terça-feira, 28 de maio de 2019

Submarino encontra plástico no ponto mais profundo dos oceanos.

Em uma expedição recordista com submarino, que chegou à maior profundidade já alcançada, um americano encontrou no fundo do mar mais do que uma amostra intocada da natureza – ele se deparou com resíduos plásticos, como sacolas e embalagens de balas.

Victor Vescovo chegou a quase 11km da região mais profunda do oceano – a Fossa das Marianas, no Pacífico.
Ele ficou quatro horas explorando a base da fossa com um submersível, construído para suportar a imensa pressão nestas profundezas. Agora, materiais orgânicos e inorgânicos coletados ali serão estudados em laboratório – para detectar, por exemplo, a possível presença de microplásticos nas criaturas marinhas.
É a terceira vez que os humanos chegam a profundidades extremas do oceano.
O diretor de cinema James Cameron fez um mergulho solo meio século depois, em 2012, em seu submarino verde.
A descida de agora, que chegou a 10.927m abaixo das ondas, é a mais profunda – fazendo de Victor Vescovo o novo recordista.

Aparato de alta tecnologia

Vescovo e sua equipe realizaram cinco mergulhos durante a expedição; equipamentos robotizados também foram usados para fazer prospecção no terreno.
“É quase indescritível o quão empolgados todos nós estamos em conquistar o que acabamos de fazer”, comemorou o americano.
“O submarino e sua nave-mãe, além da talentosa equipe da expedição, levaram a tecnologia marítima a um nível ridiculamente alto ao explorar – rápida e repetidamente – a área mais profunda e difícil do oceano”.
Don Walsh, pioneiro na exploração da Fossa das Marianas, acompanhou a nova conquista. Ele disse à BBC News: “Eu saúdo Victor Vescovo e sua brilhante equipe pela conclusão bem-sucedida de suas explorações históricas da fossa”.
“Há seis décadas, eu e Jacques Piccard fomos os primeiros a visitar o lugar mais profundo dos oceanos.”
“Agora, no inverno da minha vida, foi uma grande honra ter sido convidado pela expedição a um lugar da minha juventude.”
A equipe acredita ter descoberto quatro novas espécies de crustáceos, semelhantes a camarões; e ter avistado um indíviduo da classe echiura, a 7.000m, e um peixe-caracol rosa, a 8.000m.
Eles também descobriram afloramentos rochosos de cores vivas, possivelmente criados por micróbios, e coletaram materiais do fundo do mar.
O impacto da ação humana no planeta também ficou evidente com a descoberta da poluição plástica, algo que outras grandes expedições já haviam constatado antes.
Milhões de toneladas de plástico chegam aos oceanos a cada ano, mas pouco se sabe sobre onde isso acaba.
Os cientistas agora querem fazer testes com os espécimes coletados para ver se eles carregam microplásticos – um estudo recente mostrou que este é um problema amplo, até mesmo para seres que vivem em lugares muito profundos.
A expedição na Fossa das Marianas faz parte de uma maior, intitulada Five Deeps – que tem o objetivo de explorar os pontos mais profundos de cada um dos cinco oceanos do planeta.
A Five Deeps é financiada pelo próprio Vescovo, um investidor que, antes de buscar as profundezas extremas dos mares, já chegou aos picos mais altos dos sete continentes.
Além da Fossa das Marianas, no Pacífico, nos últimos seis meses também foram feitas expedições na Fossa de Porto Rico, no Oceano Atlântico (a 8.376m); na Fossa Sandwich do Sul, no Oceano Austral (7.433 m); e na Fossa de Java, no Oceano Índico (7.192m).
O desafio final será chegar à Fossa de Molloy, no Oceano Ártico, algo programado para agosto de 2019.

