segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Com 506 espécies, cidade de São Paulo abriga mais tipos de aves que todo o Chile ou Portugal.

Quem anda por São Paulo, principalmente pelas áreas mais arborizadas, com olhos e ouvidos atentos e sensíveis às coisas da natureza, poderá se surpreender com a grande variedade de espécies de aves que vivem na cidade.
Se prestar mais atenção ainda, deverá notar mudanças nessa biodiversidade, com algumas que estão se tornando mais comuns, como o pica-pau-da-cabeça-amarela (Celeus flavescens), a pomba asa-branca (Patagioenas picazuro), e o rapinante carcará (Caracara plancus), e outras mais raras, como o pardal (Passer domesticus).
No total, são 506 espécies que habitam a metrópole, segundo o Inventário da Fauna Silvestre do Município de São Paulo-2018, elaborado sob a coordenação da bióloga Anelisa Magalhães, da Secretaria Municipal do Verde e Meio Ambiente (SVMA).
“Isso representa 63% das aves encontradas em todo o Estado e 26% do Brasil”, diz ela. “Entre elas, 116 são endêmicas da Mata Atlântica (23% da população); 39, rapinantes (gaviões, falcões e corujas); 22 são beija-flores, e 273 são pássaros, além de algumas espécies de outros tipos, como os psitacídeos (araras, papagaios e periquitos). De todas elas, 31 estão ameaçadas de extinção.”
Esses números revelam que São Paulo tem mais espécies de aves que todo o Chile ou Portugal, segundo pesquisadores. “A cidade tem apenas cerca de 200 a 300 menos (espécies) do que o Canadá, a Europa e a Rússia, territórios grandes o suficiente para abrigar milhares de ‘São Paulos'”, diz João Menezes, mestre em Ecologia pela Universidade de São Paulo (USP) e observador de pássaros há 15 anos.
“Dentro do Brasil, a cidade é a terceira capital com mais espécies registradas, atrás apenas de Porto Velho e Manaus.”
De acordo com Karlla Barbosa, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e coordenadora de projetos da Sociedade para a Conservação das Aves do Brasil (SAVE Brasil), organização não governamental de conservação dos pássaros brasileiros e parte da BirdLife International, presente em mais de 100 países, a avifauna paulistana é rica e diversa, composta por espécies residentes e migratórias, nativas e introduzidas.
“O que propicia essa grande diversidade são os dois corredores verdes que passam pela cidade: as serras da Cantareira, ao norte, e a do Mar, ao sul, além dos mais de cem parques urbanos espalhados por seu território”, explica.
Segundo o biólogo José Carlos Motta-Junior, do Laboratório de Ecologia de Aves (Labecoaves), do Instituto de Biociências da USP (IB-USP), como o município de São Paulo encontra-se em grande parte dentro do bioma da Mata Atlântica, além de parcela dele originalmente ter possuído pequenas manchas ou enclaves do Cerrado, como, por exemplo, o bairro Butantã, sua avifauna tem relação com as espécies dessas regiões, principalmente da primeira.
Ele ressalta, no entanto, que boa parte das aves que habita especificamente as áreas mais urbanizadas ou semi-urbanizadas do município, ou seja, as mais alteradas, é composta por espécies generalistas ou oportunistas. “Elas têm ‘jogo de cintura’, no sentido de explorarem vários tipos de alimentos, ambientes diferentes e locais de nidificação variados, e assim não apresentam muita sensibilidade ambiental”, explica.
“Consequentemente elas, como os sabiás-laranjeira (Turdus rufiventris) e bem-te-vis (Pitangus sulphuratus), por exemplo, prosperam e são abundantes na cidade.”
A metrópole paulistana possui muitos tipos diferentes de plantas frutíferas, além de vegetação que propicia ampla variedade de insetos. Por isso, muitas das espécies de aves não têm dificuldade em encontrar alimentos. Uma parcela menor delas busca flores para consumo de néctar ou micro-artrópodes a elas associados.
A ocorrência de áreas verdes atrai aves, porque propicia locais para reprodução. Para as espécies aquáticas ou semi-aquáticas, represas ou pequenas lagoas, ao menos razoavelmente limpas, são importantes. “Vale destacar que a arborização de ruas, parques e jardins e quintais deveria ter forte incentivo dos gestores da cidade, para ser exclusivamente com plantas nativas, para as quais as aves podem prestar serviços ambientais, como polinização de flores e dispersão das sementes”, diz Motta-Júnior.
Anelisa lembra que as cidades em geral apresentam um mosaico de ambientes bastante diversificado para as espécies que possuem bom deslocamento e conseguem aproveitar a abundância de recursos alimentares e novos nichos ecológicos para explorar.
“Muitas aves aproveitam esses recursos”, explica. Outro fator pode ser a redução de predadores nas cidades, quando comparado aos ambientes naturais, o que pode ser vantajoso para elas. No entanto, a grande diversidade encontrada no município se deve também à existência de áreas verdes florestais, principalmente nas zonas sul e norte. “Essa matriz florestal é a principal responsável pela diversidade e deve ser pensada como uma grande riqueza”, diz.
Segundo Barbosa, a maioria das espécies é nativa, com menos de 2% de exóticas. Há ainda nos parques urbanos muitas aves migratórias, que se reproduzem todos os anos nessas manchas verdes, com destaque para o bem-te-vi-rajado (Myiodynastes maculatus), a tesourinha (Tyrannus savana), a peitica (Empidonomus varius) e o suiriri (Tyrannus melancholicus).
“Além disso, há espécies que vêm para passar o período de invernada (não reprodutivo), como é o caso do príncipe (Pyrocephalus rubinus)”, explica. “Não é surpreendente como um pássaro viaja todos os anos milhares de quilômetros, como a tesourinha, que pode ir até a Colômbia e voltar para se reproduzir nos nossos parques? Pra mim isso é fantástico.”
