sábado, 26 de janeiro de 2019

A importância das pequenas plantas do Cerrado.

São elas que protegem o solo da erosão e garantem a preservação de mananciais que abastecem rios. Biodiversidade seriamente ameaçada é tema de livro ( foto: livro Plantas pequenas do Cerrado: biodiversidade negligenciada)
“As pessoas só dão valor para aquilo que conhecem.” Foi este pensamento que inspirou a pesquisadora Giselda Durigan a coordenar a empreitada coletiva que resultou no livro Plantas pequenas do Cerrado: biodiversidade negligenciada.
Com 720 páginas, quase todas ilustradas com deslumbrantes fotos coloridas, o livro apresenta um levantamento exaustivo das plantas de pequeno porte, que são o sustentáculo do Cerrado.
Destinada à distribuição gratuita para bibliotecas, institutos de pesquisa e estudiosos, e também disponibilizada em arquivo PDF aberto para todos os interessados, a obra teve sua publicação financiada pela Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo.
Durigan, pesquisadora do Instituto Florestal do Estado de São Paulo, explica que a publicação é resultado de quase uma década de trabalho a várias mãos, que se iniciou com uma pesquisa de doutorado sobre o impacto da invasão das fisionomias campestres do Cerrado por árvores de pinus e ganhou corpo ao longo de três outras pesquisas apoiadas pela FAPESP.
Foram elas: “Avaliação do potencial de remanescentes naturais como fontes de propágulos para a restauração de fisionomias campestres de cerrado”; “Invasão do campo cerrado por braquiária (Urochloa decumbens): perdas de diversidade e experimentação de técnicas de restauração”; e “Efeito da queima prescrita e da geada sobre a diversidade e estrutura do estrato herbáceo-arbustivo do Cerrado”.
“Quando nos engajamos nessas pesquisas, percebemos que o grande impacto causado pelas invasões biológicas não se dava sobre árvores, mas sobre as plantas pequenas do campo. E isso constituiu um enorme desafio, porque a nomenclatura e a classificação dessas plantas eram largamente desconhecidas. Eu tinha passado toda a minha vida profissional olhando para cima, para as árvores. Tive, então, que olhar para baixo, e com muito respeito”, disse Durigan à Agência FAPESP.
Professora em programas de pós-graduação em Ciência Florestal na Universidade Estadual Paulista (Unesp) e em Ecologia na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), ela estuda o Cerrado há mais de 30 anos.
O grupo que coordenou na feitura do livro foi constituído por suas alunas Natashi Aparecida Lima Pilon e Geissianny Bessão de Assis, e por seus colegas Flaviana Maluf de Souza e João Batista Baitello.
“O que chamamos de ‘plantas pequenas’ são espécies que se tornam adultas e capazes de se reproduzir com menos de 2 metros de altura. Foi um critério arbitrário que adotamos. Começamos coletando essas plantas, e inventando nomes provisórios para elas, enquanto corríamos atrás de pessoas que pudessem nos ajudar na identificação”, contou Durigan.
Mas não foi nada fácil encontrar essas pessoas, conta a pesquisadora. Simplesmente, não havia especialistas em plantas pequenas. Foi preciso recorrer a manuais, monografias, livros antigos e ao famoso Dicionário das Plantas Úteis do Brasil, em seis volumes, publicado por Manoel Pio Corrêa no início do século passado.
“Encontramos plantas que nunca tinham sido registradas no Estado de São Paulo e outras que não eram coletadas há várias décadas. Mas não achamos nenhuma espécie nova, desconhecida pela ciência. Todas já tinham seus nomes científicos. Porém, foi uma busca tremenda descobrir os nomes populares. Muitas das plantas que encontramos estavam classificadas como ‘daninhas’ nesses livros antigos, porque a perspectiva adotada era a de quem queria cultivar o Cerrado com pastagens ou agricultura”, disse Durigan.
Um termo curioso encontrado foi o “mata-pasto”, que nomeava nada menos do que sete espécies diferentes, todas elas muito resistentes. Como essas plantas rebrotam inúmeras vezes depois de cortadas, eram consideradas daninhas. E o nome popular que receberam invertia a ordem cronológica, como se o pasto tivesse aparecido antes e as plantas surgissem depois para atrapalhar, quando havia sido exatamente o contrário.
“O que as pessoas não entendiam – e temos feito um esforço enorme para esclarecer – é que essas plantas de pequeno porte são fundamentais para a sobrevivência do Cerrado e da extraordinária riqueza que ele possui em termos de recursos hídricos e biodiversidade”, disse Durigan.
“Fala-se em desmatamento quando ocorre corte de árvores. Mas, se as plantas pequenas são erradicadas, todo o equilíbrio do Cerrado se rompe. E isso está acontecendo sem o menor impedimento porque a legislação não protege a vegetação que não tem árvores. Além disso, essa vegetação nem sequer aparece nos mapas, dadas as limitações tecnológicas para diferenciá-la de pastagens ou agricultura em imagens de satélite”, acrescentou.
Seis plantas pequenas para uma árvore
Durigan destaca que são as plantas pequenas que cobrem o solo, prevenindo a erosão pela chuva ou pelo vento.
“Elas possuem um emaranhado de raízes, facilitando a infiltração da água no solo e garantindo a saúde do ecossistema e a manutenção dos mananciais que alimentam os rios. Para ser savana, o Cerrado precisa possuir as duas camadas: a camada de árvores esparsas a meia altura e a camada de plantas pequenas cobrindo o solo”, explicou.
Segundo os autores do livro, a proporção é de seis espécies de plantas pequenas para cada espécie de árvore. Das 12.734 espécies vegetais que compõem o Cerrado, mais de 10 mil correspondem a plantas pequenas. Elas estão ameaçadas pelo adensamento das copas das árvores, resultante do manejo inadequado, e pela invasão por espécies exóticas, como o pinus e a braquiária.
O objetivo do livro é encantar os leitores com a beleza dessas plantas pequenas. E conscientizá-los acerca da necessidade de sua preservação.
Fonte: FAPESP

