terça-feira, 13 de março de 2018

Por que a Nova Zelândia está liberando um vírus para matar coelhos

Grupos de fazendeiros comemoraram a medida, enquanto outros grupos demonstraram preocupação – por exemplo, com os possíveis riscos que a medida pode significar para coelhos de estimação e com o sofrimento dos animais infectados.
Por que os coelhos são um problema na Nova Zelândia?
Os animais começaram a aparecer na Nova Zelândia por volta de 1830, e não é de hoje que criam problemas para fazendeiros.
Os coelhos selvagens competem com o gado pelo pasto e danificam a terra com seu hábito de cavar.
De acordo com o Ministério das Indústrias Primárias – MPI, na sigla em inglês (similar a um Ministério da Agricultura) -, coelhos custam uma média de 50 milhões de dólares neozelandeses (cerca de R$ 116 milhões) em perdas de produção e mais de 25 milhões de dólares neozelandeses (R$ 80 milhões) em medidas de controle de pragas.
Como controlar a população de coelhos?
Os principais métodos são a caça, a intoxicação, a fumigação de tocas e, a medida menos drástica, a instalação de cercas “à prova” de coelhos.
No entanto, autoridades argumentam que o problema ficou tão grande que essas soluções não são suficientes.
Uma primeira estirpe da doença hemorrágica viral do coelho (RHDV, na sigla em ingês) foi introduzida na Nova Zelândia em 1997.
O vírus, que só afeta coelhos e não outros animais, era muito eficiente no início, mas depois de mais de 20 anos, os coelhos se tornaram imunes a ele.
O que será lançado no mês que vem é uma nova estirpe coreana, conhecida como RHDV1-K5.
Ela afeta os órgãos internos do animal, causando febres e espasmos, coágulos sanguíneos e problemas respiratórios. De acordo com o MPI, essa estirpe age de maneira mais rápida, matando coelhos em um prazo de apenas dois a quatro dias após a infecção.
Como foi a reação?
As pessoas estão divididas. A Federação de Fazendeiros da Nova Zelândia afirma que a medida traz um “alívio enorme”.
“Há muitos fazendeiros desesperados por aí”, disse o porta-voz Andrew Simpson à BBC.
“Se mais um ano passasse sem o uso do vírus, o prejuízo ecológico para algumas propriedades seria incalculável”.
Mas Arnja Dale, da Sociedade de Prevenção contra a Crueldade dos Animais, disse que a decisão de liberar o vírus foi muito frustrante, levando em consideração o “sofrimento que isso irá causar para coelhos infectados e o risco que representará para coelhos domesticados”.
“Nós defendemos o uso de métodos mais humanos”, ela disse.
A entidade afirma ainda que a vacina que está disponível para coelhos de estimação não foi “testada de maneira adequada e não tem evidências suficientes de que irá oferecer a proteção necessária a eles.”
No entanto, segundo o MPI, coelhos domésticos vacinados estarão a salvo. O órgão afirmou que o RHDV1-K5 foi liberado na Austrália no ano passado sem qualquer relato de problemas de coelhos vacinados morrendo por conta do vírus.
Fonte: BBC

sexta-feira, 9 de março de 2018

O que a árvore mais solitária da Terra pode revelar sobre a humanidade

Há um movimento na comunidade acadêmica para escolher um marco para a chamada “grande aceleração”, período em que os impactos humanos no mundo se intensificaram repentinamente e se tornaram globais. Isso aconteceu depois da 2ª Guerra Mundial (1939-1945) e um dos exemplos mais marcantes é a produção de plástico em larga escala.
Chirs Turney, da Universidade de New South Wales, na Austrália, argumenta que a árvore neozelandesa capturou essas mudanças de forma requintada na composição química de seus anéis de crescimento.
“Estamos colocando a árvore como uma séria candidata para marcar o início do Antropoceno. Tem que ser algo que reflita um sinal global”, diz.
“O problema com qualquer registro do Hemisfério Norte é que eles refletem um lugar onde a maior parte da atividade humana aconteceu. Mas essa árvore é um registro de longo alcance da natureza em relação a essas atividades, e nós não podemos pensar em nenhum lugar mais remoto”, avalia Turney.
Além disso, a ilha neozelandesa localizada no Pacífico Sul não é o habitat natural dessa árvore. Ela é originária de latitudes mais elevadas na parte norte do oceano. Mas foi plantada na ilha do subártico em 1905, possivelmente com a intenção de se começar uma plantação.
A árvore mais próxima está a 200 quilômetros, em outra ilha a noroeste, de acordo com os especialistas.
Elemento radioativo
Turney e os colegas da universidade australiana fizeram um furo fino para acessar a parte central do tronco da árvore, que possui anéis de crescimento bem largos e delimitados, para examinar a composição química da madeira.
Eles encontraram um aumento significativo na quantidade de carbono-14, elemento usado para determinar a idade de fósseis, na parte do anel que representa a segunda metade de 1965.
Identificaram um pico da forma radioativa do elemento e, para eles, isso se trata de um sinal inequívoco dos testes nucleares que ocorreram no período pós-guerra.
O radioisótopo radioativo (núcleo atômico instável que emite energia) teria sido incorporado na árvore como dióxido de carbono por meio da fotossíntese.
Mark Maslin, da universidade britânica UCL (University College London), afirma que a data identificada é posterior à proibição de testes nucleares na atmosfera, em 1963. Mas, segundo ele, é um indicador de que as consequências das detonações anteriores realmente alcançaram o mundo inteiro e foram absorvidos pela biosfera do planeta.
“Se você quer representar o Antropoceno com o início da Grande Aceleração, então esse é o registro perfeito para defini-lo. E o que é realmente bom é que nós plantamos a árvore onde ela não deveria estar. E isso nos dá um lindo registro do que fizemos no planeta”, observa Maslin.
Revisão da linha do tempo da Terra
A comunidade geológica está, no momento, avaliando como a atualização da linha do tempo oficial da história geológica da Terra, chamado de diagrama cronoestratigráfico de Wheeler e que aparece em livros de ciências.
Um grupo de trabalho encarregado de liderar a discussão sobre esse novo marco concluiu recentemente que a atual escala de tempo geológico, chamada de Holoceno iniciada há 11,7 mil anos, não poderia mais englobar as imensas mudanças que ocorreram na Terra como resultado da atividade humana.
Esse grupo diz ser necessário intensificar a busca por um marcador adequado para o início desse novo momento da linha de geológica do tempo.
Para comparação, o início do Holoceno, por exemplo, o marco é a perfuração do manto de gelo da Groelândia – ela mostra o quanto planeta já se aqueceu desde a última Era do Gelo.
Já o período Cretáceo-Paleogeno remonta a 66 milhões de anos atrás, quando um asteroide atingiu a Terra e eliminou os dinossauros – o marco é um afloramento de rocha na Tunísia, que contém um forte vestígio de irídio e surgiu pelo impacto do asteroide.
Especialistas dizem que é fundamental escolher um marco duradouro para delimitar a barreira entre o período Honoceno-Antropoceno. Seria preciso um marco para o qual os geólogos pudessem apontar daqui um milhão de anos e dizer: “lá está o início do Antropoceno”.
“O radiocarbono persiste em quantidades mensuráveis na ordem de 50 mil a 60 mil anos. Depois disso, outros radioisótopos associados aos testes de bombas, como o plutônio, ainda estariam lá no ambiente natural, preservando o sinal”, explica Chris Turney.
Segundo ele, arquivos da madeira coletada da árvore solitária podem ser consultados na universidade em que trabalha em Sidney, na Austrália, em um museu e em uma galeria de arte em Invercargill, na Nova Zelândia.
“As pessoas podem visitar e colocar o dedo no marco que estamos sugerindo para começar o Antropoceno.”
Turney é um dos autores de um artigo sobre a árvore, da espécie Picea sitchensis, na revista científica Scientific Reports.
Fonte: BBC

