quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Por dentro da difícil missão de combate à extração ilegal de madeira na Amazônia.

Em 4 de julho, em uma estrada de terra vicinal a sudoeste do estado de Rondônia, perto de Espigão d’Oeste, um polo de exploração madeireira, criminosos desconhecidos pararam um caminhão-tanque, expulsaram o motorista da cabine e atearam fogo no veículo. O caminhão transportava combustível para abastecer os helicópteros do governo que apoiavam uma operação contra madeireiras ilegais. Temendo novos ataques, os agentes do Ibama suspenderam a ação e abandonaram a região.
O fogo não se espalhou além das cinzas dos escombros deixados para trás naquela estrada em meio à floresta equatorial. Comparado aos incêndios florestais em Rondônia e em toda a Amazônia, que despertaram protestos pelo mundo, um mero caminhão em chamas pode parecer insignificante.
Mas, ainda assim, trata-se de um retrato da batalha atualmente travada na maior floresta tropical do mundo – uma batalha em que o principal órgão responsável por proteger a floresta está cada vez mais acuado.
Nos últimos 30 anos, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), esteve à frente na árdua luta contra a destruição da Amazônia. Seus agentes expulsaram de territórios indígenas criminosos garimpeiros e madeireiros. Seus fiscais descobriram elaborados esquemas de fraudes cujo objetivo era derrubar a mata e se apropriar de terras públicas para a produção agropecuária. Eles fecharam o cerco a cartéis de tráfico de animais selvagens em extinção e aplicaram multas pesadas a poderosos que buscavam lucros com as riquezas da Amazônia.
Contudo, com a aceleração do ritmo de destruição da floresta equatorial neste ano – até julho, houve um aumento de 60% comparado a 2018, segundo dados do Inpe – o Ibama enfrenta hoje mais do que a ira de seus tradicionais inimigos. Ele também está sendo confrontado pelo novo presidente, Jair Bolsonaro, que chamou de “mentirosos” os dados dos satélite – e que não guarda segredo sobre seus planos para reverter proteções ambientais e abrir a Amazônia para a exploração madeireira, mineração e agropecuária em escala industrial.
Bolsonaro reprova as práticas consagradas adotadas pelo Ibama de aplicação de multas pesadas para infrações ambientais, apelidando-as de “indústria das multas”. Ele cobrou que agentes de campo parassem de destruir os tratores e escavadeiras de madeireiros ilegais em regiões remotas da mata – medida que os fiscais alegam ser raramente empregada e, ainda assim, apenas para impedir que os desmatadores retomem as atividades ilícitas. Em fevereiro, Ricardo Salles, o ministro do Meio Ambiente de Bolsonaro, demitiu 21 dos 27 superintendentes estaduais do Ibama. Muitos desses cargos permanecem vagos.
Foi nesse contexto que eu e o fotógrafo Felippe Fittipaldi nos juntamos ao Ibama em meados de julho no lançamento de uma grande operação de resposta ao ataque ao caminhão de combustível. A emboscada tinha ocorrido em um pequeno distrito fronteiriço chamado Boa Vista de Pacarana, ao norte do município em expansão de Espigão d’Oeste. Rondônia é um estado da Amazônia famoso pelos conflitos de terras e desmatamento desenfreado. Servidores do Ibama afirmam que a indústria madeireira de Espigão é sustentada majoritariamente pelo comércio ilegal de madeiras de lei extraídas de territórios indígenas. O plano era que cerca de 35 fiscais do órgão – apoiados por uma equipe de proteção em helicópteros, mais de 50 policiais fortemente armados e quase 100 soldados do exército – surpreendessem em flagrante operações ilegais de extração de madeira e serrarias.
No entanto, ao deixar Porto Velho, a capital do estado, conforme nosso comboio de SUVs, viaturas policiais e caminhões militares avançava pelo estado, um dos agentes ouviu nas redes sociais uma entrevista com o chefe da associação dos madeireiros de Espigão – o homem falava justamente sobre a iminente operação do Ibama. O ministro Salles viria de Brasília a Espigão no dia seguinte, disse o madeireiro. Ele pedia que os munícipes viessem cumprimentar o ministro, que, segundo ele, daria ouvidos às preocupações da categoria.
Não restou dúvidas de que a indústria madeireira tinha sido alertada sobre a operação.
“Como sabem que estamos indo, vão retirar todos da floresta. Encontraremos o crime, mas não os criminosos”, resmungou um sargento da polícia em nosso comboio.

A operação contina

Na manhã seguinte, Salles não decepcionou as várias centenas de apoiadores que se reuniram do lado de fora da prefeitura de Espigão.
“O que acontece hoje no Brasil, infelizmente, é o resultado de anos e anos e anos de uma política pública de produção de leis, regras e regulamentos que nem sempre guardam relação com o mundo real”, disse ele. Era uma referência ao regime de supervisão que norteava a política ambiental brasileira durante as três últimas décadas – e que contribuía para um forte declínio no desmatamento, ao menos até poucos anos atrás.
Os comandantes de campo do Ibama encarregados da batida prestes a iniciar não se deixaram abalar pelas observações de Salles.
“Não recebemos nenhuma ordem direta dele para interromper nenhuma operação. Faremos tudo que for necessário para desempenhar nosso trabalho”, contou Givanildo dos Santos Lima, coordenador geral da operação.
Lima, 46, é um homem esquio com uma semelhança impressionante com o ex-presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. Agente de campo veterano com quase 15 anos de experiência na mata, ele é admirado pelos colegas por ser um fiscal astuto e corajoso. Ele é criticado na mesma medida pelos defensores de interesses comerciais contrários a suas atividades de fiscalização. Já foi alvo de inúmeras ameaças, geralmente disseminadas pelas redes sociais. Há lugares para onde  ele não vai sem escolta policial.
Após o discurso de Salles, nosso comboio avançou por propriedades rurais com vegetação escassa de Espigão a Boa Vista de Pacarana, um distrito fronteiriço com mil habitantes que vivem em pequenas casas de alvenaria ao longo de uma rede de estradas de terra cheias de buracos. Pacarana possui um único posto de gasolina, algumas lojas, um bar ao ar livre, uma igreja católica e vários templos evangélicos. É contornado, em três fronteiras, por territórios indígenas, onde pastos escaldantes fazem divisa com grandes paredões verdes de mata.
A extração comercial de madeira é expressamente proibida em terras indígenas no Brasil. Entretanto, a exploração madeireira é a força vital da economia de Pacarana. Os agentes afirmam que o labirinto de estradas de terra do distrito se transformou nas artérias de um comércio ilícito de madeira que alimenta as serrarias de Pacarana.
Uma escola de ensino fundamental vazia por estar em período de férias serviu de centro de comando e alojamento para a operação. Tropas e oficiais montaram barracas e cabanas nas salas de aulas e no pátio. Comboios partiam da escola, a cada manhã, rumo à meia dúzia de serrarias situadas fora da cidade, escondidas atrás de grandes paredes de tábuas.
Em uma manhã, um grupo de sete veículos 4×4 verdes e brancos do Ibama e uma escolta de picapes policiais contornaram pilhas de enormes troncos de árvores alinhados na borda de um imenso depósito. Estacionaram em frente a um grande galpão desgastado. Espessas nuvens de poeira encobriam a ofuscante luz solar quando os agentes saíram de seus veículos.
O galpão estava deserto e assustadoramente silencioso. Sob seu telhado de latão corrugado, a equipe encontrou um conjunto de fresas novas recém-tiradas da embalagem, ao lado de um emaranhado aleatório de fios expostos, latas de óleo descartadas e amontoados de serragem. Sob os rangidos das tábuas do assoalho, os fiscais, com coletes à prova de balas, fizeram um inventário das esteiras transportadoras, compressores e lâminas de serras de fita.
Do lado de fora no pátio, Lima parou para examinar uma pilha de troncos de árvores ainda não serrados. Muitos tinham mais de um metro de diâmetro. Algumas das toras eram vermelho-escuras, outras, amarelo-ouro. Gotas de seiva pingavam das extremidades, soltando um cheiro doce e forte.
“Aqui tem angelim, ipê, maçaranduba”, disse Lima, recitando os nomes das nobres madeiras de lei, algumas das quais são as mais valiosas da Amazônia.
“O único lugar da região em que ainda existe madeira desse tamanho e qualidade é dentro das terras indígenas”, explicou. Em sua análise, quase toda a madeira era ilegal.

