sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Países sul-americanos oferecem ajuda ao Brasil para combater incêndios.

Depois de imagens dos incêndios florestais na Amazônia acenderem um alerta sobre as queimadas, alguns países sul-americanos ofereceram nesta quinta-feira (22/08) ajuda ao Brasil e à Bolívia no combate as chamas.

O primeiro a se manifestar foi o presidente da Colômbia, Iván Duque. “A tragédia ambiental na Amazônia não tem fronteiras e deve chamar a atenção de todos. Nós, do governo nacional, oferecemos aos países irmãos o nosso apoio para trabalhar conjuntamente em um propósito urgente: proteger o pulmão do mundo”, escreveu o mandatário no Twitter.
O gesto de Duque foi seguido pelo do presidente do Chile, Sebastián Piñera, que afirmou ter conversado com seu homólogo brasileiro, Jair Bolsonaro, para expressar solidariedade diante desta catástrofe.
“Ofereci a Bolsonaro a colaboração do Chile para ajudar a esse país irmão e amigo a combarter com mais eficácia e força os grandes incêndios florestais que afetam a Amazônia”, afirmou Piñera a jornalistas, acrescentando que também fez a mesma proposta ao presidente boliviano, Evo Morales.
A Venezuela também ofereceu aos dois países sua “modesta ajuda” para combater “essa tragédia dolorosa”. Em um comunicado, o governo de Nicolás Maduro expressou preocupação com as queimadas.
“A Venezuela expressa sua profunda preocupação com os gigantescos e terríveis incêndios que assolam a Amazônia em territórios de vários países sul-americanos, com gravíssimos impactos sobre a população, os ecossistemas e a diversidade biológica”, destacou o Ministério do Exterior da Venezuela.
No texto, a Chancelaria venezuelana expressou solidariedade de maneira especial às comunidades indígenas e camponesas no Brasil, na Bolívia, no Paraguai, no Equador e no Peru, países que dividem a Amazônia com a Venezuela. Além disso, pediu consciência aos atores econômicos e institucionais dessas nações.
Já a Bolívia pediu ajuda ao Brasil e ao Paraguai para combater os incêndios na fronteira trinacional e informou que o fogo já devastou 744.711 hectares de florestas, pastagens e plantações na região da reserva de Chiquitanía. Seis aviões e cerca de 2.500 pessoas trabalham nos esforços para conter as chamas em território boliviano.
O ministro da Presidência e braço-direito de Morales, Juan Ramón Quintana, disse, porém, que nenhum esforço será suficiente se o Paraguai e o Brasil não estiverem envolvidos na luta contra o fogo. “Não adianta controlarmos o incêndio em território nacional, se o fogo não for controlado em territórios brasileiro e paraguaio”, acrescentou.
A Colômbia propôs ainda aos governos do Brasil, Bolívia, Equador e Peru a realização de um projeto conjunto de prevenção contra a catástrofe ambiental decorrente dos incêndios que se propagam pela Amazônia.
“Oferecemos a realização de um projeto conjunto entre Peru, Equador, Colômbia e Brasil para avançarmos na prevenção dos incêndios florestais na Amazônia e construirmos uma agenda conjunta para a mudança climática, o desmatamento e a degradação dessa região”, disse a jornalistas o ministro colombiano do Meio Ambiente, Ricardo José Lozano.
Para o projeto conjunto, a Colômbia “já tem bons resultados na luta contra o desmatamento”, disse o ministro. Segundo o governo colombiano, o país registrou 197.159 hectares desflorestados de florestas naturais no ano passado, o que representa uma redução de 22.814 hectares a respeito dos 219.973 hectares de 2017.
Lozano explicou que a Colômbia atualmente implementa “a política preventiva nas florestas” para evitar que aconteça algo como o que acontecendo no Brasil.
As chamas destroem parte da floresta no Brasil e na Bolívia há duas semanas. Nos últimos dias, a fumaça dos incêndios florestais chegou até o Peru e a cidade de São Paulo. Diante o avanço do fogo, nesta quinta-feira, o Peru decretou estado de alerta nas fronteiras com o Brasil e a Bolívia. Mais de 200 guardas florestais e bombeiros estão monitorando as queimadas nos países vizinhos.
O alerta coincide com o anúncio de que a fumaça dos incêndios havia chegado ao Peru. A Defesa Civil do país afirmou que está analisando constantemente dados sobre as partículas de cinzas na atmosfera.
Ainda não há dados oficiais sobre a dimensão do estrago causado pelos incêndios. Estima-se, porém, que milhares de hectares estão sendo consumidos pelo fogo nos estados de Rondônia, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), os focos de fogo em todo o país neste ano superam em 83% a quantidade registrada no mesmo período em 2018.
A Amazônia representa 25% da superfície do continente e é a maior floresta tropical do mundo. A região possui 7,4 milhões de quilômetros quadrados, o equivalente a 5% da superfície total da Terra e a quase o 25% do continente americano. Cerca de 60% desse território está em solo brasileiro. A Amazônia é compartilhada por Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela.
Fonte: Deutsche Welle