Fronteira final

O submersível usado, conhecido também como uma embarcação de apoio a mergulho (DSV, na sigla em inglês), foi construído por uma empresa dos Estados Unidos, a Triton Submarines. O equipamento foi produzido de forma a poder ser usado várias vezes, em diferentes partes do mar.
A embarcação pode levar duas pessoas, portanto, os mergulhos podem ser feitos solo ou em par.
Ela pode suportar a pressão esmagadora no fundo do oceano, equivalente a 50 aviões jumbo empilhados em cima de uma pessoa.
Além de trabalhar sob pressão, o submarino pode operar no escuro e em temperaturas congelantes.
Estas condições também dificultaram as filmagens da equipe da Atlantic Productions para um documentário do Discovery Channel, que mostrará a trajetória da expedição.
Anthony Geffen, diretor criativo da Atlantic Productions, diz que esta foi a filmagem mais complicada que já fez.
“Nossa equipe teve de inaugurar novos sistemas de câmeras e operar a até 10.000m abaixo do nível do mar”, conta.
Depois que a expedição Five Deeps for concluída, o plano é passar o submersível para instituições científicas, cujos pesquisadores continuarão a usá-lo.
Os desafios de explorar o oceano profundo, mesmo com a ajuda de veículos robóticos, fizeram das fossas uma das últimas fronteiras do planeta.
Antes considerado um conjunto de áreas remotas e hostis, o fundo do mar está repleto de vida. Há também evidências crescentes de que ele é um verdadeiro sumidouro de carbono, desempenhando um papel na regulação da química e do clima da Terra.
Fonte: BBC

segunda-feira, 27 de maio de 2019

Imitando as plantas: fotossíntese artificial cria combustível líquido limpo.

Químicos da Universidade de Illinois, nos EUA, conseguiram desenvolver uma nova forma de fotossíntese artificial. Com isso, foram capazes de produzir com sucesso combustíveis usando água, dióxido de carbono e luz. Ao converter dióxido de carbono em moléculas mais complexas, como o propano, essa descoberta deixa a humanidade mais perto do uso de CO2 para armazenar energia solar.

A fotossíntese é um dos processos mais incríveis da vida na Terra. As plantas usam a luz solar para impulsionar reações químicas entre a água e o CO2, criando e armazenando energia solar na forma de glicose de alta densidade energética. No novo estudo, os pesquisadores desenvolveram um processo artificial que usa a mesma porção de luz verde do espectro de luz visível usado pelas plantas durante a fotossíntese natural para converter CO2 e água em combustível, utilizando como catalisadores nanopartículas de ouro ricas em elétrons.
“O objetivo é produzir hidrocarbonetos complexos e liquefeitos a partir do excesso de CO2 e outros recursos sustentáveis, como a luz solar. Os combustíveis líquidos são ideais porque são mais fáceis, seguros e econômicos de transportar do que o gás e, como são feitos de moléculas de cadeia longa, contêm mais ligações – o que significa que eles acumulam energia mais densamente”, explica Prashant Jain, professor de química e co-autor do estudo, em matéria publicada no site da Universidade de Illinois.
Os benefícios de realizar fotossíntese artificial em grande escala seriam enormes, dando-nos uma fonte de energia limpa e auto-sustentável que poderia um dia alimentar nossas casas e carros simplesmente imitando o que plantas e outros organismos fazem naturalmente.
Por causa disso, os cientistas estão procurando uma maneira de aproveitar a energia solar como uma fonte de combustível fotossintética ilimitada, até porque ela também pode fornecer um meio de nos ajudar a reaproveitar o perigoso CO2 atmosférico.

Ouro combustível

A nova pesquisa se baseia em um trabalho anterior liderado por Jain em 2018, no qual o uso de nanopartículas de ouro como um substituto para a clorofila foi estudado. “Os cientistas muitas vezes procuram plantas para obter insights sobre métodos para transformar luz solar, dióxido de carbono e água em combustíveis”, disse Jain na época.
Nesses experimentos, a equipe descobriu que minúsculas partículas esféricas de ouro medindo apenas nanômetros de tamanho poderiam absorver luz verde visível e transferir elétrons e prótons foto-excitados.
Na nova pesquisa, Jain e Sungju Yu, pesquisador de pós-doutorado e autor principal do estudo, usaram os catalisadores metálicos para absorver a luz verde e transferir elétrons e prótons necessários para reações químicas entre o CO2 e a água – preenchendo o papel da clorofila na fotossíntese natural.
Segundo os pesquisadores, as nanopartículas de ouro funcionam particularmente bem como catalisadores porque suas superfícies interagem favoravelmente com as moléculas de CO2, são eficientes em absorver a luz e não se degradam como outros metais. 