Gato e rato

Nos dias seguintes, quando acompanhei os fiscais por helicóptero em áreas indígenas e por terra nas serrarias de Pacarana, ficou claro que o Ibama estava preso a um jogo de gato e rato com um inimigo bastante organizado e engenhoso. “Eles monitoram nossa movimentação. Sabem onde estão nossas equipes”, contou Lima.
Espiões informam o paradeiro de agentes de campo às equipes madeireiras por rádio. “Quando uma equipe vai a Pacarana, por exemplo, os madeireiros que operam dentro da terra indígena deslocam os caminhões e tratores e os escondem”, explicou Lima.
As madeireiras utilizam tinta de camuflagem e folhagem para esconder os equipamentos; abrem trilhas estreitas sob as copas da floresta até alcançar as árvores valiosas, confundindo o monitoramento aéreo. Geralmente transportam as toras para as serrarias durante a noite. Intermediários inescrupulosos subornam burocratas para emitir documentos e forjar a origem da madeira em florestas licenciadas com manejo sustentável, o que permite que as madeireiras levem a madeira ilegal ao mercado com uma aparência de legitimidade.
“A complexidade desta estrutura e o enorme volume de recursos necessários para concretizar a atividade criminosa nos leva a afirmar que esta é uma atividade do crime organizado. Este esquema foi muito bem montado. É uma verdadeira máfia”, contou Daniel Lobo, procurador da República lotado em Porto Velho.
Lobo afirma que só recentemente o Ministério Público e os investigadores de polícia passaram a compreender a natureza conspiratória desses crimes e a processá-los apropriadamente. “Não são crimes isolados com um único culpado. É uma organização com comando e controle.”
As madeireiras de Espigão se enfurecem com a menor sugestão de ilegalidade de suas operações. “Como em qualquer lugar, pode haver algumas empresas que atuam na clandestinidade”, afirmou Cleodimar Balbinot, advogado da indústria madeireira que apareceu para confrontar Lima em uma serraria, enquanto os agentes anotavam uma série de violações. Mas seus clientes eram operadores legítimos, insistiu ele, escolhidos injustamente para saciar a sede de vingança do Ibama pelo ataque ao caminhão-tanque.
Durante a operação testemunhada por mim, quase 6 mil mde madeira ilegal foram apreendidos, segundo o Ibama. Os fiscais encontraram “irregularidades” em 20 serrarias e emitiram multas no total de R$ 4 milhões. Três serrarias foram lacradas definitivamente.

Caminho para o desmatamento

A extração ilegal e seletiva de madeira não é a principal causa do desmatamento– ou seja, o corte raso — muito menos os incêndios devastadores que alarmaram o mundo todo. Mas a extração madeireira seletiva permite que mais luz solar alcance o chão da floresta, secando-o e tornando-o mais propenso a incêndios. Investigadores afirmam que, normalmente, esse é o primeiro passo para uma empreitada criminosa ainda maior que envolve o corte raso em grandes áreas: a apropriação de terras públicas para a venda de loteamentos ou produção agropecuária.
“A destruição da floresta é o paradigma da grilagem”, afirmou o procurador Lobo. “É uma tentativa de invadir e ocupar terras públicas, algo muito comum na Amazônia.” Assim como a exploração madeireira ilegal, o crime implica uma grande rede que oculta os principais arquitetos da empreitada. “Os grileiros tomam a terra com a expectativa de que o roubo seja legalizado”, contou Lobo, em parte, com a compra e venda de falsos documentos de propriedade com o objetivo de ocultar suas atividades.
Em toda a Amazônia, as estradas utilizadas pela exploração madeireira abrem caminho para penetrar na floresta intocada. “É geralmente a extração da madeira que financia o desmatamento – a derrubada da floresta. As árvores mais nobres são vendidas e, com o dinheiro da venda, é paga a derrubada da floresta. Não é barato desmatar”, conta Lima.
Com o avanço do processo e o esgotamento de recursos valiosos por toda parte, há cada vez mais pressão sobre os extensos territórios nativos do Brasil, que cobrem cerca de um quarto da Bacia Amazônica brasileira. Todas as 22 reservas indígenas de Rondônia sofrem com alguma forma de invasão, explicou Lobo, seja de madeireiros, grileiros, produtores rurais ou garimpeiros ilegais.
A complexidade vai muito além de uma simples vitimização. Líderes indígenas que favorecem o desenvolvimento sustentável e a preservação de tradições comunitárias entram em conflito com membros da própria tribo que são atraídos por altas quantias oferecidas por forasteiros ansiosos por cortar suas árvores e garimpar em seus territórios. Algumas tribos se unem para enfrentar as atividades predatórias. Mas outras estão cada vez mais divididas entre preservar a floresta ou explorá-la para obter ganhos de curto prazo.
Dentro dos quase 2,5 mil km2 da terra indígena Sete de Setembro, a oeste de Pacarana, sete comunidades suruís se uniram para combater a exploração madeireira e o garimpo em seu território. Plantaram café e cacau e estão vendendo seus produtos a distribuidores nacionais e até internacionais. No entanto, eles são minoria na própria tribo – 20 outras aldeias suruís colaboram de certa forma com madeireiros e garimpeiros.
Na aldeia de Lapetanha, o ancião Agamenon Suruí contou que ele e sua família receberam ameaças de morte por expulsar madeireiros das florestas vizinhas. “Eles anunciaram. Citaram meu nome. Disseram: ‘Se o virmos, o mataremos’”, contou ele. Outros aldeães receberam ameaças semelhantes. Ninguém sai da comunidade sozinho.
A situação é ainda pior para os uru-eu-wau-wau e karipunas, porque garimpeiros e produtores rurais estão de olho em suas terras no oeste de Rondônia. Líderes de ambas as tribos foram ameaçados repetidas vezes. Dezenas de ocupantes ilegais foram expulsos do território dos karipunas em junho em uma operação conjunta do Ibama, de oficiais da Fundação Nacional do índio (Funai) e das polícias militar e federal. Investigadores indiciaram nove pessoas por desmatamento ilegal, fraude e lavagem de dinheiro.
Os próprios servidores do Ibama afirmam ter sido alvos de várias ameaças durante a operação para expulsar os invasores da reserva Karipuna. Todos no cumprimento de seu dever, afirma Givinaldo Lima.

