticos dos EUA.
“Os americanos ainda são, historicamente, os maiores responsáveis por essa emergência climática, e mesmo políticos democratas nunca se comprometeram em assumir suas responsabilidades”, afirmou Jean Su, do Centro de Diversidade Biológica dos Estados Unidos.
Jair Bolsonaro tampouco irá ao evento na Espanha. Sob crescente pressão internacional em razão do aumento do desmatamento na Amazônia, o governo enviará uma delegação chefiada pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles.
Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), houve um aumento de 29,5% no ritmo do desmatamento da Amazônia entre agosto de 2018 e julho de 2019.
Bolsonaro tem criado polêmicas com ambientalistas e chefes de Estado desde a campanha eleitoral de 2018.
Depois de eleito, enviou ao Congresso medida para fundir a pasta do Meio Ambiente com a Agricultura — mas a proposta foi rejeitada. Mesmo assim, alterações na estrutura do órgão fizeram com que o Meio Ambiente perdesse quase 20% de seus analistas. Já no Ibama, os sinais emitidos por Brasília e a falta de dirigentes nas unidades do órgão fizeram com que o número de multas caísse apesar do aumento do desmatamento.
Apesar de ter entrado em confronto direto com países europeus sobre o financiamento de ações e programas ambientais na Amazônia, o governo brasileiro pretende levar à COP25 uma série de propostas para o financimento estrangeiro de medidas de preservação ambiental.
Em agosto deste ano, a Noruega suspendeu seus repasses ao Fundo Amazônia depois que o governo brasileiro decidiu alterar o funcionamento do fundo e extinguir do comitê que definia os critérios para o uso do dinheiro arrecadado.
O Fundo Amazônia foi criado em 2008. Desde então, a Noruega aplicou R$ 3,2 bilhões com este objetivo, e a Alemanha doou outros R$ 200 milhões.
Fonte: BBC

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Quem eram os escravos ‘tigres’, marcantes na história do saneamento básico no Brasil.

Enquanto o Brasil discute uma forma de, finalmente, conseguir prover saneamento básico para toda a população, ressurge a memória de um capítulo não tão conhecido desse aspecto do país.
Durante o Brasil Império, o país era o maior território escravagista do Ocidente, com quase 5 milhões de africanos escravizados. Tal número representa cerca de 40% do total embarcado para as Américas.
Com a mão de obra escrava sendo utilizada em larga escala, foram os cativos apelidados de “tigres” os responsáveis pelo recolhimento e despejo da urina e fezes de muitos moradores das cidades durante cerca de 300 anos.
Nessa época, a maior parte das casas não contava com banheiros, água corrente ou algum outro tipo de instalação sanitária. Por isso, os moradores das antigas cidades faziam as necessidades em penicos e outros recipientes de metal ou porcelana.
Esses objetos ficavam sob as camas ou em armários até a manhã seguinte, quando eram esvaziados em grandes tonéis que comportavam todos os dejetos dos moradores da casa.
Os grandes tonéis, por sua vez, eram carregados nas costas por escravos, que os levavam até o mar ou a algum rio e por lá os despejavam.

Os ‘tigres’

Parte do conteúdo, que continha ureia e amônia, vazava dos tonéis e deixava marcas brancas sobre a pele negra, parecidas com listras. Por essa reação química, as marcas se pareciam com as do animal — daí o apelido em tom pejorativo dos “tigres” ou “tigrados”.
O cheiro dos tonéis, obviamente, não era agradável e fazia com que as pessoas não se aproximassem dos “tigres” enquanto os carregavam.
“A pele ficava listrada, com alternância de faixas pretas e outras descoloridas pela ação química dos dejetos. Por isso, esses escravos eram conhecidos como tigres”, afirma o jornalista Laurentino Gomes, autor do livro Escravidão, sobre o tema.
“Eram escravos ou escravos de aluguel que, geralmente, eram destacados para esse tipo de trabalho”, afirma o historiador Luiz Felipe de Alencastro.
Esses negros podiam ser escravos comprados por seus donos ou aqueles que prestavam serviços a diversas famílias como forma de obter um rendimento extra para o dono ou para si mesmos.
A prática, muito comum na capital da época, Rio de Janeiro, também era usual em diversas cidades do país. No Rio de Janeiro, fossas eram proibidas na cidade antiga dada a proximidade do lençol freático.
Há registros da utilização dessa mão de obra no Rio até a década de 1860. Já no Recife, por exemplo, durou até 1882.
“Tempos atrás, fui visitar uma cidade paranaense chamada Guarapuava, a centenas de quilômetros do oceano. E lá também, segundo me disse um historiador, havia escravos ‘tigres’ até o final do século 19”, disse Laurentino Gomes.