Artificial x natural

Existem várias maneiras em que a energia armazenada nas ligações do combustível de hidrocarboneto é liberada. No entanto, o método convencional de combustão acaba produzindo mais CO2 – o que é contraproducente para a noção de colheita e armazenamento de energia solar, afirma Jain.
“Há outros usos potenciais menos convencionais dos hidrocarbonetos criados a partir desse processo. Eles poderiam ser usados ​​para alimentar células de combustível para produzir corrente elétrica e tensão. Existem laboratórios em todo o mundo tentando descobrir como a conversão de hidrocarbonetos em eletricidade pode ser conduzida de forma eficiente”, disse Jain.
Por mais empolgante que o desenvolvimento desse combustível de CO2 para líquido possa ser para a tecnologia de energia verde, os pesquisadores reconhecem que o processo de fotossíntese artificial de Jain está longe de ser tão eficiente quanto é nas plantas. “Precisamos aprender a ajustar o catalisador para aumentar a eficiência das reações químicas. Então, podemos começar o trabalho duro de determinar como ampliar o processo. E, como qualquer tecnologia de energia não convencional, haverá muitas questões de viabilidade econômica a serem respondidas também”. [Science AlertUniversidade de Illinois]
Fonte: Hypescience

sábado, 25 de maio de 2019

O cientista que percorre milhares de quilômetros para salvar uma das águias mais misteriosas da América do Sul.

Um encontro com uma águia morta mudou a vida do cientista argentino José Sarasola. Ele havia acabado de se formar na universidade e começava seus trabalhos de conservação ambiental na província de La Pampa, no centro do país, quando viu a ave caída perto de uma cerca.
“Era uma águia-cinzenta jovem que havia sido abatida com arma de fogo, e foi meu primeiro encontro com uma destas aves”, relata.
“Ela foi propositalmente colocada ali, porque existe uma crença, não só nesta região mas também na Patagônia, e em relação a outras espécies consideradas prejudiciais para o gado, como raposas e pumas, que expor os indivíduos abatidos dessa maneira mantém outros animais longe.”
O pesquisador diz que o encontro foi marcante para seu futuro na conservação ambiental. Sarasola decidiu a partir dali se dedicar a proteger a água-cinzenta (Buteogallus coronatus), uma das mais ameaçadas de extinção na América do Sul.
Em sua missão de protegê-la, Sarasola desafia crenças e percorre milhares de quilômetros para levar sua mensagem aos povoados locais e escolas remotas.
E seu trabalho lhe rendeu neste mês um dos maiores reconhecimentos na área, o prêmio Whitney, entregue anualmente pela fundação de mesmo nome sediada na Inglaterra.

Espécie era quase desconhecida

A águia-cinzenta pode ser encontrada no Sul do Brasil, no Paraguai, na Bolívia e na Argentina, até o norte da Patagônia.
A União Internacional pela Conservação da Natureza, uma organização sediada na Suíça, diz que a espécie corre risco de extinção e estima sua populção global em menos mil indivíduos reprodutores.
Estas águias vivem principalmente em habitats áridos ou semiáridos formados por arbustos, pastagens e bosques, onde se alimenta dos animais que vivem nestes locais, principalmente tatus e serpentes, explica Sarasola.
O cientista fundou em 2001 o Centro de Estudo e Conservação das Aves de Rapina da Argentina (Cecara) na Universidade Nacional de La Pampa, por meio do qual começou a estudar a ecologia da águia-cinzenta.
“A espécie era quase desconhecida, não só para a população local, mas também para a ciência, já que o último registro de aninhamento havia sido feito há mais de 25 anos no noroeste argentino”, destaca Sarasola.

Águias eram perseguidas e morriam afogadas e eletrocutadas

A primeira ameaça identificada pelo Cecara foi a perseguição de águias por humanos pela crença de que “comem as ovelhas”. Sarasola também registrou casos de águias que morreram afogadas acidentalmente nos reservatórios de água para gado nestas regiões secas.
Outro grande perigo foi identificado quando o biólogo colaborou com o Centro de Biologia e Conservação do Estado de Virginia, nos Estados Unidos, para colocar rastreadores por satélite nas aves.
“Descobrimos que elas morriam eletrocutadas nos fios elétricos. É um problema que afeta especialmente as grandes aves, como as águias, porque ocorre quando o animal faz contato com dois cabos condutores ao mesmo tempo, algo que só aves maiores conseguem fazer ao voar a partir ou para os postes que sustentam a fiação”, diz Sarasola.