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Crescem as leis para proteger o meio ambiente, mas há falhas graves de implementação, diz relatório.

A primeira avaliação global do Estado de Direito Ambiental, divulgada nessa quinta-feira (24) pela ONU Meio Ambiente, mostra que embora o número de leis e agências ambientais tenha aumentado de forma exponencial em todo o mundo nas últimas quatro décadas, a fraca aplicação das leis é uma tendência que está agravando os problemas ambientais.
A primeira avaliação global do Estado de Direito Ambiental, divulgada nessa quinta-feira (24), mostra que embora o número de leis e agências ambientais tenha aumentado de forma exponencial em todo o mundo nas últimas quatro décadas, a fraca aplicação das leis é uma tendência que está agravando os problemas ambientais.
O novo relatório da ONU Meio Ambiente aponta que apesar de um aumento de 38 vezes da legislação ambiental em vigor desde 1972, a incapacidade de implementar e de fazer cumprir essas leis é um dos maiores desafios para mitigar a mudança do clima, reduzir a poluição e evitar a perda generalizada de espécies e habitats, revelou o relatório da ONU Meio Ambiente.
O relatório está sendo publicado em um momento crucial, quando especialistas em clima e lideranças políticas e econômicas buscam enfrentar as devastadoras conclusões publicadas em outubro de 2018 pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, órgão das Nações Unidas, que instou ações urgentes para transformar a economia global a uma velocidade e escala “sem precedentes históricos”.
Para o relator especial da ONU sobre Direitos Humanos e Meio Ambiente, David Boyd, este novo e convincente relatório soluciona o mistério de entender por que problemas como a poluição, diminuição da biodiversidade e mudança do clima persistem apesar da proliferação de leis ambientais nas últimas décadas. “A menos que o Estado de Direito Ambiental seja fortalecido, leis aparentemente rigorosas estão fadadas a falhar e o direito humano fundamental a um meio ambiente saudável não será usufruído.”
Embora a ajuda internacional tenha, de fato, auxiliado dezenas de países a assinar mais de 1,1 mil acordos ambientais desde 1972 e a elaborar muitos dispositivos legais na área ambiental, nem a ajuda nem os orçamentos nacionais levaram ao estabelecimento de agências e órgãos ambientais capazes de aplicar as leis e regulamentos de forma eficaz. Os autores identificam múltiplos fatores para a baixa implementação do Estado de Direito Ambiental, tais como a falta de coordenação entre as agências governamentais, a fraca capacidade institucional, a falta de acesso à informação, a corrupção e o sufocamento do engajamento civil.
“Temos um conjunto de leis, regulamentos e agências para governar nosso meio ambiente de forma sustentável”, declarou Joyce Msuya, diretora-executiva interina da ONU Meio Ambiente. “Agora é essencial que haja vontade política para assegurar que nossas leis trabalhem pelo planeta. Essa primeira avaliação global sobre o Estado de Direito Ambiental ressalta o trabalho daqueles que ficaram do lado certo da história — e de quantas nações se tornaram mais fortalecidas e seguras”, complementou.
O relatório apresenta várias conquistas do direito ambiental desde 1972, inclusive a adoção do direito constitucional a um meio ambiente saudável por 88 países, sendo que outras 65 nações incorporaram a proteção ambiental em suas constituições. Além disso, mais de 350 cortes ambientais foram criadas em mais de 50 países e mais de 60 países contam com dispositivos legais sobre o direito dos cidadãos à informação ambiental.
De acordo com Carl Bruch, diretor de Programas Internacionais do Instituto de Direito Ambiental (Environmental Law Institute), “a comunidade internacional pode fazer mais. Com frequência, o apoio de doadores se concentra em áreas específicas, o que resulta em programas sólidos em algumas áreas ambientais e outras com nenhum financiamento ou atenção. Essa abordagem fragmentada pode minar o Estado de Direito Ambiental ao não fornecer consistência na implementação e aplicação das leis e ao enviar mensagens conflitantes à comunidade regulamentada e ao público. Muitas dessas leis ainda têm que se enraizar na sociedade e, na maioria dos casos, a cultura de conformidade ambiental é fraca ou inexistente.”