Incêndios florestais estão cada vez mais intensos — até mesmo para animais adaptados ao fogo.

PENSE NAS FLORESTAS de coníferas do oeste norte-americano e você provavelmente imaginará árvores altas, o chão da floresta coberto de folhas de pinheiro e pinhas, ursos-negros, onças-pardas, sapos coaxando e pássaros-azuis-da-montanha. Incêndios florestais naturais também devem fazer parte do cenário imaginado. Ao longo de milhões de anos, as florestas do oeste da América do Norte se adaptaram às queimadas rotineiras causadas por raios, permitindo a manutenção de uma variedade de plantas antigas, de meia-idade e jovens, que sustentam uma enorme quantidade de espécies animais.

Muitos dos animais que formam seus lares nessas florestas dependem do distúrbio causado pelas chamas — ou pelo menos conseguem tolerá-lo. Um deles é o pica-pau-de-dorso-preto, que há décadas é considerado um ótimo exemplo de uma espécie que requer áreas queimadas para sobreviver. Ele se alimenta principalmente das larvas de besouros que colonizam árvores mortas e em decomposição após os incêndios florestais e abre buracos em árvores mortas para fazer seus ninhos.
E, embora essa espécie realmente dependa de áreas queimadas, o que ela realmente precisa é de pirodiversidade — um mosaico de áreas queimadas e não queimadas. Em um estudo publicado em 6 de agosto na revista científica The Condor, os pesquisadores estudaram como os habitats afetam a escolha dos locais de nidificação dos pica-paus. Eles observaram que os pica-paus-de-dorso-preto preferem fazer ninhos ao longo do limite de áreas queimadas, a cerca de 500 metros de áreas com árvores vivas e preservadas.
“Estamos descobrindo que a pirodiversidade é um componente realmente importante do habitat dos animais silvestres após um incêndio”, diz o autor principal do estudo, Andrew Stillman, estudante de pós-graduação em ecologia e biologia evolutiva da Universidade de Connecticut. Embora os incêndios florestais estejam se tornando cada vez mais comuns, a pirodiversidade é menor porque os incêndios estão mais intensos e maiores do que costumavam ser, resultando em uma zona de queima mais homogênea. Stillman diz que compreender os impactos ecológicos desses novos tipos de incêndios florestais é primordial para ajudar na recuperação dos animais após as queimadas e ajudar os proprietários de terras a equilibrar as demandas da vida selvagem e dos seres humanos.

Incêndios mais intensos que se propagam mais rápido

Os padrões de queima florestal mudaram consideravelmente nos últimos anos. Além dos incêndios naturais, as florestas também precisam enfrentar incêndios iniciados pelo homem, de forma intencional e acidental. E devido a mais de um século de práticas que visam a evitar incêndios, muitas florestas agora contêm enormes reservas de combustível não queimado. Isso significa que quando ocorrem incêndios, eles tendem a ser mais intensos e a durar mais, além de fazer com que a propagação ocorra mais rapidamente.
“Será difícil encontrar um cientista que diga que a supressão de incêndios, do jeito que foi realizada, é uma coisa boa”, diz Gavin Jones, ecologista da vida selvagem da Universidade da Flórida, que não participou do estudo. Quando os incêndios florestais seguem o seu curso, a floresta se regenera naturalmente, proporcionando habitat para espécies como pica-paus-de-dorso-preto e veados-mulas, que gostam de procurar alimento em meio à rebrota de plantas após um incêndio.
Acrescente secas prolongadas e verões mais longos e mais quentes — ambos consequências das mudanças climáticas — e temos uma receita para um tipo de queimada muito diferente daquele ao qual o ecossistema se adaptou. Até mesmo para espécies adaptadas ao fogo, como o pica-pau-de-dorso-preto, esses novos incêndios podem se tornar muito frequentes e muito severos — embora, pelo menos por enquanto, a sobrevivência dos filhotes não pareça estar sendo gravemente afetada, segundo o estudo.