Rampas e pontes

Para evitar os afogamentos, Sarasola e seus colegas criaram o que chamam de “rampas de resgate”, uma estrutura feita com uma tela de arame para ligar a borda do tanque ao fundo. Assim, os pássaros e outros animais selvagens conseguem sair dos reservatórios e podem beber água com segurança.
Isso fez a mortalidade da fauna silvestre nos tanques equipados com rampas cair pela metade, e nenhuma águia-cinzenta foi encontrada afogada em um deles.
Quanto às mortes por eletrocutamento, o monitoramento das linhas de energia permitiu detectar os postes mais perigosos que, apesar de serem apenas 1% do total na área, eram responsáveis por quase 20% das mortes das aves.
“A característica que os torna tão perigosos é que são construídos em concreto (que são condutores de eletricidade por serem construídos com aço por dentro) e têm uma alça do cabo elétrico acima deles. As aves podem ser eletrocutadas ao estar empoleiradas no poste e, ao mesmo tempo, tocar na alça suspensa.”
De acordo com Sarasola, a solução foi simplesmente colocar essas alças abaixo do topo do pilar.

Mudando crenças

Para combater a perseguição das águias pelos moradores locais, os cientistas monitoraram e filmaram as presas das águias. “Analisamos mais de 600 presas e nenhuma delas era de gado doméstico, então, o motivo do conflito não era real.”
Os biólogos mostraram as filmagens e fotos de águias levando para seus ninhos presas de espécies silvestres como tatus, roedores e serpentes.
E explicaram a importância destas aves como predadores no topo da cadeia alimentar daquele ecossistema, ao se alimentarem de um grande número de serpentes venenosas e cobras.
Hoje, o conhecimento da espécie é muito maior. “Um exemplo disso é que, em dezembro de 2016, um artista local fez uma escultura de uma águia que logo foi colocada na praça principal da cidade de Santa Rosa, capital da província de La Pampa”, diz o cientista.

A águia que chora

Sarasola percorreu milhares de quilômetros no oeste dos pampas argentino, uma zona árida de pouca densidade populacional, para levar sua mensagem às crianças. Os biólogos foram a escolas rurais para apresentar um documentário feito por Sarasola com o jornalista Matías Sapegno.
O filme A Águia que Chora conta a história verídica de um adolescente da região que descobre a espécie e seu ninho e participa com pesquisadores do estudo e monitoramento de uma águia-cinzenta jovem.
As crianças e suas famílias têm sido fundamentais nestes esforços, porque têm informações importantes sobre a localização dos ninhos e casais de águias. “É impossível reunir essas informações por conta própria em uma região tão vasta”, diz Sarasola.
As escolas visitadas pelos cientistas ficam em locais muito remotos e distantes de centros urbanos. Os alunos vivem nas escolas e voltam para suas casas a cada 15 ou 20 dias.
“Perguntamos nas conversas se eles conhecem alguma espécie que corre risco de extinção, e as referências deles são de outras espécies emblemáticas e conhecidas mundialmente, mas não vinculadas à sua realidade, como tigres e pandas”, diz Sarasola.
“O que primeiro chama sua atenção é saber que vivem muito próximo de uma espécie nesta condição e que podem observá-la, com um pouco de sorte, no próprio pátio da escola ou em suas casas.”
Fonte: BBC

sexta-feira, 24 de maio de 2019

Restos de passarinhos são encontrados nos estômagos de tubarões.

O biólogo Marcus Drymon estudava tubarões-tigre (Galeocerdo cuvier) com sua equipe quando presenciou um desses animais vomitando penas.