O relatório dedica atenção especial a uma tendência particularmente preocupante: a crescente resistência às leis ambientais, que tem sido mais evidenciada nos casos de assédio, ameaças, prisões arbitrárias e assassinatos de defensores ambientais. Entre 2002 e 2013, 908 pessoas — incluindo agentes florestais, inspetores governamentais e ativistas locais — foram mortos em 35 países e, só em 2017, 197 defensores ambientais foram assassinados.
“A criminalização e os crescentes ataques aos defensores ambientais constituem claras violações ao Estado de Direito Ambiental e uma afronta aos direitos, papéis e contribuições dos povos indígenas e da sociedade civil na proteção do meio ambiente. Esse relatório capta a falta de responsabilização, de uma governança ambiental forte e do respeito aos direitos humanos para a sustentabilidade do nosso meio ambiente”, afirmou Joan Carling, ativista de direitos indígenas e defensora ambiental das Filipinas.
O engajamento de uma sociedade civil informada leva à melhor tomada de decisões pelo governo, a ações ambientais mais responsáveis por parte das empresas e a um direito ambiental mais eficaz. A produção periódica de relatórios sobre a qualidade ambiental dos países, inclusive sobre a qualidade do ar e da água, também pode ajudar a atingir essas metas. Infelizmente, de acordo com o Índice de Democracia Ambiental, apenas 20 dos 70 países avaliados, ou seja, 28%, são classificados como sendo “bom” ou “muito bom” na produção de relatórios periódicos, abrangentes e atuais do “Estado do Meio Ambiente”. Na Índia, Tailândia e Uganda, por exemplo, os dados sobre a poluição gerada por instalações industriais só podem ser obtidos por meio de contatos pessoais.
O relatório ainda oferece diversos exemplos de boas práticas, inclusive inovações aplicadas em países em desenvolvimento que muitas vezes enfrentam os mesmos desafios dos países desenvolvidos, mas com menos recursos. A diversidade geográfica desses esforços e inovações reforça dois pontos-chave desse relatório: O desenvolvimento e a promoção do Estado de Direito Ambiental é um desafio para todos os países; é também uma prioridade crescente. Para que as metas de centenas de leis, regulamentos e políticas nacionais que regem o meio ambiente em todo o mundo sejam alcançadas — inclusive a saúde e o bem-estar públicos, economias sólidas e sociedades pacíficas —, é preciso atribuir prioridade máxima ao fortalecimento do Estado de Direito Ambiental.
NOTA PARA EDITORES
Sobre o Programa de Governança Ambiental na ONU Meio Ambiente
Na ONU Meio Ambiente, trabalhamos junto com os países para promover uma governança ambiental inclusiva e eficaz, sustentada por leis e políticas, bem como instituições informadas e fortalecidas. Baseamos esses esforços no Estado de Direito, promovendo uma abordagem baseada em direitos para a gestão ambiental e fortalecendo as capacidades de fazer cumprir a legislação e combater infrações. Também promovemos respostas globais coordenadas e coesivas para questões ambientais urgentes.
Sobre a Iniciativa de Defensores Ambientais
A Iniciativa da ONU de Defensores Ambientais levará a proteção ambiental para mais perto das pessoas, ajudando-as a entender melhor seus direitos e como defendê-los; trabalhando com a mídia para melhorar a cobertura das questões de direitos humanos e ambientais; chamando o setor privado para ir de uma cultura de conformidade para uma onde os direitos ambientais sejam defendidos; e ajudando os governos a implementar as obrigações de direitos ambientais. A Iniciativa de Defensores Ambientais representa a fase seguinte do trabalho da ONU Meio Ambiente em direitos humanos e meio ambiente. Baseia-se nos resultados de seus projetos passados, bem como em resoluções da Assembleia da ONU Meio Ambiente (UNEA) e do Conselho de Direitos Humanos.
Fonte: ONU