Cobertura florestal

Os pesquisadores acreditam que ao fazerem ninho próximo ao limite da floresta queimada, os pica-paus-de-dorso-preto estejam garantindo a possibilidade de vigiar seus filhotes depois que eles aprendem a voar.
Os pais usam as áreas queimadas porque podem encontrar, em madeiras mortas e queimadas, as larvas de besouros que tanto adoram comer. “Mas os filhotes, assim que saem do ninho, vão direto a áreas [com queimadas] de baixa intensidade”, diz Stillman. Ele suspeita que a cobertura extra oferecida pelos densos dosséis florestais os ajuda a evitar a predação por aves de rapina durante um dos períodos mais vulneráveis de suas vidas.
Jones diz que essas descobertas “conferem algumas nuances importantes ao conhecimento que temos sobre o habitat do pica-pau-de-dorso-preto e nos oferecem a possibilidade de descobrir o que deve ser feito em áreas afetadas por incêndios para alcançar múltiplos objetivos, que às vezes competem uns com os outros”.
De fato, Stillman ressalta que os proprietários de terras podem usar essas informações para equilibrar as necessidades de espécies adaptadas ao fogo, incluindo os pica-paus-de-dorso-preto, com atividades pós-incêndio, como a extração de madeiras não afetadas.
Fonte: National Geographic

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Desmatamento na Amazônia é ‘perda irreparável’, diz especialista em recuperação ambiental.

É possível recuperar áreas desmatadas da Amazônia?
Na hipótese mais otimista, sim, mas seriam necessários, no mínimo 20 anos. No pior – e mais comum – dos cenários, no entanto, a floresta destruída nunca voltará a ser o que era antes, segundo Jerônimo Sansevero, professor do Departamento de Ciências Ambientais do Instituto de Florestas da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).
“Estamos tendo uma perda irreparável. Nunca tivemos uma perda tão alta nas últimas três décadas”, afirmou.
A Amazônia brasileira perdeu mais de uma Alemanha em área de floresta entre 2000 e 2017. São cerca de 400 mil km² a menos de área verde, de acordo com estudo de uma equipe de pesquisadores da Universidade de Oklahoma publicado na revista científica Nature Sustainability.
O resultado é mais que o dobro da área de 180 mil km² registrada no mesmo período pelo sistema de monitoramento de desmatamento anual adotado pelo Inpe.
Especialista em restauração ambiental, Sansevero explica que a chance de recuperação da área desmatada depende, primeiro, do tamanho do impacto causado na vegetação original.
E compara à superação de um trauma para o ser humano. “Alguns traumas a gente consegue superar, mas outros têm um impacto tão grande que você não consegue voltar ao que era antes.”
Nas áreas em que o solo foi afetado de forma muito forte – com mineração, por exemplo -, dificilmente haverá a recomposição da vegetação original, segundo ele.
Em locais onde houve uma agricultura de baixo impacto – sem uso de queimadas e de máquinas -, as chances de recuperação são maiores.

Incerteza climática não ajuda

Os especialistas usam o termo “resiliência” para descrever essa capacidade de recuperação. E Sansevero diz que, infelizmente, é a “menor parte” das áreas destruídas que tem esse potencial de retomar as condições anteriores.
“Estamos falando de uma menor parte que conseguiria se recuperar em 20 anos. As outras áreas já perderam essa capacidade porque já têm desmatamento em larga escala.”
Um fator fundamental para a recuperação é a proximidade a uma área de floresta, que serve como fonte de sementes e frutos que podem dar origem a novas plantas na área destruída.
Outra questão importante é o clima. Segundo Sansevero, áreas naturalmente mais secas têm menor capacidade de recuperação.
“Ou seja, se a gente considera o cenário de incerteza do que vai ocorrer com clima, isso também gera incerteza do que vai acontecer com esse potencial de recuperação. À medida que o clima passa a ficar mais seco, vamos perder essa resiliência.”