De acordo com Motta-Junior, há poucas espécies exóticas ou introduzidas sem ocorrência natural no país, como o pardal (Passer domesticus), o bico-de-lacre (Estrilda astrild) e o pombo-doméstico (Columba livia). Há casos também de aves que não tinham registro na cidade (pelo menos nos apontamentos históricos dos naturalistas pioneiros), mas que nas últimas duas décadas vêm aparecendo, como o caso do papagaio-verdadeiro (Amazona aestiva), típico dos cerrados do interior do Brasil, que aqui provavelmente vem se expandindo devido a indivíduos soltos de cativeiro.
Migrantes que naturalmente e sazonalmente aparecem todo ano são uma parte importante da avifauna, a maioria chegando na primavera e no verão para aqui se reproduzir, e saindo até fevereiro ou março. “Como exemplos, temos a tesourinha, o suiriri, o bem-te-vi-rajado a juruviara (Vireo chivi), o sovi ou gavião-sauveiro (Ictinia plumbea) e o andorinhão-dos-temporais (Chaetura meridionalis)”, enumera o pesquisador da USP.
Além das aves generalistas, Macedo diz que as cidades tendem a selecionar aquelas que se beneficiem dos distúrbios e alterações ambientais. Entre elas, estão as que naturalmente constroem ninhos em cavidades de árvores e que aproveitam a oferta involuntária desses abrigos artificiais criadas pelos humanos. “Exemplos disso são a corruíra (Troglodytes aedon), o pardal e o periquito-rico (Brotogeris tirica)”, diz.
“Aves frugívoras pouco sensíveis a alterações, como os sanhaços cinzento (Thraupis sayaca) e do-coqueiro (Thraupis palmarum), podem se aproveitar de frutos abundantes na cidade, como a amora e a erva-de-passarinho.”
Ele chama a atenção para quatro espécies nativas, que podem ser observadas por qualquer pessoa que dedique cinco minutos a se atentar às aves em qualquer parte da cidade: sabiá-laranjeira, bem-te-vi, periquito-rico (Brotogeris tirica), e sanhaço-cinzento. “Quem for um pouco além e fizer uma caminhada de uma hora no Parque Ibirapuera, com olhos e ouvidos atentos, pode registrar até 50 espécies”, diz.
Entre os gaviões, segunda Anelisa, destaca-se o imponente gavião-pega-macaco (Spizaetus tyrannus), espécie florestal observada nas áreas com fragmentos de vegetação nativa. Nos casos dos psitacídeos, chama a atenção a presença do papagaio (Amazona aestiva), que expandiu sua área de ocorrência natural e ganhou a cidade, sendo possível ver bandos grandes no Parque Ibirapuera. “Entre os pássaros, podemos citar espécies de mata fechada, que visitam os parques urbanos entre seus deslocamentos pelos fragmentos dessa vegetação”, diz. “São exemplos a araponga (Procnisas nudicolis) e o pavó (Pyroderus scutatus), que estão entre os maiores pássaros da nossa fauna.”
Além dessas aves mais comuns, há algumas que chamam a atenção, porque não se esperaria que elas fossem vistas em São Paulo.
Macedo, por exemplo, conta que já foi surpreendido várias vezes por espécies que até hoje não entende o que vieram fazer na parte urbana do município. “Um exemplo é a ocasião em que ouvi uma araponga (espécie dependente de florestas bem preservadas e extensas) cantando em uma praça próxima ao centro de São Paulo”, lembra.
“Outra tremenda surpresa foi quando os funcionários da Divisão de Fauna Silvestre da prefeitura resgataram um pinto-d’água-carijó (Coturnicops notatus) na zona leste da cidade. Para se ter uma ideia, essa espécie é tão difícil de ser encontrada que até então não se conhecia sequer a vocalização dela. Tanto um caso como o outro provavelmente estão ligados a movimentos sazonais que essas espécies fazem, mas que ainda não compreendemos bem.”
O que é certo, como lembra Anelisa, é que a fauna de uma região em geral e a avifauna em específico são dinâmicas, com algumas espécies aparecendo, colonizando e aumentando sua presença e outra diminuindo ou até mesmo desaparecendo. Exemplos desse fenômeno não faltam. É o caso da asa-branca.
“Ela se estabeleceu recentemente em São Paulo e aumentou bastante sua população”, informa. “No inicio do nosso estudo, em 1992, a espécie era incomum e agora é bastante frequente. O sabiá-laranjeira é outro exemplo. Está em maior número na cidade do que nos fragmentos florestais e no interior do Estado.”
Motta-Júnior, por sua vez, diz ter observado nos últimos anos, ao menos da região do Butantã, um aumento significativo dos periquitos-ricos, os quais não notava ser tão abundantes uns 20 anos atrás. “Sabiás-laranjeira também parecem ter aumentado, cantam muito desde a madrugada”, acrescenta. “Ambas as espécies podem estar aumentando devido à oferta maior de alimentos, mas seriam necessários estudos para confirmar o real motivo.”
Em contrapartida, o pardal, espécie europeia introduzida no Brasil, pelo Rio de Janeiro, em 1906, está sumindo da cidade.
“A estrutura das casas, principalmente a forma como são projetados os telhados agora, não fornecem mais abrigo para eles”, explica Barbosa.
“Isso pode ter contribuído para reduzir a reprodução.” Motta-Júnior concorda. “Realmente, há uns 20 ou 25 anos, eles eram mais comuns na cidade”, avalia. “Sua diminuição pode estar relacionada a alguma doença específica e endêmica, ou a locais de formação de ninho, mas precisamos de pesquisas para descobrir a causa. De qualquer forma, por se tratar de espécie exótica, sinceramente não acho ruim estarem desaparecendo, pois em seu lugar podem prosperar, por exemplo, os tico-ticos (Zonotrichia capensis), que são da fauna nativa.”
Fonte: BBC