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Groenlândia está derretendo mais rápido do que esperávamos e não há muito mais o que fazer.

É possível que já seja tarde demais para reverter o derretimento do gelo na Groenlândia. Segundo um novo estudo, o aquecimento contínuo e acelerado da atmosfera terreste está fazendo com que as camadas de gelo na ilha derretam mais rápido do que os cientistas imaginavam, o que provavelmente levará a uma elevação mais rápida do nível do mar.
Os cientistas já sabiam há muito tempo sobre o derretimento do gelo nas regiões sudeste e noroeste da Groenlândia, onde grandes geleiras têm perdido pedaços de gelo do tamanho de icebergs para o Oceano Atlântico. Esses pedaços flutuam pelo oceano e eventualmente acabam derretendo. No novo estudo, porém, publicado em 21 de janeiro na revista Proceedings, os cientistas descobriram que a maior perda de gelo do início de 2003 a meados de 2013 veio da região sudoeste da Groenlândia, que é desprovida de grandes geleiras.
“O que quer que fosse não poderia ser explicado pelas geleiras, porque não há muitas lá. Tinha que ser a massa da superfície – o gelo estava derretendo para o interior da costa”, diz Michael Bevis, principal autor do estudo, professor de geodinâmica na Universidade Estadual de Ohio, nos EUA, em matéria publicada no site da instituição.
Esse derretimento significa que, na parte sudoeste da Groenlândia, rios de gelo derretido estão fluindo para o oceano durante o verão. Esta região, que anteriormente não era considerada uma ameaça, provavelmente se tornará um importante contribuinte futuro para o aumento do nível do mar. “Sabíamos que tínhamos um grande problema com o aumento das taxas de descarga de gelo através da saída de algumas grandes geleiras. Mas agora reconhecemos um segundo problema sério: cada vez mais, grandes quantidades de massa de gelo vão sair como água de degelo, como rios que correm para o mar”,
O pior de tudo é que, segundo Bevis, não há mais como reverter a situação. “A única coisa que podemos fazer é nos adaptar e mitigar o aquecimento global – é muito tarde para não haver efeitos. Isso vai causar aumento adicional do nível do mar. Estamos observando o manto de gelo atingir um ponto crítico”, alerta. “Vamos ver um aumento mais rápido e mais rápido do nível do mar no futuro previsível. Uma vez que você atinge esse ponto de inflexão, a única pergunta é: quão grave isso é?”

Groenlândia está derretendo mais rápido do que esperávamos e não há muito mais o que fazer.