“Nós o trouxemos para o barco para o medirmos, classificarmos e depois libertá-lo, mas depois ele regurgitou uma grande massa de penas”, relatou ao canal National Geographic, Drymon, que é pesquisador na Universidade Estadual do Mississippi.
Os biólogos levaram o vômito ao laboratório e análises de DNA permitiram descobrir que as penas regurgitadas pelo tubarão não eram de uma ave oceânica, mas de um pássaro triturador marrom (Toxostoma rufum).
Durante oito anos, os cientistas examinaram os materiais estomacais de 105 tubarões-tigres, e encontraram 41 pássaros mal digeridos, de 11 espécies da América do Norte. Entre elas, a  andorinha-das-chaminés e pardais. 
Foi feita uma técnica chamada “análise do código de barras do DNA”, na qual foram estudadas seções dos genomas para identificar as espécies. Os cientistas também fizeram uma “lavagem estomacal” em alguns turabões mais novos, através do uso de um cano de PVC.
Na tentativa de catalogar o que estava no vômito, os pesquisadores notaram que alguns dos restos estavam muito digeridos para que pudessem ser identificados, mas cerca da metade deles proveu DNA suficiente para apontar a espécie das aves.
De acordo com os cientistas, tubarões conseguem abocanhar essas presas quando elas são jogadas nos oceanos pela força dos ventos durante tempestades durante épocas migratórias.
“Mas o que faz a nossa situação ainda mais interessante é que a vasta maioria desses indivíduos são tubarões recém-nascidos”, apontou Drymon. Para os cientistas é ainda possível que as mães dos tubarões criem seus filhotes no Golfo do México justamente para aproveitar as oportunidades de alimento que ocorrem durante as migrações.
Fonte: Revista Galileu

Cidades latino-americanas criam aliança para melhorar gestão de recursos hídricos.

Mais de 100 representantes de megacidades latino-americanas, de empresas de água e saneamento e de universidades reuniram-se em São Paulo (SP) nesta semana (7 e 8) em evento organizado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) para discutir desafios e soluções relacionados à gestão da água diante das mudanças climáticas. O encontro também debateu a criação de uma Aliança Regional de Megacidades para a Água e o Clima.

Os representantes das cidades concordaram que mesmo tendo características específicas, as soluções para garantir segurança hídrica nas megacidades podem ser compartilhadas. Participaram da conferência representantes de Bogotá, Buenos Aires, Cidade do México, Rio de Janeiro, São Paulo, Lima e Santiago.