Um órgão alvo de ataques

Mas alguns agentes do Ibama acreditam que o desânimo esteja tomando conta deles no governo Bolsonaro e se questionam se poderão contar com os superiores ao confrontar criminosos em campo.
“Sempre ficamos com a impressão de que fizemos algo errado”, disse um agente que pediu para não ser identificado, por medo de represália.
Apesar da retórica exaltada do governo Bolsonaro, funcionários de alto escalão do Ibama afirmam que não houve alteração substancial na forma pela qual os agentes conduzem as operações no campo. Após a operação em Rondônia, fui a Brasília para entrevistar Eduardo Bim, presidente do Ibama, na sede do órgão.
“Estamos fazendo as inspeções como previsto na lei. O que vejo são interpretações e rumores fora de contexto que dão a impressão de que não estamos combatendo crimes ambientais. Estamos combatendo e continuaremos a combater esses crimes”, disse ele.
Mas muitos de seus agentes de campo estão mais céticos.
“Bolsonaro não vai acabar com o Ibama. Ele precisa do Ibama para mostrar ao mundo que o Brasil está cuidando da Amazônia. Mas ele menospreza o órgão. Cria obstáculos para enfraquecer a instituição e nos impedir de fazer nosso trabalho”, contou um dos agentes.
Fonte: Scott Wallace – National Geographic

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Amazônia pode ser menos resistente ao efeito estufa do que se pensava.

Um estudo publicado pela revista científica Nature Geoscience,  capa da edição de setembro, indica que a Floresta Amazônica pode ser menos resistente às mudanças climáticas do que se pensava.

Os autores do estudo concluíram que a quantidade de fósforo presente no solo está ligada à capacidade da floresta de absorver dióxido de carbono (CO2), um dos gases responsáveis pelo efeito estufa no planeta.
Conforme o pesquisador David Lapola, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), um dos 28 cientistas que assinam o estudo, com menos fósforo disponível para as plantas, a capacidade de absorção do CO2, necessário para a realização da fotossíntese, pode ser limitada, em média, a 50%. 
Na prática, se a mata absorve menos CO2, tende a contribuir também em menor parcela para a redução dos gases de efeito estufa no planeta. Além disso, o fenômeno lança dúvidas sobre hipóteses que sugerem que o aumento do gás carbônico na atmosfera seria, na realidade, benéfico para as plantas, que absorvem CO2 para fazer a fotossíntese e, assim, poderiam se tornar mais vigorosas.
Essas hipóteses consideram que, com mais vigor, as florestas se adaptariam melhor às mudanças climáticas e se tornariam mais resistentes aos impactos do efeito estufa, como menos chuvas, temperaturas mais altas e a transformação de parte das florestas úmidas em savanas.
No entanto, ao identificar que a baixa concentração de fósforo no solo pode limitar a capacidade de absorção de CO2, novas perguntas surgem na comunidade científica.
“A maior parte dos resultados de impactos que as mudanças do clima podem ter na floresta vem de simulações em modelos, feitas há quase 20 anos. Elas colocam que se o efeito de fertilização por gás carbônico existir e for forte o suficiente poderia contrabalancear o ciclo ruim de aumento de temperatura e redução de chuva. Aí, a floresta permaneceria mais ou menos do jeito que ela é”, explica Lapola.
“O problema é que essas simulações feitas lá atrás consideravam que o efeito de fertilização por CO2 era algo que não tinha limitação. Mas este estudo nosso mostra que pode haver uma limitação forte causada por nutrientes, o fósforo é o principal deles”, afirma.
Baixa concentração de fósforo
A causa da baixa concentração de fósforo no solo amazônico é um fenômeno natural, afirma o cientista. Diferentemente do ciclo do carbono e da água, que apresentam fases atmosféricas, isto é, evaporam e retornam depois ao solo, o fósforo está nas rochas. Com a erosão natural, as rochas ricas em nutrientes se desmancharam, e o mineral foi lavado pelas chuvas ao longo das eras geológicas. Não há o que possa ser feito para reverter o quadro.
“Esses solos foram tão lavados pelas chuvas nas eras geológicas, que praticamente tudo o que existe do mineral na floresta está na vegetação. Por isso, quando você vai a uma floresta assim, você vê uma camada muito densa de raízes no meio da folhagem seca que caiu. Até mesmo quando cai um galho de uma árvore, não dá nem 15 dias e já tem um monte de raízes dentro desse galho. São as árvores pegando o fósforo que está dentro dessa biomassa, porque no solo não tem quase nada”, diz.
Conforme o pesquisador, já é conhecido pelos cientistas que 60% do solo amazônico, especialmente nas regiões leste, sul e central, apresentam a maior carência da substância. Essas são justamente as regiões mais afetadas pelo desmatamento nos últimos 30 anos e focos de queimadas registrados nas últimas semanas.
Com os incêndios, parte do fósforo até permanece nas cinzas, mas em poucos anos se dilui e não pode mais ser reaproveitado pela floresta, interrompendo o mecanismo de reciclagem natural.
Na avaliação de Lapola, essas interferências humanas apenas pioram o quadro, porque hoje é justamente na vegetação onde se encontra a maior reserva amazônica de fósforo.
Fase de campo não tem recursos para prosseguir
Também assinam o artigo da Nature Geoscience Katrin Fleischer, da Universidade Técnica de Munique, pesquisadores da Universidade de Augsburg e do Instituto de Bioquímica Max Planck, da Alemanha, além de instituições de Austrália, Estados Unidos, França, Áustria e Reino Unido.
Pesquisadores do projeto Amazon-Face, que testará emissão de grandes quantidades de CO2 na floresta para avaliar reação às mudanças climáticas
Os resultados do estudo foram obtidos por meio de simulações feitas em computador, considerando cálculos de níveis de fotossíntese, acúmulo de biomassa, injeção de diferentes níveis de gás carbônico e dados já disponíveis a respeito das condições geológicas da área central da Amazônia. O próximo passo é testar em campo o que foi verificado nas simulações, dentro da floresta. Mas justamente aí está a dificuldade para os pesquisadores avançarem, por falta de recursos.
Desde 2014, o projeto Amazon-Face, coordenado pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), com apoio de universidades brasileiras, europeias e americanas, tem como objetivo testar como a vegetação da Amazônia responde a altos níveis de CO2.
Por meio de torres de 30 metros de altura numa área ao norte de Manaus, na Amazônia Central, os cientistas projetam borrifar o gás e, assim, fertilizar as árvores do entorno para avaliar se há aumento de biomassa. Com a nova descoberta relacionada à escassez do fósforo, o experimento também ajudará a identificar o quanto exatamente a carência do mineral no solo local interfere na absorção de CO2.
A próxima fase do estudo deve custar em torno de R$ 10 milhões, mas não há sinalização de recursos para financiar o projeto, que vêm sendo protelado desde 2016. Procurados pela DW Brasil para falar a respeito das verbas, o Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação e o Inpa não responderam aos questionamentos.
Como alternativa, os pesquisadores estão trabalhando numa fase simplificada do estudo de campo para coletar as primeiras amostras. A partir deste mês, em vez das torres do Amazon-Face, eles usarão oito câmaras, que funcionarão como espécie de estufas, montadas na floresta sobre árvores jovens, de até 3 metros de altura, que no futuro serão a base da floresta.
Dentro dessas câmaras, haverá a aspersão de CO2 durante cerca de um ano. Segundo Lapola, os resultados são muito aguardados pela comunidade científica.
Fonte: Deutsche Welle