É possível que já seja tarde demais para reverter o derretimento do gelo na Groenlândia. Segundo um novo estudo, o aquecimento contínuo e acelerado da atmosfera terreste está fazendo com que as camadas de gelo na ilha derretam mais rápido do que os cientistas imaginavam, o que provavelmente levará a uma elevação mais rápida do nível do mar.
Os cientistas já sabiam há muito tempo sobre o derretimento do gelo nas regiões sudeste e noroeste da Groenlândia, onde grandes geleiras têm perdido pedaços de gelo do tamanho de icebergs para o Oceano Atlântico. Esses pedaços flutuam pelo oceano e eventualmente acabam derretendo. No novo estudo, porém, publicado em 21 de janeiro na revista Proceedings, os cientistas descobriram que a maior perda de gelo do início de 2003 a meados de 2013 veio da região sudoeste da Groenlândia, que é desprovida de grandes geleiras.
“O que quer que fosse não poderia ser explicado pelas geleiras, porque não há muitas lá. Tinha que ser a massa da superfície – o gelo estava derretendo para o interior da costa”, diz Michael Bevis, principal autor do estudo, professor de geodinâmica na Universidade Estadual de Ohio, nos EUA, em matéria publicada no site da instituição.
Esse derretimento significa que, na parte sudoeste da Groenlândia, rios de gelo derretido estão fluindo para o oceano durante o verão. Esta região, que anteriormente não era considerada uma ameaça, provavelmente se tornará um importante contribuinte futuro para o aumento do nível do mar. “Sabíamos que tínhamos um grande problema com o aumento das taxas de descarga de gelo através da saída de algumas grandes geleiras. Mas agora reconhecemos um segundo problema sério: cada vez mais, grandes quantidades de massa de gelo vão sair como água de degelo, como rios que correm para o mar”,
O pior de tudo é que, segundo Bevis, não há mais como reverter a situação. “A única coisa que podemos fazer é nos adaptar e mitigar o aquecimento global – é muito tarde para não haver efeitos. Isso vai causar aumento adicional do nível do mar. Estamos observando o manto de gelo atingir um ponto crítico”, alerta. “Vamos ver um aumento mais rápido e mais rápido do nível do mar no futuro previsível. Uma vez que você atinge esse ponto de inflexão, a única pergunta é: quão grave isso é?”

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Ibama identifica fraudes na cadeia produtiva do carvão vegetal no MA.

Agentes do Ibama inspecionaram 14 empreendimentos com movimentações comerciais suspeitas e identificaram 165,9 mil metros de carvão vegetal sem origem legal vendidos para siderúrgicas do Maranhão nos últimos três anos. Esse volume equivale à carga de pelo menos 1.700 caminhões adaptados para o transporte do produto.
A ação foi realizada após análise de dados gerados pelo Sistema do Documento de Origem Florestal (DOF). Analistas ambientais do Instituto estimam que 7.100 hectares do Cerrado maranhense tenham sido desmatados para abastecer a movimentação ilegal identificada.
Toda a lenha sem origem legal foi apreendida. As áreas desmatadas de forma irregular, inclusive reservas legais, foram embargadas. A operação resultou na aplicação de 34 autos de infração, que totalizam R$ 55,4 milhões, no Maranhão.
De acordo com a investigação, empresas simulavam a compra de lenha em fazendas com autorização para desmatamento. “Informações apresentadas, como distância de transporte e tempo de execução, ajudaram a identificar as fraudes, uma vez que seriam inviáveis economicamente. Em vários casos estava expresso nos documentos que a transação se resumia à transferência de créditos de produtos florestais”, afirma o chefe substituto da Divisão Técnico-Ambiental do Ibama no Maranhão, Eder Carvalho, que coordenou a operação.
Os créditos virtuais, obtidos a partir de declarações falsas no sistema de controle, acobertavam a venda de carvão ilegal. Os infratores também simulavam supressões de vegetação para gerar saldo de madeira no sistema sem que o corte fosse realizado em campo.
O carvão ilegal representa cerca de 30% do total nativo vendido para uma siderúrgica de Açailândia (MA) em 2015. Esse percentual aumentou para 40% em 2016 e permaneceu próximo a 10% em 2017 e 2018.
De acordo com o artigo 34 da Lei nº 12.651/2012, indústrias que usam grande quantidade de matéria-prima florestal são obrigadas a adotar Plano de Suprimento Sustentável (PSS).
Com a pressão da demanda por carvão sobre o Cerrado maranhense, associada ao avanço da fronteira agrícola na região, o estado atingiu a segunda posição do ranking entre os que mais desmatam o bioma. Em 2018, o corte raso do Cerrado no Maranhão atingiu 1.472,7 km².
Fonte: IBAMA

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Fragatas-de-trindade: a luta para salvar ave brasileira que não consegue construir ninhos em ilha devastada.