‘Alerta’

O fenômeno que deixou o céu de São Paulo escuro durante a tarde de segunda-feira funcionou como um alerta até “para quem não é sensível ao tema”, segundo o engenheiro florestal Eraldo Matricardi. O recado, ele diz, é que os impactos ambientais do que acontece na Amazônia atingem todas as regiões do país.
“Não dá para achar que uma região está desconectada da outra. É bom ficar de olho no que acontece com o vizinho porque pode afetar o seu quintal”, afirmou.
Dados do Inpe mostram ainda que o número de focos de incêndio no Brasil este ano (do primeiro dia de janeiro a 19 de agosto), 72.843, já é 83% maior que no ano passado. Os maiores crescimentos de 2018 para 2019 estiveram no Mato Grosso do Sul (+256%); Pará (+199%); Acre (+196%); e Rondônia (+190%).
Professor da Universidade de Brasília (UnB) e especialista em degradação e incêndios florestais, Matricardi diz que o aumento das queimadas no Brasil é resultado de fator climático e da ação humana, com o desmatamento para explorar áreas para plantio.
Ele compara a decisão de queimar o solo – que gera nutrientes em um primeiro momento – à ingestão de bebida alcoólica. “Em um primeiro momento, traz um benefício, mas depois vem a realidade. É como quando você bebe: primeiro vem a felicidade, mas a hora que passa o efeito vem a ressaca.”
Como o fogo transforma material orgânico em inorgânico, ele diz, acaba gerando nutrientes para as plantas. “Mas quando ocorre um incêndio, você tem uma bomba de nutrientes, que as plantas não conseguem absorver e isso vai para rios.”
E as consequências das queimadas são devastadoras, afetando solo, vegetação e os animais no local, além de causar efeitos com alcance global.
“Ao fazer a queimada, você está emitindo carbono, engrossando camada dos gases do efeito estufa e, por sua vez, aumentando possibilidade de mudanças climáticas no mundo”, diz Matricardi.
Fonte: BBC

Rondônia por um dia: aumento de queimadas muda cor da tarde de São Paulo.

Assim Josélia Pegorim, meteorologista do Climatempo, resume a segunda-feira, dia 19, marcada, para os moradores de diversas partes do Estado de São Paulo, inclusive a capital, por um céu amarelado e repleto de nuvens. Por volta das 15h, o céu se mostrava tão escuro que, para alguns, já parecia noite.