O novo besouro que foi batizado em homenagem a Greta Thunberg.

Uma espécie de besouro recém-descoberta recebeu o nome da jovem ativista climática Greta Thunberg.
Nelloptodes greta tem pouca semelhança com sua xará — tem menos de 1 mm de comprimento e não possui olhos.
O inseto, no entanto, tem duas antenas longas parecidas com tranças.
O cientista Michael Darby disse que escolheu o nome porque ficou “imensamente impressionado” com a campanha ambiental da adolescente sueca.
A N. gretae foi encontrada pela primeira vez no Quênia na década de 1960 por William Block, que doou suas amostras para o Museu de História Natural de Londres em 1978. Ela está presente em uma das coleções do museu desde então.
Darby estava estudando essa coleção quando deparou com espécies ainda sem nome.
Ao nomear o besouro em homenagem a Thunberg, ele disse que “queria reconhecer sua excelente contribuição para aumentar a conscientização sobre questões ambientais”. Agora, o inseto foi formalmente nomeado na Revista Mensal de Entomologia.
Max Barclay, curador sênior do museu responsável pelo setor de besouros, disse que o nome era adequado porque “é provável que espécies desconhecidas estejam sendo perdidas o tempo todo, antes mesmo que os cientistas as tenham identificado, devido à perda da biodiversidade”.
“Portanto, é apropriado nomear uma das mais recentes descobertas em homenagem a alguém que trabalhou tão duro para defender o mundo natural e proteger as espécies vulneráveis”, acrescentou.

Quem mais tem um animal com seu nome?