Mais de 100 representantes de megacidades latino-americanas, de empresas de água e saneamento e de universidades reuniram-se em São Paulo (SP) nesta semana (7 e 8) em evento organizado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) para discutir desafios e soluções relacionados à gestão da água diante das mudanças climáticas.
O encontro também debateu a criação de uma Aliança Regional de Megacidades para a Água e o Clima. Participaram da conferência representantes de Bogotá, Buenos Aires, Cidade do México, Rio de Janeiro, São Paulo, Lima e Santiago.
“Estamos aqui hoje para criar uma plataforma de cooperação entre as megacidades para que elas encontrem juntas as soluções para a gestão dos recursos hídricos, que já se tornam escassos em grande parte delas, e para a mudança climática, que deixa o cenário ainda mais desafiador”, disse o especialista do Programa Hidrológico Internacional da UNESCO, Alexandros Makarigakis.
“A ideia é que as megacidades descubram o poder que têm para resolver seus problemas em relação à sua mais básica segurança hídrica”, completou.
O presidente do Sindicato Interdepartamental de Saneamento da Região Metropolitana de Paris (SIAAP, na sigla em francês), Joakim Giacomoni-Vincent, alertou que todos os países têm os mesmos problemas no que se refere às mudanças climáticas. “Há dez anos, estávamos falando sobre isso como um problema futuro, e agora estamos tendo que resolvê-lo”.
No primeiro dia de evento, participantes discutiram os desafios atuais e futuros da mudança climática que impactam a segurança hídrica na região da América Latina e Caribe, os riscos para suas atividades econômicas e estabilidade social, e as possíveis soluções para essas questões. As megacidades participantes apresentaram seus sistemas de água e saneamento, desafios atuais, questões emergentes e formas de planejar e gerir a água no futuro.
Na opinião do diretor da Associação de Pesquisa e Governos Locais sobre Água (ARCEAU Île-de-France), Jean-Claude Deutsch, para além das características de cada megacidade, existem alguns pontos macros em comum, e a preocupação com os recursos hídricos é um deles.
Os representantes das cidades concordaram que mesmo tendo características específicas, as soluções para garantir segurança hídrica nas megacidades podem ser compartilhadas. Em São Paulo, por exemplo, por estar longe do mar, de lagos e de rios caudalosos, “a cidade acaba se tornando um grande laboratório de ideias para fornecer água segura para a população”, explicou o secretário executivo de Relações Internacionais do município, Luiz Álvaro.
O diretor de regulação da ANA, Oscar Cordeiro Netto, disse acreditar que “a distribuição dos recursos hídricos é um desafio em todo o Brasil, pois apesar de termos abundância de água doce, grande parte da população está onde a água não está”. Para ele, esse fato ainda pode se agravar e gerar conflitos, pois “a demanda por água deve aumentar 30% nos próximos 20 anos no país”.
No segundo dia, um grupo restrito de especialistas conheceu melhor o funcionamento da Aliança de Megacidades para a Água e o Clima (MAWAC, na sigla em inglês) e discutiu o Termo de Referência para uma aliança regional na América Latina e Caribe.
Eles concordaram com a criação desta aliança e a ideia de que, daqui para frente, ela deve melhorar a Cooperação Sul-Sul entre as megacidades latino-americanas e caribenhas, nos campos relacionados a pesquisa, soluções técnicas, educação, informação e políticas públicas relacionadas à gestão hídrica.
Para o presidente da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (SABESP), Benedito Braga, os grandes impactos das mudanças climáticas se fazem sentir no setor dos recursos hídricos. “Seja pelas enchentes mais intensas e frequentes, seja pelas secas mais prolongadas e frequentes. A agenda da adaptação é fundamental e, nesse contexto, uma aliança para tratar do tema mudanças climáticas e água é extremamente importante”.
“Soluções criativas e inovadoras, capazes de aglutinar meios e recursos para melhorar a vida nas megacidades devem estar nas nossas mesas de discussão. A aliança das megacidades se torna uma solução inteligente de ajuste da gestão hídrica aos cenários das mudanças climáticas”, disse o secretário executivo do Comitê Gestor dos Serviços de Água e Esgoto da Capital Paulista, Marco Palermo.
O secretário-executivo da organização Governos Locais para a Sustentabilidade (ICLEI), Rodrigo de Oliveira Perpétuo, complementou dizendo que “a cooperação multinível e multi-atores é o caminho para o fortalecimento de uma aliança regional para a gestão das águas nas megacidades”.
O evento foi realizado pela Sede da UNESCO, pelo Escritório Regional da UNESCO para Ciências na América Latina e Caribe (UNESCO em Montevidéu) e pelo Escritório da UNESCO no Brasil, no âmbito do Programa Hidrológico Internacional da UNESCO (IHP, na sigla em inglês). O encontro também serviu de preparação para a Conferência Internacional da MAWAC (EauMega 2020), que acontecerá na Sede da UNESCO, em Paris (França), no próximo ano.
Fonte: ONU

sábado, 11 de maio de 2019

Austrália gastará milhões para salvar Grande Barreira de Corais.

O governo da Austrália planeja investir 500 milhões de dólares australianos – o equivalente a 312 milhões de euros ou 1,3 bilhão de reais – para recuperar e proteger a Grande Barreira de Corais, localizada na costa do país e considerada o maior ecossistema de corais do mundo.