A ilha também abriga outras espécies de fragata, como a fragata-grande (foto)
Elas existem só ali. Na remota ilha de Trindade,a 1,3 mil km da costa do Espírito Santo, as trinta últimas aves da espécie Fregata trinitatis procuram por árvores para se reproduzir.
Conhecidas como fragatas-de-trindade, essas aves marinhas são endêmicas da ilha. Com apenas 30 indivíduos vivos vivendo na natureza, são consideradas criticamente ameaçadas de extinção.
Habituada à vida no mar, a fragata-de-trindade se alimenta de peixes e é capaz de voar grandes distâncias sem pousar em terra firme. Mas ela não consegue se reproduzir sem árvores para fazer seu ninho.
Enquanto procuram um local ideal sob o sol, as aves são observadas pelos cientistas da FURG (Universidade Federal do Rio Grande) e do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), que sabem que, infelizmente, elas não vão encontrar árvores por ali.
A ilha não têm nenhum morador fixo, mas as paradas que os homens fizeram em Trindade há centenas de anos foram suficientes para acabar com a vegetação do local.
Ao longo dos séculos, os navegadores que passaram por ali queimaram parte das árvores e deixaram ratos, cabras e porcos – que não têm predadores naturais na região e acabaram se multiplicando,comendo e destruindo o resto da vegetação. A ilha tem 9,2 km².
A destruição foi tanta, explica a analista ambiental Patrícia Serafini, do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Aves Silvestres, que até o solo se perdeu. Atualmente, a ilha abriga cerca de 130 espécies, entre plantas, peixes, aves, crustáceos e répteis.
Segundo ela, com a destruição da vegetação, as aves terrestres que existiam ali acabaram morrendo por não ter como se alimentar. As espécies terrestres que eram endêmicas à região foram todas extintas.
“As aves marinhas, que se alimentam de peixe, conseguiram sobreviver, mas a falta de árvores ameaça sua reprodução”, explica Serafini.
O grupo de pesquisadores da FURG, do ICMBio e de outras instituições estuda como recompor a vegetação da ilha, mas isso deve levar anos – se depender apenas disso, até a mata nativa estar recuperada, todas as fragatas já terão morrido sem conseguir produzir descendentes. Também participaram do projeto a UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande de Sul), a UFMG (universidade Federal de Minas Gerais), a UFAL (Universidade Federal de Alagoas), o Museu Nacional do Rio e a UnB (Universidade de Brasília).
Reproduzir os animais em cativeiro não é uma opção.
“Não tem como mantê-las em laboratório, elas não sobrevivem e não conseguem se reproduzir em cativeiro”, explica Serafini.
“Ou fazemos a fragata voltar a se reproduzir em seu ambiente natural ou a espécie vai entrar em extinção.”

Ninhos artificiais

A última esperança dos pesquisadores é tentar estimular as fragatas a se reproduzirem com a criação de postes que imitam árvores e têm ninhos artificiais.
Alguns dos ninhos terão também aves empalhadas para estimular as fragatas-de-trindade reais a usá-los
O projeto, criado pelo ICMBio e pelas universidade federais com o apoio da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, desenvolveu ninhos especialmente adaptados para as fragatas-de-trindade. Alguns deles têm até réplicas de aves e sons dos bichos se acasalando – a ideia é estimular a reprodução.
Os ninhos artificiais terão a base de metal e uma plataforma onde as aves podem pousar e trazer seus próprios gravetos. Ele também usarão réplicas – aves taxidermizadas – para tentar atraí-las.
“A ideia é que as aves ouçam os sons, se sintam atraídas, cheguem perto para investigar o que está acontecendo e percebam que podem se reproduzir ali, até que tragam elas mesmas seus gravetinhos”, explica Serafini.
Os pesquisadores testaram vários protótipos feitos de diferentes materiais até chegar no modelo final, que está sendo testado no Rio Grande do Sul antes de ser levado para Trindade.
“Tivemos que encontrar uma estrutura capaz de sustentar uma plataforma e resistir aos fortíssimos ventos da ilha”, afirma a ambientalista.
Os biólogos ainda não sabem se os ninhos cumprirão sua função. Outras iniciativas do tipo já tiveram sucesso no mundo – a bióloga Elizabeth Schreiber fez um trabalho bem sucedido com ninhos artificiais para outras espécies de fragata no Pacífico – mas o projeto em Trindade é a primeira tentativa de fazer isso no Brasil.
“Precisávamos de uma estratégia rápida. Essa pode ser a última chance dessa espécie”, diz Serafini.
Outras espécies, como a noivinha, a fragrata-grande, o atobá-de-pé-vermelho e a petral-de-trindade também serão ajudadas pelo programa.