Para os cientistas, nomear espécies recém-descobertas com seus próprios nomes não pega muito bem, portanto eles precisam ser mais criativos.
É por isso que agora temos um parasita com o nome de Bob Marley (Gnathia marleyi), um gênero de peixe chamado Richard Dawkins (Dawkinsia) e um pequeno grupo de espécies — algumas vivas, outras extintas — com o nome de David Attenborough.
Às vezes, animais recebem o nome de celebridades que os cientistas admiram, como o besouro N. gretae, ou uma aranha chamada Spintharus leonardodicaprioi.
Outras vezes, é porque a celebridade é conhecida por ter um carinho especial por esse animal — como no lêmure batizado depois do ator John Cleese, Avahi cleesei.
E às vezes os animais têm alguma semelhança com a celebridade de quem receberam o nome.
Por exemplo, há uma mosca de cabelos dourados com o nome de Beyoncé – Scaptia beyonceae. Há também uma mariposa chamada Neopalpa donaldtrumpi que, segundo o biólogo Vazrick Nazari disse em 2017, é conhecida por sua distinta cabeça loira e órgãos genitais “relativamente pequenos”.
E, no ano passado, Donald Trump teve outro animal batizado com o nome dele — um anfíbio que enterra a cabeça na areia. O Dermophis donaldtrumpi recebeu esse nome por causa dos comentários do presidente dos EUA sobre as mudanças climáticas.
Ao contrário de quando você nomeia um animal de estimação, os nomes científicos duram para sempre.
Talvez não exista um alerta mais estridente sobre os perigos disso do que o Anophthalmus hitleri, um besouro cego condenado a ser nomeado para sempre com o nome de Adolf Hitler por um admirador alemão em 1933.
Fonte: BBC

Por que o buraco na camada de ozônio está no menor tamanho já registrado.

A agência espacial americana (Nasa) anunciou uma boa notícia sobre o buraco na camada de ozônio: o tamanho dele atualmente é o menor já registrado desde que foi descoberto, em 1985.
Mas essa redução no buraco não se deve ao impacto de medidas internacionais para conter a degradação do ozônio, mas a um fenômeno climático incomum na Antártica.
O buraco na camada de ozônio em cima do continente antártico é um fenômeno sazonal, que atinge seu maior tamanho em setembro e outubro e desaparece em dezembro.
Em 8 de setembro deste ano, a fissura atingiu um tamanho máximo de 16,4 milhões de quilômetros quadrados, mas foi reduzida para 10 milhões de quilômetros quadrados no restante de setembro e outubro.
Normalmente, o buraco atinge cerca de 20 milhões de quilômetros nesses meses, uma quantidade inferior aos cerca de 25 milhões registrados em 2006.
Essa redução “é uma grande notícia”, disse Paul Newman, cientista do Centro de Voos Espaciais Goddard, da Nasa.
“Mas é importante reconhecer que o que estamos vivendo neste ano se deve a um aumento de temperaturas na estratosfera. A redução não é um sinal de que o ozônio atmosférico está em um caminho de rápida recuperação”, afirmou Newman.

Reações em cadeia

O ozônio é uma molécula altamente reativa composta por três átomos de oxigênio.
Entre 11 e 40 km acima da superfície da Terra, em uma faixa da atmosfera chamada estratosfera, o ozônio funciona como um filtro solar que protege o planeta da radiação ultravioleta — nos seres humanos, essa radiação pode causar efeitos como câncer de pele, catarata e suprimir o sistema imunológico.
Quando a radiação solar começa a se intensificar no início da primavera, começam a se formar as condições para uma série de reações químicas, produzidas a partir de cloro e brometo de produtos industriais presentes na região.
Essas reações químicas ocorrem em partículas nas nuvens que se formam nas camadas frias da estratosfera. Quando a temperatura está mais quente, formam-se nuvens polares menos estratosféricas — e essas persistem por um curto período de tempo. Portanto, o processo de destruição do ozônio fica menor nesses momentos.
É a terceira vez nas últimas quatro décadas que mudanças no clima e na temperatura reduzem a destruição da camada de ozônio, de acordo com Susan Strahan, cientista do centro Goddard, da Nasa. Reduções por causas semelhantes também ocorreram em 1988 e 2002.
“É um fenômeno estranho que ainda estamos tentando entender”, afirmou Strah.
A uma altitude de 20 km, as temperaturas ficaram 16ºC mais quentes que o previsto.
O vórtice polar, um turbilhão de ventos frios ao redor dos polos, também ficou mais fraco, e a velocidade do vento caiu de uma média de 259 para 107 km por hora.
Em meados de outubro, o buraco na camada de ozônio permaneceu estável e deve se dissipar gradualmente nas próximas semanas.