Israel enviará missão para combater incêndios na Amazônia.

O governo de Israel anunciou nesta terça-feira (03/09) que enviará uma missão para o Brasil para auxiliar no combate aos incêndios na Amazônia. A decisão foi tomada pelo primeiro-ministro israelense, Benjamin Netahyahu, após conversa com Jair Bolsonaro na semana passada.
“Uma delegação israelense de bombeiros e equipes de resgate, especializada em incêndios florestais e rurais, partirá hoje para o Brasil”, informou o porta-voz interino do Ministério do Exterior do país, Nizar Amer.
Formada por 11 pessoas, a equipe prestará assistência imediata no combate às queimadas e oferecerá conhecimento e experiência profissional a oficiais brasileiros, detalhou um comunicado divulgado pelo ministério.
Bolsonaro já havia anunciado na semana passada que aceitou ajuda do governo israelense, que enviou uma aeronave ao Brasil para apoiar o trabalho das Forças Armadas no combate à chamas na Amazônia. O auxílio foi disponibilizado após o presidente se tornar alvo de pesadas críticas de políticos europeus devido ao desmatamento e às queimadas na região.
Alguns países europeus ameaçaram suspender o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia (UE). Políticos alemães chegaram a pedir sanções ao Brasil devido às políticas antiambientais do governo Bolsonaro.
Segundo dados do Programa de Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em agosto deste ano foram registrados 30.901 focos de incêndio no bioma Amazônia. Foi o maior número para o mês desde 2010, quando houve 45.018 focos.
Essa não é a primeira vez que Israel oferece apoio ao Brasil para enfrentar catástrofes. No início do ano, o governo israelense enviou mais de 100 soldados ao país para ajudar nos trabalhos de resgate após o rompimento de uma barragem em Brumadinho, em Minas Gerais.
Os laços entre Israel e Brasil se fortaleceram desde que Bolsonaro assumiu o poder e estabeleceu uma estreita aliança com Netanyahu. O líder israelense esteve no Brasil no início do ano, quando fechou acordos de cooperação com o presidente brasileiro em áreas como defesa, economia, emprego, segurança, água e indústria.
Em abril, Bolsonaro realizou uma visita oficial a Israel, anunciando na ocasião a abertura de um escritório de negócios em Jerusalém, o que as autoridades israelenses interpretaram como um “primeiro passo” para a transferência da embaixada do Brasil para a cidade disputada.
Fonte: Deutsche Welle

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Interesse internacional na Amazônia é legítimo para 75% dos brasileiros.

Uma pesquisa Datafolha divulgada neste domingo (01/09) revelou que 75% dos brasileiros consideram legítimo o interesse internacional na Amazônia e que a floresta corre riscos. O levantamento mostrou ainda que 66% dos entrevistados acham correto o Brasil aceitar dinheiro para combater o desmatamento na região.

A Amazônia passou a ser tema internacional após a divulgação de dados sobre o aumento do desmatamento e queimadas na região. Imagens dos incêndios rodaram o mundo e geraram uma troca de farpas entre o presidente Jair Bolsonaro e seu homólogo francês, Emmanuel Macron, que passou a questionar o comprometimento de Bolsonaro com o meio ambiente.
A Amazônia foi tema ainda na cúpula do G7, o que irritou os membros do governo brasileiro. Macron propôs conferir um “estatuto internacional” à floresta. Bolsonaro classificou a manobra de interferência na soberania nacional.
A pesquisa Datafolha questionou os entrevistados se o interesse de outros países na Amazônia, devido à importância para o planeta, era legítimo. Entre o grupo consultado, 57% concordaram totalmente com essa afirmação, 19% concordaram em parte, outros 21% discordaram e 3% não souberam responder.
Apesar de considerarem esse interesse legítimo, 61% dos ouvidos consideram que países usam a crise ambiental para explorar a região e outros 35% discordam desta suposição. Por outro lado, 66% dos entrevistados afirmaram que o Brasil deveria aceitar dinheiro estrangeiro contra o desmatamento, já 33% foram contra e 3% não souberam responder.
O G7 acordou em destinar 20 milhões de dólares, cerca de 83 milhões de reais, para o combate às queimadas na região. A oferta, porém, foi recusada por Bolsonaro, devido à crise diplomática com Macron. O presidente disse que só aceitaria o dinheiro se o líder francês pedisse desculpas a ele.
O levantamento também revelou 41% consideram Macron mais preparado para lidar com a situação na Amazônia do que Jair Bolsonaro, com 36%. O francês também é visto como o mais preocupado com a floresta, com 44% contra 30% de Bolsonaro, e mais equilibrado, com 44% contra 32%.
A pesquisa indicou ainda que 51% dos brasileiros consideram o desempenho de Bolsonaro no combate ao desmatamento e às queimadas ruim ou péssimo, outros 21% acharam regular e 25% bom ou ótimo.
Já 44% concordam totalmente que a crise internacional gerada pelas queimadas pode afastar investimentos estrangeiros no país, outros 20% concordam parcialmente e outros 32% discordam.
O levantamento questionou ainda quem deveria administrar a Amazônia. Para 40%, a responsabilidade é do Brasil, outros 35% acreditam que outras nações também deveriam ser ouvidas e 22% consideram a sugestão de Macron de uma gestão internacional uma boa ideia.
Para a pesquisa, o Datafolha ouviu 2.878 pessoas com mais de 16 anos de idades em 175 cidades entre os dias 29 e 30 de agosto. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.
Fonte: Deutsche Welle

Número de focos de incêndios na Amazônia é o maior em nove anos.