O anúncio foi feito neste domingo (29/04) pelo ministro australiano do Meio Ambiente, Josh Frydenberg. Em entrevista à emissora local ABC, o político afirmou que se trata do “maior investimento individual em restauração e gestão da história da Austrália”.
Segundo Frydenberg, o montante será gasto para melhorar a qualidade da água, combater uma espécie de estrela-do-mar conhecida como coroa-de-espinhos, que se alimenta de corais, e ajudar a desenvolver novas espécies de corais mais resistentes a temperaturas mais quentes.
A Grande Barreira de Corais, declarada Patrimônio Natural da Humanidade pela Unesco em 1981, é a maior estrutura viva da Terra, com 2.300 quilômetros de extensão, ultrapassando o tamanho da Itália. O recife abriga mais da metade das espécies de corais conhecidas.
A maior estrutura viva do mundo vista do espaço
Ao lado de mais de 1,5 mil espécies de peixes e 4 mil de moluscos, encontram-se animais ameaçados de extinção, como o mamífero dugongo e a grande tartaruga-verde marinha.
A Grande Barreira está gravemente ameaçada. Em anos recentes, o recife tem sofrido com um efeito conhecido como branqueamento, causado principalmente pelas mudanças climáticas. O aumento da temperatura da água, bem como a acidificação do oceano, causou danos catastróficos aos corais.
Um estudo publicado na revista científica Nature no início do mês mostrou que o ecossistema perdeu quase um terço de seus corais durante um período de apenas nove meses em 2016, após uma extensa onda de calor.
Os corais australianos também foram afetados por uma epidemia da estrela-do-mar coroa-de-espinhos. A espécie é um predador natural de corais e vem causando danos enormes a esses animais nas últimas décadas.
O investimento antecipado neste domingo faz parte de um orçamento que deve ser revelado pelo governo da Austrália ao longo da próxima semana. Uma parte das despesas será usada para convencer os agricultores a reduzirem a quantidade de substâncias nocivas, como sedimentos e pesticidas, que acabam fluindo para a Grande Barreira, afirmou Frydenberg.
Segundo o ministro do Meio Ambiente, o recife é responsável por cerca de 64 mil empregos, tem um valor de mais de 6 bilhões de dólares australianos à economia do país e atrai mais de 2 milhões de visitantes por ano.
“É um ícone natural nacional e internacional, e é por isso que estamos tão determinados em salvá-lo e preservá-lo para as gerações futuras”, concluiu o político.
Fonte: Deutsche Welle

A luta solitária de uma jovem para salvar corais no Caribe.

Yassandra Marcela Barrios Castro conversa com um pequeno grupo de pescadores no litoral de Tierra Bomba, uma ilha próxima à costa de Cartagena, no norte da Colômbia. É a única mulher do grupo – e os homens, todos com idade semelhante à de seu pai, gesticulam freneticamente para ela. Mas a jovem de 19 anos permanece calma enquanto explica o quão destrutiva é a pesca com explosivos que eles praticam – tanto para os corais quanto para os habitantes da área.