Marcas coloniais duram até hoje

Fazendo uma avaliação histórica, houve quem associasse a exploração desses escravos “tigres” a um atraso no interesse do poder público na implementação de sistemas de saneamento básico no país.
“O sociólogo Gilberto Freyre diz que a facilidade de dispor de tigres e seu baixo custo retardaram a criação das redes de saneamento nas cidades litorâneas brasileiras”, afirma Gomes.
Para Luiz Felipe de Alencastro, contudo, a mão de obra escrava não era tão barata ao ponto de se popularizar tanto no Brasil da época. “Os ‘tigres’ eram gente pobre, vulnerável ou escrava, mas não era uma mão de obra barata”, diz o historiador.
Para além da desumanização desses escravos, essa forma de descarte já mostrava um descaso grande com a questão do escoamento dos dejetos.
“No Rio de Janeiro, até hoje, a baía está totalmente poluída. O desprezo pela natureza vem desde esses tempos”, conclui Alencastro.
À época, a consciência ambiental não era algo recorrente como hoje. No Brasil, isso se agravava por conta de uma bagagem da colonização de exploração durante mais de três séculos.
“A destruição do meio ambiente é quase tão antiga quanto a história do Brasil. O primeiro registro oficial de tráfico de plantas, animais silvestres e indígenas escravizados é de 1511, apenas uma década após a chegada da esquadra de Pedro Álvares Cabral”, afirma Laurentino Gomes.
No entanto, Leo Heller, relator especial da ONU para os direitos humanos à água e ao esgotamento sanitário, nota que é difícil fazer uma relação entre a utilização dos tigres e o descaso em relação ao saneamento básico.
“A preocupação com saneamento sempre houve, mas nunca foi prioritária. O que ainda existe são locais sem nenhum tipo de esgoto (…) e a figura de quem remove o esgoto”, diz o especialista.
Os vestígios do período colonial e imperial, contudo, continuam vivos até hoje no país. Segundo Heller, o fim da escravidão, e com ela o desaparecimento dos chamados “tigres”, não acabou com os problemas dos mais pobres e refletem a construção da sociedade atual em relação ao tema.
“Os escravos se transformaram em negros pobres, de periferia, que também não têm acesso a saneamento”, diz.
No caso dos tigres, a iniciativa de Dom Pedro 2º em modernizar a então capital Rio de Janeiro ao final do período imperial, na década de 1860, dá início ao saneamento básico no Brasil — o que começa a diminuir a utilização dessa mão de obra de maneira gradual nas cidades.
Logo, com a abolição, assim como no Rio de Janeiro, esses escravos são substituídos graças à chegada do saneamento básico e maneiras mais modernas de descarte dos dejetos. Mas, assim como os demais, eles permaneceram executando serviços de pouca qualificação.
“Apenas a liberdade não representa uma mudança completa na vida desses ex-escravos”, diz o historiador Alain El Youssef, doutor pela USP.
“[Após a abolição] o Estado brasileiro não se preocupa em ofertar condições mínimas à sobrevivência, nem em inseri-los de uma maneira respeitosa na sociedade. Isso traz reflexos até hoje”, afirma o historiador.
Dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento, do Ministério do Desenvolvimento Regional, mostram que apenas 52% da população brasileira conta, atualmente, com acesso à coleta de esgoto. A falta de acesso ocorre principalmente em regiões mais pobres do país.
Fonte: BBC

Aquecimento global lança Antártica sob ameaça de espécies invasoras: entenda.