Compostos industriais

Em 1997, vários países assinaram o Protocolo de Montreal, que proibia o uso e a produção de clorofluorcarbonos (CFCs), produtos químicos de origem artificial que contêm cloro e são utilizados em aerossóis, embalagens de espuma e materiais de refrigeração.
Mas esses compostos têm um tempo de vida bastante longo. E a presença deles na atmosfera continuou a aumentar até o ano 2000.
Desde 2000, os níveis de clorofluorcarbonos vêm caindo, mas ainda são altos o suficiente para produzir destruição significativa no ozônio.
Segundo a Nasa, a expectativa é que o buraco continue a diminuir nos próximos anos, mas o retorno ao nível em que ele estava em 1980 só vai acontecer por volta de 2070.
Fonte: BBC

domingo, 27 de outubro de 2019

Mancha de óleo atinge 10 quilômetros do Rio Negro em Manaus.

Uma mancha de óleo cru se espalhou por dez quilômetros da orla do Rio Negro,  na zona urbana de Manaus (AM), segundo informações do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam). O vazamento ocorreu na segunda-feira, 27 de agosto, quando um empurrador de balsas com 1.800 litros do produto naufragou em um porto na Zona Leste da cidade.
A mancha atingiu um ponto de captação de água que abastece parte da periferia da cidade. Não houve contaminação, mas estão sendo feitas análises periódicas para confirmar a qualidade da água. Ainda não há notícias também de impactos graves sobre a vida aquática na área afetada.
O Ipaam divulgou ter embargado o porto de balsas onde ocorreu o acidente, pelo não cumprimento de normas de operação. Segundo informações da assessoria de imprensa, as medidas tomadas pela empresa para evitar que o produto se espalhasse foram consideradas falhas. O porto, que tinha licenciamento ambiental para funcionar, está embargado. O Ipaam aguarda um relatório sobre os danos provocados para definir o valor da multa a ser aplicada.
Fonte: O Eco, Vandré Fonseca

Detergente, maionese e aulas de natação: a saga das tartarugas sujas de óleo para voltar ao mar.

Há um mês e meio, dezenas de animais foram atingidos por manchas de petróleo no litoral do Nordeste brasileiro. O material de origem ainda desconhecida causou a morte de pelo menos duas aves e 15 tartarugas marinhas.
Outras 11 tartarugas foram resgatadas após entrarem em contato com o petróleo, mas sobreviveram. Biólogos estimam, porém, que muitos dos animais atingidos morreram e não foram encontrados.
Por isso, foram retiradas do mar, de maneira preventiva, 486 tartarugas para evitar que se contaminem ao serem transportadas para áreas com menor chance de serem afetadas.
Biólogos e veterinários entrevistados pela BBC News Brasil dizem que as tartarugas atingidas podem demorar até seis meses para voltar para o mar. Nesse meio tempo, vivem uma saga até a recuperação completa.
Depois que a tartaruga é recolhida, os especialistas iniciam um processo de limpeza, treinamento e uma bateria de exames até que esteja pronta para voltar ao seu habitat. Por ser um réptil e ter um metabolismo mais lento, sua recuperação é bem mais demorada do que a de uma ave, por exemplo.
Flávio Lima, coordenador-geral do Projeto Cetáceos da Costa Branca, da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), explica que o processo de higienização e recuperação física segue uma série de etapas.
“A primeira é a descontaminação, para propiciar condições mínimas de sobrevivência. Fazemos uma lavagem das partes moles do corpo da tartaruga, como as nadadeiras e a cabeça. Depois, as mais rígidas, como o casco e o plastrão, que é a parte de baixo — onde fica o peito e a barriga. Fazemos isso usando esponjas, óleo vegetal e detergente neutro”, conta Lima.
Ele diz que esse processo é repetido até que o animal esteja completamente limpo. Essa fase pode demorar até cinco dias. As maiores preocupações são as cavidades, como boca, olhos, narina e cloaca — por onde as tartarugas também respiram.
Thaís Pires, veterinária do Projeto Tamar, afirma que o petróleo gruda com facilidade nas nadadeiras. Isso aumenta o peso do animal e impede que consiga nadar. Para remover o excesso, é necessário usar uma outra gordura que consiga solubilizá-lo para só então fazer uma lavagem final com detergente neutro e água.
“Na boca, usamos maionese, porque o óleo escorre e precisamos de algo mais sólido. Se a gente não usar essas gorduras, o detergente não consegue agir sozinho, porque o petróleo é muito denso. Precisaríamos de uma quantidade muito grande para termos o mesmo resultado”, diz.
A veterinária explica que uma das técnicas para tirar o petróleo do organismo dos animais é fazer com que eles ingiram carvão ativado em pó, que se liga aos compostos tóxicos, como o petróleo, e sai do corpo. Esse óleo causa muita irritação no organismo. Se ele fica muito tempo em contato com a pele, pode queimar.
Caso o animal continue apático e sem força para respirar, ele é mantido em um ambiente úmido, mas fora da água. “Se a gente coloca ela debilitada na água, ela se afoga”, diz Pires.
Para isso, os veterinários colocam a tartaruga sobre uma grande esponja e cobrem sua carapaça com uma toalha molhada para que o permaneça sempre úmida.