A comparação do Estado do Sudeste com o do Norte tem um denominador comum: a fumaça proveniente de queimadas, intensificadas no país entre julho e setembro. As partículas geradas por estes incêndios explicam a cor amarelada, de tons de cinza e ocre, vista em São Paulo – não só na Grande São Paulo, como em pontos do litoral e dos Vales do Ribeira e Paraíba.
Já a escuridão, segundo meteorologistas consultados pela BBC News Brasil, está associada também à própria frente fria que fechou o tempo para os paulistas.
Enquanto isso, como exemplificou Pegorim, os moradores de Rondônia estão habituados a ver e a sentir os efeitos das queimadas, muitas vezes associadas ao desmatamento. Segundo dados de satélites do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o Estado é o quinto no país que mais teve focos de incêndio este ano: 5.533. Nos primeiros lugares, estão Mato Grosso (13.682); Pará (9.487); Amazonas (7.003); e Tocantins (5.751).
Dados do Inpe mostram ainda que o número de focos no Brasil este ano (do primeiro dia de janeiro a 19 de agosto), 72.843, já é 83% maior que no ano passado. Os maiores crescimentos de 2018 para 2019 estiveram no Mato Grosso do Sul (+256%); Pará (+199%); Acre (+196%); e Rondônia (+190%).
A fuligem associada à baixa umidade deste período do ano é um cenário de alerta para a saúde da população e também para o transporte aéreo – no último dia 16, um voo da Latam precisou desviar da fumaça que rondava a capital rondoniense, pousando em Manaus (AM) em vez de Porto Velho (RO).
Mas especialistas defendem que as condições climáticas da época de seca favorecem os focos de incêndio, mas que o determinante para um aumento seria a ação humana, como na imprudência de jogar fora uma bituca de cigarro ao ato intencional de usar o fogo para desmatar ou se livrar do lixo.
Pegorim diz que nos últimos dias, foi possível observar através de satélites grandes incêndios ocorrendo nos Estados do Acre e Rondônia e nos países vizinhos Bolívia e Paraguai.
“No fim da semana passada, principalmente na sexta-feira (16), dava pra ver nitidamente uma pluma de fumaça descendo em direção ao Sul do Brasil. O fluxo dos ventos virou de tal forma que trouxe a fumaça, mas isso não estava previsto”, explicou por telefone à BBC News Brasil.
Segundo a meteorologista, no fim de semana, a fumaça chegou ao Rio Grande do Sul, subindo depois para o Paraná e Mato Grosso do Sul e, então, São Paulo.
Já Marcelo Celutti, meteorologista no Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), é cauteloso ao precisar a origem da fumaça que chegou ao território paulista – ele destaca que há focos por “toda parte” do país, inclusive da própria São Paulo, apesar de concordar que as partículas que visitaram o Estado devem ter vindo do interior do país e de países vizinhos.
“Muito provavelmente teve a influência também do fenômeno da inversão térmica, bem típico em São Paulo e nessa época do ano. É como ter uma panela com água fervendo e colocar uma tampa: fica tudo retido embaixo dela. Se você tem fumaça, ela não se dispersa para o alto, mas fica confinada em uma camada de 2 km, a parte mais baixa da atmosfera”.
A nebulosidade, causa da “noite” precoce no Estado do Sudeste, foi por sua vez resultado da combinação de uma massa de ar polar com ventos úmidos vindos do mar.
“A escuridão tem mais a ver com o tipo de nuvens, muito baixas e pesadas, e com o final da tarde, já que nessa época do ano anoitece mais cedo”, explica Celutti.
Fonte: BBC

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Desmatamento na Amazônia seria o dobro do registrado pelo Inpe, aponta estudo de universidade americana.

A Amazônia brasileira perdeu mais de uma Alemanha em área de floresta entre 2000 e 2017. São cerca de 400 mil km² a menos de área verde, de acordo com estudo de uma equipe de pesquisadores da Universidade de Oklahoma publicado na revista científica Nature Sustainability.
O resultado apontado é mais que o dobro da área de 180 mil km² registrada no mesmo período pelo sistema de monitoramento de desmatamento anual adotado pelo Inpe, o Programa de Monitoramento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite (Prodes).
O conceito de floresta desmatada e a qualidade das imagens analisadas pelo satélite utilizado na nova pesquisa, com menos interferência de nuvens e sombras, são apontados como fatores para a discrepância nos resultados.
O mesmo estudo diz ainda que o tamanho de toda floresta na Amazônia é subdimensionado em 15%. Dados sobre desmatamento servem de base para a elaboração de políticas públicas e acordos internacionais do governo brasileiro.
O artigo revela ainda que as unidades de conservação da Amazônia perderam 20 mil km² de floresta entre 2000 e 2017. Daria para colocar quase quatro Brasílias nesse espaço.
Mas a pesquisa aponta um avanço no reflorestamento entre 2001 e 2013. Considerando reflorestamento como áreas verdes regeneradas e que assim permaneceram por pelo menos quatro anos, a Amazônia teve um ganho de 21% de floresta do que foi desmatado no mesmo período.