Em agosto deste ano, foram registrados 30.901 focos de incêndio no bioma Amazônia, segundo dados divulgados neste domingo (01/09) pelo Programa de Queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Esse é o maior número registrado para o mês desde 2010, quando houve 45.018 focos.
Os dados mostraram ainda que, em relação ao mesmo mês do ano passado, os focos de incêndio triplicaram. Em agosto de 2018, foram registrados 10.421 incêndios. Entre janeiro e agosto deste ano, foram registrados ao todo 46.825 focos de incêndio na Amazônia. Esse número é mais do que o dobro observado no mesmo período do ano passado, 22.165.
O recorde de queimadas para agosto da série histórica, que se iniciou em 1998, porém, foi registrado em 2005, quando houve 63.764 incêndios. A média histórica para o mês é de 25.853.
Segundo o jornal O Globo, a tendência é de aumento dos incêndios em setembro. Os dados mostram que nos últimos 15 anos, os focos de queimada em setembro ultrapassaram os de agosto, com exceção de 2010.
Já em toda a região da Amazônia Legal, que compreende os estados do Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia e Roraima e parte do Maranhão, foram registrados 39.177 focos de incêndio em agosto, 161% a mais do que no mesmo período do ano.
Em todo o território nacional, o número de incêndio em agosto foi de 51.936, um aumento de 128% em relação ao mesmo mês de 2018, quando foram observados 22.774.
Em resposta aos incêndios na Amazônia, o presidente Jair Bolsonaro anunciou um decreto proibindo queimadas em todo o Brasil, por 60 dias. Um dia depois, porém, Bolsonaro voltou atrás e autorizou a prática em regiões que estão fora da Amazônia Legal.
Devido ao desmatamento e às queimadas na região, Bolsonaro se tornou alvo de pesadas críticas de políticos europeus, que ameaçaram suspender o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia (UE). Alguns políticos alemães chegaram a pedir sanções ao Brasil em razão da maneira como o governo Bolsonaro lida com o meio ambiente.
Bolsonaro se envolveu numa prologada troca de farpas com o presidente da França, Emmanuel Macron, que o acusou de mentir sobre suas políticas ambientais durante o encontro do G20 em junho, no Japão, onde foi concluído o pacto comercial entre o bloco dos países sul-americanos e a UE.
Fonte: Deutsche Welle

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

O que os incêndios na Amazônia significam para os animais silvestres.

A Floresta Amazônica, lar de uma em cada 10 espécies do planeta, está em chamas. Desde a semana passada, nove mil focos de incêndio ardem simultaneamente na vasta floresta tropical no Brasil, espalhando-se para a Bolívia, Paraguai e Peru. O fogo, ateado em boa parte intencionalmente para limpar a terra para a criação de gado, agricultura e extração de madeira, foi exacerbado pelo período de estiagem. Os incêndios representam números alarmantes, com um aumento de 80% em relação ao mesmo período no ano passado, de acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais Inpe). Os incêndios podem até ser vistos do espaço.

Para as milhares de espécies de mamíferos, répteis, anfíbios e aves que vivem na Amazônia, o impacto dos incêndios vem em duas fases, uma imediata e a outra em longo prazo.
“Na Amazônia, nada está adaptado ao fogo”, diz William Magnusson, pesquisador especialista em monitoramento da biodiversidade no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) em Manaus, Brasil.
Em alguns biomas, como no Cerrado, incêndios florestais são essenciais para a manutenção de ecossistemas saudáveis. Os animais estão adaptados para lidar com isso, e muitos até dependem deles para prosperar. O pica-pau-de-dorso-preto, por exemplo, nativo do oeste americano, faz seus ninhos apenas em árvores queimadas, alimentando-se dos besouros que infestam a madeira incendiada.
Mas a Amazônia é diferente.
A floresta tropical é tão excepcionalmente rica e diversa exatamente porque não pega fogo, diz Magnusson. Embora incêndios possam ocorrer naturalmente, eles são tipicamente de pequena escala e queimam próximos ao solo. E são rapidamente extinguidos pelas chuvas.
“Basicamente, a Amazônia não queimava há centenas de milhares ou milhões de anos”, diz Magnusson. Não é como na Austrália, por exemplo, onde o eucalipto morreria sem os incêndios regulares, ele disse. A floresta tropical não foi feita para o fogo.

Como os incêndios estão afetando os animais neste momento?

É provável que eles estejam “prejudicando imensamente a vida selvagem no curto prazo”, disse Mazeika Sullivan, professor adjunto do Departamento de Meio Ambiente e Recursos Naturais da Universidade Estadual de Ohio, que já conduziu pesquisas em campo na Amazônia colombiana.
Normalmente, em meio a um incêndio florestal, diz Sullivan, os animais têm pouquíssimas opções. Eles podem tentar se esconder se enterrando ou entrando na água, ele diz. Eles podem se deslocar. Ou podem perecer. Nesta situação, muitos animais morrerão, seja pelas chamas, pelo calor do fogo ou por inalação de fumaça, diz Sullivan.
“Haverá vencedores imediatos e perdedores imediatos”, ele disse. “Em um sistema que não está adaptado ao fogo, haverá muito mais perdedores do que haveria em outros ambientes”.

É possível que alguns animais se saiam melhor que os outros?

Algumas características podem ser benéficas em um incêndio. Ser naturalmente errante é uma vantagem. Animais grandes que se movem rápido, como as onças-pintadas e onças-pardas, disse Sullivan, devem conseguir escapar, junto com algumas aves. Mas animais mais lentos, como preguiças e tamanduás, assim como criaturas menores, como sapos e lagartos, podem morrer por não conseguirem sair do caminho do fogo rápido o suficiente. “Escapar para a copa das árvores, mas escolher a árvore errada”, diz Sullivan, pode significar a morte para um animal.

É possível que alguma espécie já ameaçada se torne ainda mais ameaçada ou até extinta?

É difícil dizer. Um incêndio florestal na Amazônia é totalmente diferente de um incêndio nos Estados Unidos, Europa ou Austrália, onde nós sabemos bastante sobre a distribuição das espécies, diz Magnusson. Não sabemos o suficiente sobre o alcance de muitos dos animais que vivem nas florestas tropicais para dizer quais espécies estão em risco.
No entanto, há algumas espécies preocupantes.
O macaco sauá da espécie Callicebus miltoni, descoberto em 2011, só foi documentado em uma parte do Brasil, no sul da Amazônia, que está sendo atualmente assolada pelo fogo. Outro primata descoberto recentemente, o sauim-dos-índios-mura, vive em uma pequena região no Centro-Oeste brasileiro também ameaçada pelos incêndios, diz Carlos César Durigan, diretor da Wildlife Conservation Society no Brasil. É possível que essas espécies sejam nativas dessas regiões, diz Durigan. “Eu [temo] que possamos perder muitas dessas espécies endêmicas”.

E os animais aquáticos?

Os grandes corpos d’água estão seguros no curto prazo. Mas animais de pequenos rios e riachos, os quais são altamente diversos biologicamente, podem estar em apuros. Em córregos menores, “o fogo arde logo ao lado”, diz Sullivan. Anfíbios aquáticos que necessitam ficar parcialmente fora da água para respirar estariam em perigo. O fogo também pode alterar a química da água ao ponto de não ser mais viável para a vida no curto prazo, disse Sullivan.