Exames, alimentação e treino

Depois da limpeza, o animal precisa de uma pausa para reduzir o estresse causado tanto pelo óleo grudado no corpo quanto pelo tratamento inicial para retirá-lo. Nesse momento, os animais são alimentados e, em alguns casos, tomam soro fisiológico até que se recuperem fisicamente.
Depois, são feitas diversas sessões de fisioterapia e, assim que a musculatura se fortalece, iniciam as “aulas de natação” com captura de alimento dentro de um tanque para que se adaptem ao retorno para o mar.
“Nesse período, a gente também deixa ela num recinto específico para avaliar se continua soltando óleo nas fezes. Uma reabilitação dura cerca de 2 meses. São feitos nesses períodos baterias laboratoriais para verificar se há alterações em exames de hemograma e bioquímico”, afirma Lima.
Os biólogos e veterinários ressaltam, porém, que esse trabalho de limpeza não pode ser feito por banhistas ou moradores locais.
“As pessoas não devem tentar devolver a tartaruga ao mar, porque ela não vai sobreviver e, ainda por cima, voltará ao local contaminado. Também não devem tentar limpá-la, porque isso pode agravar ainda mais sua situação. Quem avistar um animal ferido ou com manchas de óleo, deve ligar para o Corpo de Bombeiros. Eles vão acionar o Ibama ou outro órgão ambiental, que fará o resgate com equipes especializadas”, diz Lima.
A veterinária afirma que a tendência é que a tartaruga atingida por manchas de óleo se recupere completamente e não necessite viver num tanque pelo resto da vida. Essa decisão só é tomada quando o animal nasce sob a proteção do instituto ou não tem condições físicas de voltar à natureza.
Um exemplo disso é uma tartaruga que se machucou com objetos de pesca e perdeu os movimentos de sua nadadeira. Ela fez sessões de fisioterapia, estímulos elétricos e acumpuntura, mas, como sua nadadeira atrofiou, hoje vive no Projeto Tamar na Praia do Forte, na Bahia.
Depois de todo o processo de recuperação, as tartarugas estão finalmente preparadas para voltar ao mar. Dois filhotes foram socorridos por biólogos do Projeto Tamar nesta semana e já foram soltos por ter apenas pequenas manchas de óleo. Geralmente, isso ocorre a partir da areia, mas, desta vez, foram deixados em alto mar, diz a veterinária Thaís Pires.
“O mais importante é permitir que o filhote vença esse primeiro desafio e chegue à água. Com a barreira física do óleo que há hoje, eles não conseguem chegar até o mar. Nos primeiros dias, a gente mudava os filhotes de praias contaminadas para aquelas que estavam limpas. Agora, a gente precisa jogá-los diretamente em alto mar. Isso dá uma chance maior a eles, porque não sabemos quanto óleo há no mar nem como está se deslocando”, afirmou.
Fonte: BBC

O desafio de conter as manchas de óleo no Nordeste.