O método

O método utilizado pelos pesquisadores da Universidade de Oklahoma considera dados de um radar (PALSAR), que obtém imagens mesmo com presença de nuvens, adicionados a imagens diárias de um satélite (MODIS).
Os dados são analisados em um algoritmo que considera um pixel como área verde ou não-verde durante o ano inteiro. O estudo afirma que 99,7% dos pixels analisados por esse método, chamado de PALSAR/MODIS, apresentaram boa qualidade para análise.
Por outro lado, a pesquisa aponta que no sistema de monitoramento adotado pelo Inpe, o Prodes, que utiliza principalmente um satélite (LANDSAT) que faz imagens de uma determinada área a cada 16 dias, teve entre 5% e 15% das imagens cobertas por nuvens ou sombras.
Nesses casos, analistas do Inpe fazem análise visual de imagens de outros três satélites (LANDSAT 8/OLI, CBERS 4 e IRS-2) para calcular uma estimativa de perda de floresta nas áreas cobertas. Em seu site, o Inpe afirma que “a estimativa do desmatamento sob nuvens corresponde em média a apenas 5%”.
Essa imprecisão nas imagens ainda seria responsável por um subdimensionamento da floresta amazônica. O método PALSAR/MODIS identificou 3.750.000 km² de floresta em 2010, um número 15% maior do que o Prodes apontou no mesmo ano.
Xiangming Xiao, chefe da pesquisa e professor doutor do Centro de Análises Espaciais da Universidade de Oklahoma, explica que outros estudos já haviam apontado inconsistências nos dados do Prodes, mas pela primeira vez isso é mostrado com imagens de melhor qualidade.
“Pesquisas anteriores já identificaram as imprecisões nos dados do Prodes, no entanto, essas publicações atribuíram os problemas sob a perspectiva de algoritmos e relatórios. Nosso artigo avança este argumento principalmente da perspectiva dos dados com qualidade melhor de imagem, o que garante que nossa análise de dados tenha poucas lacunas”, diz o professor Xiao, que começou a se envolver em projetos de monitoramento da Amazônia em 2002.
Foram quatro anos de monitoramento e análise de dados para que os 14 pesquisadores apresentassem os resultados sobre desmatamento na Amazônia. Dois brasileiros, servidores da Divisão de Sensoriamento Remoto do Inpe, Yosio Shimabukuro e Egidio Arai, participaram dos estudos.

Conceitos diferentes sobre floresta

Além da qualidade das imagens de satélite e o tipo de algoritmo utilizado na análise dos dados, os pesquisadores afirmam que a definição de cobertura florestal interfere no resultado final.
Na pesquisa da Universidade de Oklahoma eles consideram a perda de área verde como desmatamento. Já o Prodes utiliza apenas o conceito de floresta primária para desmatamento.
Ou seja, após uma área ser desmatada, mesmo que ela seja reflorestada posteriormente, essa área não é mais analisada pelo sistema de monitoramento, explica o pesquisador Carlos Souza, do Imazon, instituto que faz análises sobre desmatamento na Amazônia.
“Uma vez que detecta o desmatamento, o Prodes não olha mais aquela área. Ele só indica desmatamento de floresta primária. O Imazon fez um estudo utilizando uma metodologia que chamamos de MapBiomas, com imagens do satélite LANDSAT, que apontou 12 milhões de hectares (120 mil km²) de floresta em regeneração em 2017”, diz Souza.
Para Claudio Almeida, chefe da Coordenação do Programa Amazônia (COAMZ), departamento do Inpe que faz o monitoramento de imagens da Amazônia, ela “tem hoje cerca de 20% de sua área em algum grau de regeneração, isso representa aproximadamente 140 mil km²”.
“No Prodes nós consideramos essa área como uma máscara que não é analisada. Essa parte da verificação é feita por outro sistema do Inpe, o Terraclass, que monitora a ocupação da terra após o desmatamento”, afirma Almeida.

Dinâmica da floresta

A pesquisa faz ainda uma análise da dinâmica do desmatamento na floresta. Em 2010 e entre 2015 e 2016, houve um crescimento acentuado no desmatamento por fatores climáticos.
O El Niño trouxe um clima mais seco para a região, o que facilitou a propagação de queimadas, que em média são responsáveis por 70% do desmatamento de áreas verdes na Amazônia. Em anos secos o total desmatado chegou a 3,7 vezes a área de perda de floresta em anos mais chuvosos. A própria dinâmica de desmatamento ilegal estaria facilitando anos mais secos.
“Estudos anteriores apontam que a degradação da floresta por incêndios e extração seletiva de madeira reduzem a resistência à seca, o que aumenta as chances de desmatamento. Portanto, reduzir o fogo induzido pelo homem e a extração de madeira poderia ajudar”, aconselha o professor doutor Yuanwei Qin, que também liderou a pesquisa.
O professor Qin ainda lembra que as análises apontaram que 90% dos desmatamentos ocorreram em até 5 km de proximidade de áreas que já tinham sido desmatadas antes de 2002. Para o cientista, isso demonstra que “o grau de atividade antrópica (alterações realizadas pelo homem) impulsiona a perda da floresta na Amazônia brasileira”.