Recuperar as ilhas

A ideia é manter as espécies vivas enquanto ornitólogos, botânicos e outros cientistas trabalham na recuperação da flora local, com a transposição de mudas para as ilhas.
Os ninhos artificiais estão sendo testados no Rio Grande do Sul antes de serem levados para a ilha de Trindade
Segundo Serafini, as cabras foram retiradas da região em 2005, mas outras espécies invasoras ainda são um desafio – os ratos, por exemplo.
“É preciso analisar o impacto que eles têm, pode ser que estejam comendo as sementes das plantas, por exemplo. Nesse caso teríamos que pensar em como erradicá-los, o que não é uma tarefa fácil”, diz a ambientalista.
O processo é lento. “É preciso analisar o que tem que ser feito, onde a vegetação está conseguindo se recompor. Depois é preciso recompor o solo para que flora possa crescer.”
Se tudo der certo, o trabalho com as aves vai ajudar nisso: as fezes dos animais no chão da ilha ajudam a adubar.
“Queremos recriar um ciclo positivo, em que as aves ajudem a manter as mudas e as novas árvores permitam que haja mais árvores.”
Para uma recuperação total, também é preciso proteger a vida marinha de pesca ilegal ao redor das ilhas – o arquipélago é hoje uma área de proteção ambiental, com a pesca proibida em berçários de animais marinhos.
Fonte: BBC

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Por que um planeta saudável e uma economia saudável andam de mãos dadas.

Em artigo, a chefe da Convenção da ONU sobre Diversidade Biológica, Cristiana Pasca Palmer, ressalta que os ecossistemas naturais oferecem serviços de importante valor para a humanidade, como a polinização feita pelos insetos e animais, associada a mais 75% dos cultivos alimentares do mundo.

Florestas, como a Amazônia, também desempenham um papel crítico na preservação do equilíbrio climático e na absorção de gás carbônico, afirma a dirigente.