O equilíbrio do ecossistema da Antártica está em perigo, uma vez que espécies invasoras estão se multiplicando devido ao derretimento das geleiras. Esse péssimo cenário foi recentemente descrito em um estudo publicado no periódico Science Advances por pesquisadores do Reino Unido.
Para quem não sabe, os especialistas consideram espécies invasoras aquelas que não são nativas ou naturais de determinado ambiente, mas passam a ocupá-lo quando têm a oportunidade. Em muitos casos, os invasores são favorecidos pelo fato do novo território não ter predadores naturais para a espécie, permitindo que ela se reproduza.
A presença de espécies invasoras pode degradar um ecossistema, pois elas competem com animais nativos por recursos como água, território e alimento. Além disso, essa ameaça se torna maior, pois, em alguns casos, esses animais caçam as espécies nativas, causando um enorme desequilíbrio ambiental.
Segundo os especialistas, na Antártica, áreas descongeladas devido ao aquecimento global podem atrair animais e microorganismos que estão adaptados a climas menos gelados. Por isso, os pesquisadores acreditam que a área descongelada da península deve triplicar nos próximos 100 anos, propiciando o ambiente necessário para que espécies invasoras se multipliquem.
“As mudanças climáticas reduzem as barreiras de [espécies invasoras] para adentrar essas regiões, reduzindo seus problemas para se estabelecer”, explicou o pesquisador Peter Convey, co-autor da pesquisa, à AFP.
Mas o problema não são apenas os animais: os pesquisadores consideram ainda que o degelo na Antártica pode aumentar também a presença humana na região. Segundo eles, cerca de 5 mil pessoas já trabalham na península e 50 mil turistas a visitam todos os anos, números que devem aumentar.
O problema disso é que os humanos trazem espécies invasoras para o continente — o que já aconteceu com duas espécies de moscas e uma de gramínea. “O fundo do poço é que os humanos trazem 99% das espécies invasoras, desequilibrando qualquer processo natural”, disse Convey. 
Fonte: Revista Galileu

Criticamente ameaçadas, vaquitas são vistas com filhotes no México.

Não é novidade que as vaquitas fazem parte do grupo de mamíferos marinhos mais ameaçados de extinção. Segundo estimativas divulgadas em julho, apenas 19 destes animais ainda estavam vivos à época. No entanto, uma expedição realizada por biólogos no fim de outubro trouxe esperanças à espécie.
Isso porque, de acordo com um estudo publicado no Marine Mammal Science, seis vaquitas foram avistadas com filhotes no Golfo da Califórnia, no México. Como explicaram os especialistas, esse fato prova a resiliência dos animais: “A capacidade de uma pequena população se recuperar após um declínio severo é fortemente influenciada por sua biologia reprodutiva”, escreveram os autores do artigo.
As vaquitas vivem apenas em uma pequena faixa ao norte do Golfo da Califórnia e, apesar dos esforços do governo mexicano para impor um refúgio protegido, práticas ilegais de pesca continuam ameaçando a espécie. Isso porque esses animais dividem seu habitat com o peixe totoaba (também criticamente ameaçado), que é caçado por comerciantes. Logo, quando esses peixes são capturados, algumas vaquitas acabam ficando presas nas redes dos pescadores e morrendo.
Pensando nisso, esforços para salvar a espécie da extinção iminente incluíram o governo do México e a Fundação Leonardo DiCaprio. Em 2017, eles tentaram criar um cativeiro para proporcionar a reprodução da espécie, mas o plano foi cancelado quando uma fêmea morreu pouco após ser capturada.
Por isso, Lorenzo Rojas-Bracho, um dos autores e chefe do Grupo de Pesquisa em Mamíferos Marinhos da Comissão Nacional Mexicana de Áreas Naturais Protegidas, e sua equipe estão desenvolvendo um projeto de monitoramento da espécie. A ideia é pesquisar uma alternativa mais apropriada para proteger as vaquitas.
“Temos animais que foram capazes de sobreviver todos esses anos, e é importante protegê-los, porque a sobrevivência da vaquita depende dos indivíduos que temos agora”, afirmou Rojas-Bracho, ao San Diego Union-Tribune. 
Fonte: Revista Galileu