E como a situação pós incêndio pode afetar as espécies?

Este é o segundo grande golpe. “Efeitos de longo prazo podem ser catastróficos”, disse Sullivan. Todo o ecossistema das áreas incendiadas da floresta tropical será alterado. Por exemplo, o denso dossel da Floresta Amazônica bloqueia boa parte da luz solar de chegar ao solo. O fogo rompe a copa das árvores de uma só vez, permitindo a entrada de luz e mudando fundamentalmente o fluxo de energia de todo o ecossistema. Isso pode causar efeitos em cascata em toda a cadeia alimentar, disse Sullivan.
Sobreviver em um ecossistema profundamente transformado seria um problema para muitas espécies. Muitos anfíbios, por exemplo, têm peles texturizadas e padronizadas que se parecem com o tronco ou folhas de uma árvore, permitindo que eles se camuflem. “Agora, de repente, os sapos serão forçados a um novo cenário”, diz Sullivan. “Eles ficarão expostos”.
E muitos animais na Amazônia são especialistas, espécies que evoluíram e se adaptaram para prosperar em habitats específicos. Os tucanos, por exemplo, se alimentam de frutas que outros animais não conseguem acessar, com seus longos bicos que os ajudam a alcançar gretas e fendas quase inalcançáveis. Se os incêndios dizimarem as frutas das quais as aves dependem, é possível que a população local de tucanos reduza drasticamente. O macaco-aranha vive no alto das árvores para evitar competição. “O que acontece quando perdemos as copas?”, pergunta Sullivan. “Eles são forçados a se deslocar para outras áreas com maior competição”.
Os únicos “vencedores” em uma floresta incendiada seriam, provavelmente, as aves de rapina e outros predadores, diz Sullivan, já que a floresta aberta tornaria a caça mais fácil.

Há outras consequências para os animais silvestres?

Magnusson está mais preocupado com os impactos da perda da floresta.
“Quando removemos a floresta, [perdemos] 99% de todas as espécies”, ele disse. Se esses incêndios fossem pontuais, ele não estaria necessariamente preocupado, mas salienta que houve uma mudança fundamental na política brasileira “que encoraja o desmatamento”. Ele está se referindo ao comprometimento do Presidente Jair Bolsonaro de abrir a Amazônia para os negócios. “O sinal político que foi enviado é basicamente que não há mais leis, então todos podem fazer o que quiserem.”
Conservacionistas e cidadãos preocupados se manifestaram nas redes sociais e #PrayForAmazonas foi a hashtag em primeiro lugar no Twitter na quarta-feira. Muitos criticaram as políticas do governo do Bolsonaro. Outros se mostraram preocupados que a demanda mundial por carne bovina incentive o desmatamento acelerado pela pecuária. Ambientalistas também estão chamando a atenção para as consequências que uma Amazônia em chamas, muitas vezes chamada de os pulmões do planeta, teria para as mudanças climáticas. Na quinta-feira, a hashtag #PrayForAmazonas cedeu seu lugar para sua sucessora: #ActForAmazonas.
Há uma região na margem sul da Floresta Amazônica, nos estados do Pará, Mato Grosso e Rondônia, chamada de “arco do desmatamento”, diz Magnusson. Lá, os incêndios florestais estão empurrando os limites da floresta tropical para o norte, possivelmente transformando suas fronteiras para sempre.
“Sabemos muito pouco sobre ela”, ele disse sobre a região. “Podemos perder espécies sem nem saber que elas existiam”.
Fonte: National Geographic – Natasha Daly

Como a França preserva e explora seu pedaço da Amazônia na Guiana Francesa.

Do outro lado do Atlântico, falando desde a cidade de Biarritz sobre a necessidade de conter incêndios e desmatamentos na maior floresta tropical do mundo, o presidente francês, Emmanuel Macron, lembrou: “Somos da Amazônia”.

“Estamos todos preocupados. A França sem dúvida está ainda mais que outros atores à mesa, já que somos amazônicos”, disse Macron em vídeo gravado na véspera da reunião do G7 (grupo que reúne as sete maiores economias do mundo), onde o presidente francês protagonizou a inclusão na agenda da situação das queimadas na floresta, sobretudo na parte brasileira.
Como é possível que o país europeu tenha uma parte desta floresta sul-americana? A resposta está na Guiana Francesa, área a nordeste do nosso continente oficializada como uma colônia francesa e escravagista no século 17 e hoje considerada um departamento ultramarino da França – ou seja, como uma província do país europeu, portanto tendo como chefe de Estado o presidente governando em Paris, a 7 mil quilômetros de distância.
E o titular atual do Palácio do Eliseu, Macron, chacoalhou os críticos à gestão francesa da natureza na Guiana ao falar do Brasil, motivando a publicação recente de manifestos por representantes de povos nativos e ambientalistas.
Essas manifestações têm expressado, sobretudo, preocupações com o impacto da mineração – a ilegal é combatida como uma agenda de governo, já a concessão oficial de autorizações para pesquisa e exploração por empresas é alvo de controvérsia.
Fato é, porém, que as pressões sofridas pela natureza da Guiana Francesa são relativamente recentes.
O território, com um tamanho um pouco menor do que o Estado brasileiro de Santa Catarina, tem mais de 90% de sua área coberta por florestas – também na quase totalidade, por florestas primárias, aquelas com pouca ou nenhuma intervenção humana. Os números têm como referência dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO, na sigla em inglês) para 2010.
A título de comparação, no Brasil, o valor da cobertura florestal era naquele ano de 60%; no mundo, de 30%.
Boa parte (cerca de um terço) dessa cobertura florestal na Guiana está no Parc Amazonien de Guyane (PAG), criado em 2007 na categoria “parque nacional” – um tipo de área protegida com restrições à intervenção humana e à exploração econômica, apesar de haver exceções para populações originárias, como indígenas que ali vivem e podem por exemplo caçar e pescar para subsistência.
Como indica o nome, é aí, no sul da Guiana, limitada pela divisa com o Amapá, que está o pedaço francês na Amazônia. Na verdade, trata-se da maior área protegida não só da França, mas da União Europeia. Considerando-se toda a área da Amazônia, entretanto, cerca de 1,4% fica na Guiana Francesa, enquanto o Brasil lidera com aproximadamente 58%.
Segundo um relatório da União Europeia, um hectare da floresta da Guiana Francesa abriga mais espécies de árvores do que toda a Europa continental. Com uma área seis vezes menor que a França, a Guiana Francesa tem três vezes mais vertebrados, oito vezes mais peixes de água doce e cinco vezes mais répteis.
Mas muito antes da criação do Parc Amazonien de Guyane, contribuiu também o histórico de ocupação do território da Guiana Francesa.
Fontes consultadas pela BBC News Brasil indicam que, por uma série de motivos (entenda mais abaixo), como dificuldades de chegada e assentamento pelos europeus, historicamente a exploração de riquezas naturais pela França na Guiana existiu ao longo da ocupação mas foi muito mais limitada do que outras experiências coloniais nas Américas e na África.
A ocupação europeia também se concentrou na costa atlântica, onde fica inclusive a capital da Guiana, Caiena. Isso acabou por preservar as florestas ao Sul – como justamente a parcela que faz parte da Amazônia.
Esta história de ocupação tímida também se reflete na população do território – hoje em cerca de 290 mil pessoas, diferente dos países vizinhos Suriname (cerca de 560 mil) e mais ainda do Brasil (209 milhões).
Mas a população vem crescendo rápido, com estimativas de que possa chegar a 400 mil em 2030, contra 220 mil em 2008. Há também um clamor por maior pujança econômica ali, onde o desemprego atinge cerca de 20% da população – mais do que o dobro da porcentagem na França metropolitana. Essas pressões têm preocupado por seu impacto ambiental.