O mais recente balanço do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) sobre o vazamento de óleo nas praias do Nordeste, divulgado nesta terça-feira (22/10), indica a ocorrência de manchas e vestígios em 204 praias, distribuídas em 78 municípios de nove estados: Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe.
Até o momento, a origem do maior desastre ambiental já registrado na costa brasileira é desconhecida, e ainda não é possível apontar responsáveis. À medida que as manchas de óleo se alastram, somam-se críticas à maneira como o governo vem lidando com o desastre.
Para especialistas ouvidos pela DW Brasil, a resposta do governo tem sido precária. Uma evidência disso seria a falta de condições básicas para dar suporte aos mutirões voluntários da população local nas praias do Nordeste. Nesta quarta-feira, a Polícia Federal solicitou ao governo 50 mil luvas e 10 mil botas.
Embora critiquem a inação do governo atual ante o desastre, os analistas apontam que o problema central é a falta de preparo no longo prazo para lidar com situações desse tipo, especialmente em um país que explora, produz e transporta petróleo em alto mar.
Na última década, os estados produtores foram inundados com royalties referentes a essa atividade, mas pouco ou nenhum recurso foi investido na prevenção de acidentes – real finalidade dessa contrapartida financeira.
“As soluções que buscam mitigar os efeitos de eventos trágicos como este devem sair de iniciativas com pró-atividade, e não reatividade”, avalia o meteorologista Luiz Paulo Assad, coordenador do Núcleo de Modelagem Ambiental na Coppe/UFRJ, o Instituto de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, com uma simulação de computador.
“Está mais do que na hora de podermos desenvolver efetivamente um sistema nacional integrado de identificação e monitoramento de óleo no mar, para que estejamos preparados para dar respostas à sociedade em eventos como este. Temos expertise e conhecimento de métodos para isso”, assegura.
A pedido da Marinha, Assad e o pesquisador Luiz Landau, coordenador do Laboratório de Métodos Computacionais em Engenharia, cruzaram dados meteoceanográficos com o mapa de manchas de óleo encontradas na costa nordestina.
Pela inversão do sentido temporal do modelo rodado em computador, a partir dos pontos de destino do óleo fragmentado, os pesquisadores chegaram a uma estimativa sobre a origem do material poluente: uma área entre 600 quilômetros e 700 quilômetros da costa brasileira, numa faixa de latitude com centro entre Sergipe e Alagoas. Agora, os cientistas se dedicam a analisar os prováveis destinos do óleo.
Berçários do mar ameaçados
Enquanto isso, as manchas continuam a se espalhar. Mais do que prejudicar a economia da região, por afetar o turismo e a atividade pesqueira, o dano à vida marinha deverá ser trágico.
O oceanógrafo David Zee, professor na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), explica que a área afetada até aqui compreende uma extensão de aproximadamente 2.355 quilômetros de costa. Dessa porção, cerca de 1.200 quilômetros abrigam manguezais e recifes de corais, biomas extremamente sensíveis.
“Temos um dilema. Se essa borra de óleo encosta no recife e gruda, a melhor alternativa é deixar como está. O produto dispersante é muito mais venenoso para a vida marinha do que o próprio óleo cru. É como um chiclete grudar no cabelo, a única forma de tirar é arrancar. Como queremos preservar o ecossistema, o melhor é deixar como está”, expõe o pesquisador.
Nesse caso, o óleo poderia permanecer nos recifes e manguezais por um período de 20 a 40 anos, tempo que leva para se decompor. Como os ecossistemas marinhos são muito integrados, o impacto se estende à toda a cadeia desses biomas. “Os recifes são os berçários do mar. É onde a vida tem proteção, abrigo e alimento para a procriação”, comenta Zee.
A principal medida para evitar o avanço do óleo e proteger esses pontos sensíveis tem sido a utilização de barreiras de contenção. Governadores do Nordeste têm cobrado do governo federal a compra de novas estruturas.
Em nota técnica recente, no entanto, o Ibama afirma que as barreiras podem ter um efeito reverso em áreas que já estão contaminadas, impedindo a depuração natural do ambiente.
Anna Carolina Lobo, gerente do Programa Marinho da organização internacional WWF, explica que há protocolos internacionais a serem seguidos em desastres desse tipo, extraídos de acordos dos quais o Brasil é signatário.
“É fundamental a identificação do óleo, para identificar de onde vem e acionar o responsável para arcar com recursos financeiros para a mitigação emergencial dos impactos. Além disso, tem que haver o treinamento das comunidades e pessoas que vivem na costa para lidar com um problema desse tipo, bem como a compra de equipamentos de proteção individual para as pessoas que atuam nos mutirões”, detalha.
Os procedimentos descritos já foram adotados em outros episódios de vazamento de óleo no mar, como o do poço de Macondo, no Golfo do México, em 2010, e o do navio Exxon Valdez, no Alasca, em 1989. No entanto, nestes e em outros casos, a fonte do vazamento era conhecida.
Criticando a inação do governo brasileiro, a porta-voz do WWF acrescenta que também seria fundamental uma ação coordenada entre Marinha, Ibama, Ministério do Meio Ambiente e Agência Nacional do Petróleo, para lidar com o caso na urgência requerida. “É um cenário caótico. A gente nunca ouviu falar de algo semelhante ocorrido em outro país que passou por isso”, afirma.
Receio sobre os leilões do pré-sal
Na última sexta-feira, o presidente Jair Bolsonaro ventilou a possibilidade de o vazamento de óleo ter sido cometido intencionalmente para prejudicar o megaleilão da Cessão Onerosa de áreas do pré-sal da Bacia de Santos, a ser realizado no dia 6 de novembro.
O leilão é considerado essencial para as contas do governo, já que as expectativas oficiais mensuram um bônus de arrecadação de R$ 100 bilhões. No dia seguinte, será realizada a sexta rodada de leilão do pré-sal.
Há uma grande expectativa do governo e de investidores sobre como o desastre poderá impactar os novos leilões. Na última edição, em outubro, os quatro blocos da Bacia de Camamu-Almada, localizados no Parque Nacional Marinho dos Abrolhos, não receberam nenhuma oferta de petroleiras. A região detém a mais rica biodiversidade do Atlântico Sul.
A insegurança dos investidores se deveu à sensibilidade ambiental da região, mas também à experiência recente da empresa francesa Total, que adquiriu cinco blocos exploratórios na Bacia da Foz do Amazonas em 2013, no Amapá, mas até hoje não obteve a licença do Ibama para perfurar na região. Na ocasião, o Greenpeace anunciou a existência de um recife de coral naquela área.
Fonte: Deutsche Welle