Sistemas diferentes e histórico de dados

Para Carlos Souza, do Imazon, métodos diferentes de monitoramento da floresta demonstram avanços no acompanhamento de desmatamentos. O instituto divulgou na semana passada resultado do SAD (Sistema de Alerta de Desmatamento), que indicou que a Amazônia perdeu 5 mil km² de floresta nativa nos últimos 12 meses.
O método adotado pelo Imazon também é diferente do Prodes e do DETER, este um sistema em tempo real de alerta de alterações na cobertura vegetal acima de três hectares.
“Essa pesquisa de Oklahoma traz um novo tipo de informação. A comunidade científica é sempre aberta para isso, mas são dados científicos. Para se aprofundar mais, e posteriormente criar um sistema operacional, é preciso se aprofundar mais na pesquisa. Outros trabalhos já tinham apontado que o desmatamento na Amazônia é maior do que o Prodes estima, mas não o dobro como este caso”, afirma Souza.
Em julho, o presidente Jair Bolsonaro criticou publicamente dados do DETER, que, para ele, “não condizem com a realidade”. O caso resultou na demissão do diretor do Inpe, Ricardo Galvão, e teve repercussão internacional.
O estudo de Oklahoma adotou 2000 como ano de referência (ou linha de base, como os pesquisadores chamam). Já o PRODES possui uma referência mais antiga e Souza explica que esse é um fator importante do método brasileiro, apesar das limitações e da necessidade de melhorias.
“O valor do Prodes é que temos uma série longa de dados, desde 1988. Muitas políticas públicas foram pensadas com base nessas informações, metas que o governo colocou de emissões associadas a desmatamento foram feitas tomando esses dados como referência, então tudo isso é importante. Qualquer método adicional, que vai trazer melhorias, precisa considerar essa dimensão temporal”, diz Souza.
O chefe do monitoramento na Amazônia, Claudio Almeida, diz que o órgão acompanha estudos sobre o tema de forma permanente, mas também reforça a importância da série histórica do Prodes.
“O Inpe faz o monitoramento operacional do bioma, mas também tem um lado de pesquisa até pela formação da equipe. Então é comum ter pesquisadores do órgão participando ou acompanhando estudos de fora. Desde 1988 o Prodes incorporou alguns elementos de inovações propostas pela academia, mas não podemos mudar tudo porque esse fator histórico nos permite comparações importantes com a floresta no passado. No caso dessa pesquisa da Universidade de Oklahoma vejo que é um bom método para analisar áreas maiores, mas o Prodes ainda é melhor para avaliar desmatamento em locais específicos”, avalia Almeida.
Fonte: BBC

Más notícias para o clima: julho foi o mês mais quente já registrado na Terra.

A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA afirmou que julho de 2019 foi o mês mais quente que o planeta já viu desde que os registros de temperatura global começaram a ser computados, em 1880. Ou seja, estamos falando de 140 anos de dados.

“A temperatura média global em julho foi 0,95 graus Celsius acima da média do século XX de 15,8 graus Celsius, tornando-o o mês mais quente de julho no registro”, disse a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica em comunicado.
O antigo recordista era o mês de julho de 2016, apenas 0,03 graus Celsius mais frio que julho de 2019.

Médias globais

Mês que inaugura o verão no hemisfério norte, este ano julho trouxe uma onda de calor pela Europa.
Além disso, a Groelândia sofreu grandes derretimentos e a cobertura de gelo dos polos Ártico Antártico atingiram recordes negativos.
As médias de temperatura mais incomuns foram vistas no Alasca, no oeste do Canadá e no centro da Rússia, locais que viram temperaturas cerca de 2 graus Celsius acima da média.
O mapa abaixo mostra a situação da temperatura no mundo no mês passado: azul escuro é recorde de temperatura mais baixa; azul, muito mais frio que a média; azul claro, mais frio que a média; branco, na média; vermelho claro, mais quente do que a média; vermelho, muito mais quente que a média; e vermelho escuro, temperatura mais alta já registrada naquela localidade.