‘Montanha de Ouro’

O estímulo à economia e a criação de empregos sustentaram os argumentos de Macron no período em que seu governo demonstrou apoio ao projeto de extração mineral industrial Montagne D’Or (“Montanha de Ouro”, em tradução livre), possivelmente seu maior calcanhar de Aquiles na agenda ambiental da Guiana.
Um consórcio russo-canadense fez análises de viabilidade ali, em um ponto a noroeste do território e com interseção com a zona amazônica. Segundo as empresas envolvidas, há na área um potencial de extração de 85 toneladas de ouro e geração de 750 empregos diretos e 3.000 indiretos. O plano do consórcio era entre 2018 e 2019 apresentar o pedido de autorização para exploração às autoridades e que o projeto fosse colocado em consulta pública; a exploração se iniciaria efetivamente em 2022.
“É um projeto que, em minha opinião, pode ser bom para a Guiana”, disse Macron em uma entrevista aos canais televisivos France Télévisions Guayane e ATV em outubro de 2017. “Espero que a Guiana possa ter sucesso com suas riquezas, e não estou em posição de colocá-la (o território) em risco.”
Mas o presidente francês expressou que isso deveria vir com deveres, como uma conformidade a “critérios ambientais de excelência”, a criação de empregos locais, um “retorno justo à Guiana” e respostas ao escrutínio público – que certamente viriam, ele destacou.
E de fato o barulho previsto veio, primeiro sob a forma do movimento Or de question – um trocadilho com a palavra “Or”, que pode significar “ouro” e “fora” – portanto, “Fora de questão”. Com bases na Guiana e na França metropolitana, o movimento influenciou campanha de grandes ONGs mundiais, como WWF e Greenpeace. As preocupações apontadas diziam respeito, entre outros, ao uso de combustíveis fósseis, caminhões, explosivos e ao desmatamento decorrentes da empreitada.
Frequentemente, os rompimentos de barragens no Brasil em Mariana (2015) e Brumadinho (2019) foram apontados como um possível futuro temido para a Montanha de Ouro.
Após a mobilização e campanhas online, Macron anunciou em maio deste ano que o projeto está suspenso por indicar ser “incompatível” com a política ambiental francesa, mas ressaltou que uma decisão definitiva ainda seria tomada após análise de conselheiros.
“Em todo o caso, há centenas de milhares de hectares ameaçados pela indústria mineradora, seja em projetos com autorização já concedida ou em curso na Guiana”, afirmou à BBC News Brasil por telefone Marine Calmet, porta-voz do movimento Or de Question na França metropolitana.
“O que é claro é que este governo (de Emmanuel Macron) não desacelerou o número de autorizações liberadas. Na realidade, há um número bastante considerável de permissões que foram concedidas depois que Macron assumiu (em 2017)”.
“Penso que Macron cumpriu seu papel como líder no G7 ao alertar sobre a situação da Amazônia, e isso faz parte da diplomacia. Por outro lado, já que o assunto veio à mesa, esperamos avidamente que a gestão do meio ambiente nos territórios (ultramarinos) seja refletida.”
“A mineração industrial ambientalmente responsável é um mito.”
Fez eco a esta crítica uma organização dedicada a representar os povos indígenas e tradicionais da Guiana Francesa, o Grand Conseil Coutumier des Peuples Amérindien et Bushinengé. Em artigo publicado no último domingo 25 no portal France Info, o grupo apoiou que um eventual fundo internacional para gestão da Amazônia fosse gerido por povos nativos e criticou a mineração industrial na Guiana: “Estamos surpresos com a posição do presidente Emmanuel Macron em denunciar a destruição da Amazônia brasileira ou boliviana, mas ao mesmo tempo dá 360.000 hectares de floresta para empresas multinacionais de mineração na Guiana.”

Garimpeiros ilegais vindos do Brasil

Por ser um parque nacional, o Parc Amazonien de Guyane tem, em sua zona principal (diferente da chamada área de adesão, uma interseção entre áreas protegidas e não protegidas), exploração restrita em sua quase totalidade – portanto, não é uma preocupação ali a mineração industrial. Mas o garimpo ilegal, sim – na verdade, segundo relatórios do parque, esta é a principal ameaça à unidade e alvo de fiscalização prioritário.
Dados mostram picos de pontos de garimpo ilegal detectados no parque em meses recentes, com destaques para agosto de 2017 (177) e janeiro de 2018 (171).
Em 2017, foram feitas no parque 112 operações de combate ao garimpo ilegal, 50 delas com parcerias entre a Gendarmerie (força policial subordinada ao Ministério da Defesa) e as Forças Armadas da Guiana Francesa, além da Legião Estrangeira Francesa. No parque e além, as Forças Armadas e órgãos do governo têm uma operação especificamente dedicada ao combate a esta atividade no território, a Harpie.
Por séculos, garimpeiros foram atraídos para essas florestas na busca pelo tesouro. Mas, há pouco mais de uma década, quando o colapso econômico de 2008 fez o preço do ouro disparar, uma corrida pelo material começou por toda a floresta amazônica. Desde então, o preço do ouro continuou a subir e a extração ilegal destruiu florestas do Equador, passando pelo Peru, Colômbia e Venezuela, até o Brasil.
Uma equipe inglesa da BBC acompanhou em maio uma operação conduzida pela Legião Estrangeira (leia a reportagem original em inglês aqui). Os agentes tentam conter os danos gerados por essa atividade altamente predatória, que deixa para trás rastros de desmatamento e do uso de mercúrio no processo de extração, o que intoxica as águas, animais e o ambiente à volta.
“Na maioria as vezes, os garimpeiros são rapazes pobres do Brasil procurando dinheiro fácil. Eles vivem na floresta por meses e meses”, afirmou à reportagem da equipe internacional o capitão Vianney. “Em casa, eles faziam R$ 800 reais por mês para fazer pequenos trabalhos. Na floresta, eles podem ganhar isso em alguns dias.”
É frequente dizer que há na área amazônica da Guiana Francesa entre 8 mil e 10 mil garimpeiros clandestinos atuando, em boa parte brasileiros. A BBC News Brasil pediu a dois ministérios franceses (de la Transition écologique et solidaire e des Outre-mer) e à embaixada da França no Brasil na última segunda-feira (26) dados comprovando a nacionalidade de pessoas detidas, mas não houve resposta – nem a essa nem a todas outras questões sobre a gestão ambiental na Guiana enviadas pela reportagem.
No último dia 27, saiu de Caiena uma carta escrita por Gauthier Horth, membro do Conselho de Administração do Parc Amazonien de Guyane, tendo como destinatário o presidente Emmanuel Macron em Paris.
Na carta, divulgada por veículos da imprensa francesa e à qual a BBC News teve acesso, Horth lembrou da proposta viabilizada e anunciada por Macron de doação, pelo G7, de US$ 22 milhões (cerca de R$ 91 milhões) ao Brasil no combate a incêndios florestais – rejeitada pelo governo brasileiro.
“A mineração ilegal de ouro devasta uma média de 500 hectares de área florestal a cada ano e o Estado francês nunca trouxe uma solução real para esse flagelo que dura mais de três décadas”, diz um trecho.
“Nos últimos três anos em que estamos no Conselho de Administração deste parque, exigimos constantemente que essas áreas degradadas sejam reabilitadas. A administração pública ainda recusa a idéia sob o pretexto de que ‘garimpeiros ilegais voltarão a devastar novamente’.”
“Senhor presidente, não podemos aceitar mais esta situação de injustiça. O contexto em que vivemos exige que vejamos o que podemos fazer em casa. Seria útil enviar para a floresta da Guiana o envelope financeiro que o Brasil não aceitou.”
A quase totalidade das receitas do parque nacional na Guiana vêm de cofres do Estado francês – em 2017, o orçamento destinado a ele foi de 7,9 milhões de euros (cerca de R$ 36 milhões)