sábado, 26 de outubro de 2019

Derretimento de gelo no Ártico revela 5 novas ilhas que não sabíamos que existiam.

A Marinha russa identificou cinco novas ilhas no arquipélago Novaya Zemlya, no Ártico, reveladas pelo gelo derretido dos glaciares da região.
“Pensávamos que elas eram [parte da] geleira principal [chamada Vylki, também conhecida como Nansen]. O derretimento, o colapso e as mudanças de temperatura levaram à descoberta dessas ilhas”, disse o vice-almirante russo Alexander Moiseyev.

As ilhas

As ilhas variam em tamanho, com a menor medindo apenas 30 por 30 metros, e a maior cobrindo cerca de 54.500 metros quadrados.
Sua presença foi primeiro suspeitada pela estudante de engenharia Marina Migunova, que observou massas terrestres em imagens de satélite em 2016 enquanto trabalhava em um artigo.
Na nova expedição da Marinha, pesquisadores analisaram a topografia das cinco ilhas, concluindo que elas devem ter surgido aproximadamente em 2014.
Apesar de suas jovens idades, as terras já são colonizadas por algas, plantas e pássaros, além de demonstrarem evidências de animais terrestres maiores.

Temporárias ou permanentes?

No momento, não é possível saber por quanto tempo as ilhas permanecerão parte da paisagem ártica. Um glaciologista da expedição sugeriu que elas possam duram apenas uma década ou menos.
“Hoje, é difícil chegar a conclusões sobre sua importância e vida útil”, disse o capitão Alexei Kornis, chefe do Serviço Hidrográfico da Frota do Norte, ao site russo Arctic. “Encontramos os restos de uma foca mordida por um urso. Então, se tudo isso conseguir se enraizar, as ilhas sobreviverão”.

Mundo gelado em mudança

A expedição russa – que navegou por águas há pouco tempo completamente congeladas – encontrou outras massas terrestres previamente desconhecidas durante a missão.
Por exemplo, uma sexta ilha foi descoberta em um estreito da Terra de Francisco José, um arquipélago polar russo.
De acordo com a Marinha, esses achados não são isolados, e sim fazem parte de uma dúzia de novas ilhas que têm emergido no Ártico nos últimos anos.
Conforme o mundo se torna mais quente graças à mudança climática impulsionada pela atividade humana, devemos ver cada vez mais transformações na paisagem polar em derretimento.
“A descoberta de ilhas à medida que a geleira Nansen recua não é uma surpresa, pois uma geleira é simplesmente um rio de gelo transportando neve e gelo compactados dos terrenos mais altos para o mar”, disse o oceanógrafo Tom Rippeth, da Universidade Bangor, no País de Gales, ao Newsweek. “À medida que o clima esquenta, as geleiras encolhem e expõem a terra abaixo. Esse é outro sintoma do aumento do aquecimento no Ártico – nesta região a temperatura média é de 5 a 6 graus Celsius mais quente em resposta às mudanças climáticas”. [ScienceAlert]
Fonte: Hypescience