Precisamos entender a natureza e a gravidade da crise coletiva que confronta agora a civilização humana se quisermos responder às questões que ela coloca. Se não frearmos e revertermos em breve a nossa atual trajetória descontrolada de mudanças climáticas, degradação ambiental e perda generalizada da biodiversidade, a economia global vai sofrer consequências negativas por conta própria.
Não é “salvar o planeta” que vai matar o crescimento. Ao contrário, a destruição acelerada da natureza vai minar não apenas a economia global, mas poderia eventualmente ameaçar muitas formas de vida na Terra, incluindo a nossa própria espécie.
O consenso científico sobre esse fato é quase universal — e suas implicações econômicas negativas também estão ficando cada vez mais claras. Um paralelo pode ser traçado com uma crise anterior. Durante o auge da Guerra Fria, quando os conselheiros econômicos do presidente Eisenhower foram informá-los sobre o impacto potencial de uma guerra nuclear sobre o dólar dos EUA, dizem que ele teria dito: “Esperem um minuto, rapazes, (caso haja uma guerra nuclear) não estaremos reconstruindo o dólar. Estaremos escavando a terra em busca de minhocas”.
Embora as mudanças climáticas possam parecer que estão ocorrendo num período de tempo mais longo, em escala geológica elas estão acontecendo num piscar de olhos. Por mais importante que seja o crescimento econômico, a dura realidade é que, como Eisenhower, se não impedirmos essa crise, nós provavelmente estaremos preocupados com coisas distintas do crescimento econômico.
A questão fundamental, portanto, é como salvar o planetar e, com ele, a economia, dessa crise de gerações, dados os incentivos extremamente de curto prazo das nossas principais instituições — as corporações e os governos em especial, que funcionam respectivamente à base dos lucros trimestrais e dos resultados das próximas eleições, mas também o público global, que está corretamente preocupado com suas próprias vidas e meios de subsistência.
Como podemos incentivar as lideranças a tomar decisões de longo prazo para o benefício comum da humanidade? Como podemos educar e ativar o público global para entender e fazer parte dessa luta? E como podemos reimaginar a economia, de modo que as oportunidades da transição verde não sejam apenas realizadas, mas distribuídas de maneira mais igual entre as pessoas, em vez de levar a uma desigualdade e instabilidade ampliadas?
Simplificando, como podemos garantir o nosso próprio futuro e o do planeta?
Três caminhos para a ação se destacam:
1) Desenvolver indicadores mais holísticos que expliquem melhor o crescimento econômico, junto com métricas mais amplas sobre o bem-estar humano e ambiental.
2) Incentivar todos os atores na economia a mudar os atuais caminhos de inovação e popularizar as transições ambientais necessárias para os seus principais modelos de negócios.
3) Uma liderança sábia que possa tanto mapear uma nova visão para viver em harmonia com a natureza quanto inspirar um compromisso compartilhado para alcançá-la.
Que o PIB tem falhas como uma medida do bem-estar humano, isso já é amplamente reconhecido por economistas. Muitas dessas falhas estão relacionadas à falta de indicadores ambientais que apontem os benefícios associados da saúde humana, segurança alimentar e hídrica e a economia.
Além disso, ecossistemas saudáveis oferecem serviços que, em muitos casos, têm valor econômico significativo. Por exemplo, mais de três quartos das principais culturas alimentares globais dependem da polinização por insetos ou animais. Entre 5 e 8% da produção agrícola global, com um valor anual de mercado entre 235 e 577 bilhões de dólares, é diretamente atribuível à polinização natural. No entanto, os polinizadores estão sob ameaça, e pode-se esperar que isso leve a perdas econômicas significativas.
Aliás, em alguns casos, o desenvolvimento econômico pode ocorrer em detrimento de atividades econômicas informais, mas valiosas. Por exemplo, o uso comercial das florestas acontece frequentemente em detrimento da coleta de recursos florestais não madeireiros, que variam da lenha até fontes tradicionais de alimentos. Nesses casos, o crescimento econômico resultante, como formalmente mensurado, por exemplo, numa mudança para a extração madeireira, pode não apenas ser socialmente injusto, ter um viés de gênero e ser prejudicial para os povos indígenas e as comunidades locais, como também seria uma ilusão, devido à perda de recursos florestais não madeireiros.
Ademais, o valor total de florestas críticas, como a Bacia Amazônica, deve incluir tanto o seu papel crítico como tanques de carbono quanto na formulação do clima, que torna possível a agricultura e outras produções em lugares distantes.
Também precisamos reconhecer e explorar o vasto potencial para o crescimento econômico que resultará da ecoinovação que, ao mesmo tempo, protege o meio ambiente e avança o bem-estar humano. De acordo com o relatório de 2017 da Comissão de Negócios e Desenvolvimento Sustentável, alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU (ODS) pode liberar 12 trilhões de dólares em oportunidades de mercado em quatro setores econômicos centrais: alimentação e agricultura, cidades, energia e materiais e saúde e bem-estar. Esses setores representam em torno de 60% da economia real — o que aponta, dessa forma, para as oportunidades econômicas significativas que se associam ao desenvolvimento de soluções baseadas na natureza.
O caminho à frente não será fácil ou sem custos. Realizar um novo pacto global para a natureza e o planeta e fazer a transição para uma economia verde vão exigir o abandono de caminhos de desenvolvimento existentes e a criação de alternativas viáveis para a infraestrutura fundamental da sociedade. Isso exigirá uma liderança visionária, a liberação das inovações verdes e a compensação das implicações de curto prazo, especialmente pelos que mais se beneficiaram dos atuais modos de desenvolvimento econômico.
No entanto, esse tipo de transição não é sem precedentes. Assim como a transição da Era Agrícola para a Era Industrial ou da Era Industrial para a Era Digital, o que se exige não é nada menos do que uma reimaginação e uma reconstrução graduais e integrais da sociedade, para satisfazer as necessidades de uma nova era. Que tenhamos a força e a sabedoria para estar à altura desse desafio.
*Publicado originalmente no site do Fórum Econômico Mundial, em 16 de janeiro de 2019.
Fonte: Cristiana Pasca Palmer, secretária-executiva da Convenção da ONU sobre Diversidade Biológica