Os pescadores de Tierra Bomba usam dinamite para pescar há décadas – e é difícil para eles ouvir que estão agindo de maneira errada. Especialmente quando a crítica vem de uma adolescente.
“É muito fácil os homens me desvalorizarem por eu ser uma menina”, diz Yassandra. “E a idade é algo que é respeitado por aqui. Portanto, para uma jovem mulher se levantar e dizer que uma antiga tradição é errada e que está destruindo o oceano… não é tarefa fácil”, diz.
Yassandra vive em Boca Chica, no litoral sul de Tierra Bomba. A ilha é rodeada de recifes de coral, e seus nove mil habitantes dependem maciçamente do oceano para se alimentar. Mas a pesca com explosivos e a de arrasto estão destruindo os ecossistemas que são fonte de renda para a comunidade.
“Há muita gente que não tem consciência das consequências de suas ações”, explica Yassandra. “Eles estão destruindo o oceano, e eu me preocupo que isso seja para sempre”, acrescenta.
Muitos dos habitantes da ilha lutam para sobreviver, e há poucas oportunidades para de educação. A bióloga Valéria Pizarro diz que isso dificulta o engajamento da população em questões ambientais. “As pessoas aqui têm problemas mais urgentes”, alerta Pizarro, que estuda os recifes caribenhos colombianos há décadas.
Isso faz com que Yassandra, que estuda Biologia Marinha na Universidade Sinu, em Cartagena, seja uma exceção. “Quero saber o que está acontecendo nos oceanos de forma mais profunda”, afirma. “O curso me dá uma perspectiva diferente.”
Yassandra também é a única mulher em seu programa de estudos e viaja durante duas horas de barco, todos os dias, para frequentar as aulas. Ela quer dividir o que aprende com aqueles que não tiveram a oportunidade de ter uma educação formal. Assim, organiza discussões na comunidade para fazer com que os habitantes locais se informem sobre as ameaças ambientais que enfrentam.
“Estou tentando explicar que, se protegermos os recifes e o nosso oceano, mais pessoas virão para vê-lo, e isso pode trazer algum dinheiro para a nossa ilha”, raciocina. “E também, se destruirmos completamente os recifes, não teremos nada para pescar”, conclui.
Sorridente e cheia de energia, Yassandra parece ter o dom de convencer pessoas. O que é bom, diante da cultura que enfrenta. Pizarro diz que as mulheres da região se acostumam a ser ignoradas, interrompidas e ver os homens levarem os créditos por suas ideias.
“Se você quiser falar, ser ouvida e promover mudanças, precisa ter personalidade forte e ser capaz de lidar com fofocas, além de ser chamada de ‘histérica'”, diz a bióloga. “Você tem que ser capaz de falar alto, e ter coragem o suficiente para interromper.”
Os assuntos levantados por Yassandra também tocam no ponto da função e do orgulho masculinos: trazer para casa uma renda razoável para sustentar suas famílias. É ótimo informar as pessoas que seu trabalho tem consequências para o meio ambiente, mas Pizarro admite que “mudar é muito difícil quando você é pobre”.
“Sempre é difícil ‘exigir’ uma mudança de pessoas que estão vivendo um dia após o outro”, acrescenta a bióloga. “Sei que a sobrepesca é um problema para qualquer ecossistema marinho, mas como posso pedir a alguém que não tem dinheiro para sustentar a família que pare de pescar?”
O maior desafio, nesse caso, é oferecer alternativas. E há projetos locais tentando fazer exatamente isso. Um deles é uma escola de mergulho da qual Yassandra é aluna.
Da pesca ao turismo
A escola de mergulho Paraiso Dive Cartagena, em Tierra Bomba, está ensinando jovens da ilha a mergulhar. A esperança é que, no futuro, sejam capazes de sobreviver como instrutores de mergulho e guias, em vez de pescadores.
A Colômbia tem cerca de 2.900 quilômetros de litoral. As águas caribenhas e do Oceano Pacífico abrigam 2.600 espécies marinhas, incluindo 155 corais e seis das sete espécies de tartarugas marinhas do mundo. Tudo isso atrai turistas, mas a maioria dos instrutores de mergulhos e guias turísticos não são locais – e essa é uma realidade que a Paraiso Dive quer mudar.
A escola de mergulho também ensina sobre conservação ambiental. Pesquisadores vêm do mundo todo e, com frequência, iniciam projetos de monitoramento dos recifes e corais. Quando voltam para casa, podem empregar habitantes do local para continuar o trabalho de campo, graças ao treinamento.
Christina Kuntz, uma das donas da escola, diz que quer oferecer a jovens uma forma de ganhar dinheiro com os recifes sem destruí-los. “Quando você está tentando dissuadir pessoas de pescar demais, é realmente importante oferecer uma alternativa economicamente viável”, diz.
Mas, novamente, é mais difícil para estudantes mulheres do que para os homens. “As mulheres aqui precisam lidar com um machismo enraizado”, avalia a instrutora. “Espera-se que elas apenas fiquem em casa e que não obtenham as mesmas chances que os homens”, constata.
Yassandra é uma entre quatro mulheres alunas do curso de mergulho. “Para elas, é muito importante ser capaz de dizer ‘sei mergulhar e sei como todo esse equipamento funciona'”, explica Kuntz.
Nova geração exige mudanças
Tanto no trabalho quanto no ativismo, só haverá progresso quando mulheres como Yassandra assumirem novos papéis e conseguirem fazer com que suas vozes sejam ouvidas.
“Yassandra é importante para as mulheres, para afro-colombianas, para as comunidades insulares, para biólogos marinhos e para mergulhadores”, diz Kuntz.
Ela também é importante para o meio ambiente que tenta proteger e que está sendo pressionado pelas mudanças climáticas e pela sobrepesca. A cobertura de corais dos recifes do Caribe diminuiu de uma média de 50% para apenas cerca de 10%.
“A degradação dos recifes de corais e as mudanças climáticas em geral vão afetar comunidades insulares como Boca Chica primeiro, então, pessoas como Yassandra são fundamentais para proteger essas comunidades e os ecossistemas dos quais elas dependem”, diz Kuntz.
Uma vez qualificada, Yassandra será a única bióloga marinha na ilha. “Faço parte de uma nova geração que quer proteger minha ilha”, afirma Yassandra. “Se eu conseguir encontrar uma forma de unir as pessoas para proteger nossos recifes, nossa ilha terá um brilhante futuro”, prevê.
Fonte: Deutsche Welle