Dependência da metrópole

A dependência do dinheiro vindo de Paris não se restringe ao parque – na verdade, é um dos principais sintomas dos problemas econômicos da Guiana Francesa, tanto em subsídios quanto em trocas comerciais.
Como outros territórios ultramarinos, esta parte sul-americana da França tem uma balança comercial estruturalmente deficitária. Em 2017, enquanto o território exportou cerca de 133 milhões de euros em produtos, as importações corresponderam a 1,3 bilhão de euros. Na mão e contramão, o principal parceiro comercial é a França metropolitana. Os dados são do órgão governamental Institut d’émission des départements d’outre-mer.
Mais da metade do Produto Interno Bruto (PIB) da Guiana Francesa vem do setor de serviços, mas tem se destacado recentemente a contribuição crescente do Centro Espacial de Kourou, um centro de lançamentos da Agência Espacial Europeia, na região costeira do território.
“Por que a Guiana Francesa é importante para a França e para a Europa? Não tem a ver com a mineração, com a madeira… Essas são referências do passado. A importância geoestratégica da Guiana Francesa é a base de Kourou. É um lugar ideal para lançamentos, pois é bem embaixo da Linha do Equador”, explicou à BBC News Brasil uma fonte próxima ao governo francês na América do Sul que pediu para não ser identificado.
Destaca-se também na Guiana Francesa uma produção em boa parte voltada à subsistência, à diferença do seu gigantesco vizinho.
“A Amazônia brasileira, especialmente no sul, é um terreno usado para a agropecuária, e para a exportação. Não tem quase nenhum gado na Guiana Francesa, não faz parte do modelo econômico”, diz a fonte.
Com isso, explica-se em parte a menor dimensão das ameaças às florestas na Guiana. Um exemplo disso é o número de queimadas, que motivou a repercussão internacional da situação atual da Amazônia no Brasil. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram, por exemplo, que a Guiana Francesa toda registrou 11 focos de incêndio detectados de janeiro a agosto de 2019 (em 2018, foram sete).
O Amapá, Estado brasileiro vizinho com área quase duas vezes maior, teve 7.843 focos de incêndio no mesmo período – uma alta de 108% em relação ao mesmo intervalo de 2018.
Wemerson Costa dos Santos, ativista pela agroecologia no Amapá e membro do Fórum Social Panamazônico, que reúne várias representações da sociedade civil de países amazônicos, lembra também que a capacidade de fiscalização francesa não deve ser subestimada.
“A gente percebe no controle da fronteira, na hora de cruzar para a Guiana Francesa. Eles têm um sistema de sobrevoo muito bom, inclusive com drones, e de monitoramento por satélites também.”
“Aqui no Brasil, o pasto, o agronegócio, as madeireiras, é monstruoso (a pressão exercida sobre o meio ambiente). Se comparar, é residual (a Guiana Francesa comparada ao Brasil).”

Um pouco de história

Desde que os primeiros europeus começaram a pisar no que é hoje a Guiana Francesa, no século 16, a França até desenhou planos ambiciosos para explorar aquelas terras, mas uma combinação de fatores e episódios fizeram com que essa interferência fosse mais tímida se comparada a outros territórios que acabaram sendo mais prioritários para a colônia, como Martinica e Guadalupe, no Caribe.
Já de início, mostrou-se difícil atracar nesse pedaço de terra sob clima equatorial e rodeado por águas turbulentas e barrentas que chegavam dos rios no mar.
O século 17 viu uma sequência de tentativas frustradas de fixação de grupos de algumas dezenas de pessoas, algo agravado por conflitos com as populações nativas e outros europeus que disputavam ferrenhamente o continente sul-americano naquela época – franceses haviam sido expulsos, por exemplo, do Rio de Janeiro e do Maranhão.
Eram poucos milhares os habitantes do território quando, ao longo do século 18, escravos africanos foram forçados a atravessar para a Guiana – também em uma dimensão menor na comparação com outras colônias.
No final do século 18, o plano mais ambicioso para aquele território, visando sua ocupação, defesa militar e produção de bens, se mostraria também um de seus episódios mais catastróficos. Entre 1764 e 1765, cerca de 12 mil colonos desembarcaram na Guiana Francesa, das quais 7 mil já estavam mortas por doenças em outubro de 1765, outras 3 mil retornaram à Europa e apenas 1,8 mil de fato fizeram vida ali.
A maioria dos sobreviventes foi resgata nas ilhas que, por isso, ficariam conhecidas como ilhas da Salvação. O episódio ficou conhecido como “expedição de Kourou”, nome do destino principal dos colonos. Também foi batizada a “síndrome de Kourou”, ou seja, a consolidação do destino terrível que seria habitar a Guiana.
A partir da Revolução Francesa, a Guiana Francesa se torna oficialmente um local para desterrados – prisioneiros.
Ao longo destes séculos, houve experiências de exploração madeireira e plantio de açúcar e madeira – mais uma vez, modestas.
(Fonte: “Em torno das origens da Guiana Francesa: dos primórdios ao século XIX”, artigo do historiador Iuri Cavlak)
Fonte: BBC