Ações urgentes precisam ser tomadas

Infelizmente, esses números mostram que os governos não estão fazendo o seu máximo para controlar a mudança climática.
Ano passado, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) afirmou ser crucial impedir que as temperaturas globais subissem mais do que 1,5 graus Celsius em relação à média.
“Uma das principais mensagens deste relatório é que já estamos vendo as consequências do aquecimento global através de condições meteorológicas extremas, aumento do nível do mar e diminuição do gelo marinho do Ártico, entre outras mudanças”, explicou Panmao Zhai, do IPCC, na ocasião do lançamento do relatório em 2018.
Já estamos em desvantagem; agora, o que nos resta é fazermos a nossa parte pelo planeta, e cobrar nossos governantes para fazerem as deles, também. [Cnet, LiveScience]
Fonte: Hypescience

terça-feira, 20 de agosto de 2019

Dugongo, animal marinho ‘primo’ do peixe-boi, morre depois de engolir pedaços de plástico.

Um dugongo, uma espécie de mamífero marinho, morreu na Tailândia depois de ter ingerido pedaços de plástico. O animal tinha ficado famoso no início do ano depois de ter sido resgatado em uma praia.

O dugongo se chamava Mariam e morreu neste sábado, vítima de uma infecção causada por pedaços de plástico que acabaram revestindo seu estômago, segundo autoridades locais.
Mariam ficou famosa na internet depois que imagens a mostraram brincando com as equipes que a resgataram depois que ela ficou encalhada em uma praia, em abril.
Hoje existem apenas algumas centenas de dugongos na Tailândia – a espécie é “prima” do peixe-boi. O dugongo é considerado vulnerável à extinção, segundo lista publicada pela União Internacional para a Conservação da Natureza em 2015.
Mariam tinha apenas oito meses e há uma semana começou a apresentar sintomas graves de infecção. Doente, ela se recusou a comer outros alimentos. O dugongo morreu por volta da meia-noite deste sábado depois de entrar em choque. Os esforços para ressuscitá-la não deram certo, segundo as autoridades da Tailândia.
Chaiyapruk Werawong, chefe do parque marinho da província de Trang, disse à agência de notícias AFP que o animal estava bastante debilitado. “Ela morreu de uma infecção no sangue, além de apresentar pus no estômago”.
Durante uma autópsia, vários pedaços de plástico, incluindo um de 20 centímetros, foram encontrados dentro do estômago do mamífero.
“Todos estão tristes com a perda. Precisamos salvar o meio ambiente para salvar esses animais raros”, disse Nantarika Chansue, uma das veterinárias que trataram Mariam.
Em abril, Mariam apareceu em vídeos ao vivo ao lado de Jamil, outro dugongo resgatado logo depois dela. As imagens mostraram que ela estava sendo alimentada e recebendo tratamento de veterinários.
Neste sábado, após a notícia, muitas pessoas compartilharam nas redes sociais sua tristeza com a morte do dugongo.
No ano passado, uma baleia-piloto também morreu na costa da Tailândia depois de comer mais de 80 sacolas plásticas.
O animal marinho chegou a vomitar cinco sacolas durante uma tentativa de salvamento realizada por funcionários de conservação em um canal da província de Songkhla. As 80 sacolas pesavam cerca de oito quilos. Elas impediram que a baleia conseguisse se alimentar de outras formas, segundo a marinha tailandesa afirmou na época.
As mortes desses animais são mais um sintoma do crescimento da poluição nos oceanos. Um relatório sobre o futuro dos mares, divulgado recentemente pelo governo do Reino Unido, alertou que a quantidade de plástico no mar pode triplicar em uma década, a menos que o lixo seja contido.
Cinco nações asiáticas – China, Indonésia, Filipinas, Vietnã e Tailândia – respondem por até 60% do lixo plástico que acaba nos oceanos, de acordo com um relatório de 2015 da Ocean Conservancy e do McKinsey Center for Business and Environment.
Com esse tipo de resíduo despejado na água em uma escala que chega a milhões de toneladas por ano, desde plânctons minúsculos até baleias enormes acabam ingerindo esse material acidentalmente ao se alimentar ou ao confundi-lo com o próprio alimento. A explicação de pesquisadores é que o plástico não só parece, mas também tem cheiro de comida.
Acredita-se que o plástico seja responsável por milhares mortes de animais todos os anos.
Fonte: BBC