quinta-feira, 8 de março de 2018

Em Dia Mundial da Água, ONU defende soluções para problemas hídricos baseadas na natureza

Atualmente, 1,8 bilhão de pessoas consomem água de fontes que não são protegidas contra a contaminação por fezes humanas. Mais de 80% das águas residuais geradas por atividades do homem — incluindo o esgoto caseiro — são despejadas no meio ambiente sem ser tratadas ou reutilizadas. Até 2050, a população global terá aumentado em 2 bilhões de indivíduos, e a demanda por água poderá crescer até 30%.
A agricultura é responsável por 70% do consumo de recursos hídricos — a maior parte vai para a irrigação das plantações. A participação do setor agrícola aumenta em áreas com maior densidade populacional e falta d’água. O campo é seguido pela indústria, que responde por 20% da água utilizada em atividades humanas. O uso doméstico representa apenas 10% do consumo total, e a proporção de água potável que é bebida pela população equivale a menos de 1%.
Com as transformações do clima e a manutenção de padrões insustentáveis de produção, a poluição e a desigualdade na distribuição vão se agravar, bem como os desastres associados à gestão da água.
Hoje, 1,9 bilhão de indivíduos vivem em áreas que poderão ter escassez severa de água. Até 2050, o número pode chegar a cerca de 3 bilhões. A quantidade de pessoas em zonas de risco para enchentes também aumentará, passando do atual 1,2 bilhão para 1,6 bilhão, o que representará 20% da população mundial em 2050. Aproximadamente 1,8 bilhão de pessoas já são afetadas pela degradação da terra e pelo fenômeno conhecido como desertificação.
Anualmente, a erosão do solo desloca de 25 bilhões a 40 bilhões de toneladas de camadas vegetais — o que reduz de forma significativa a produção das safras e a capacidade da terra de regular quantidades de água, carbono e nutrientes. Os rejeitos escoados do solo erodido, contendo nitrogênio e fósforo, são um dos principais poluentes dos recursos hídricos.
Soluções baseadas na natureza
Para reverter esse cenário, a ONU celebra o Dia Mundial da Água com o tema “A natureza pela água”, um chamado em prol de soluções para questões hídricas baseadas na natureza. Mas o que são essas estratégias? São iniciativas que focam na gestão de recursos ambientais, como vegetações, solos, mangues, pântanos, rios e lagos, utilizados por suas capacidades naturais para o armazenamento e limpeza da água.
A proteção e expansão de zonas pantanosas, bem como a reposição de reservatórios hídricos subterrâneos são duas possibilidades para garantir estoques de água limpa, que são mantidos pelo próprio meio ambiente, com custo menor do que represas construídas pelo homem.
A poluição gerada pela agricultura pode ser reduzida com metodologias de conservação que evitam a erosão do solo por meio da diversificação das culturas. Outra medida é a criação de corredores de proteção vegetal ao longo de cursos d’água, com o replantio de árvores e arbustos nativos nas margens de rios — o que também pode amortecer o impacto de enchentes em comunidades ribeirinhas. Para contornar cheias, a ONU também recomenda reconectar rios a planícies de inundação, a fim de facilitar o escoamento natural da água.
Essas soluções baseadas na natureza criam a chamada “infraestrutura verde”, que são sistemas naturais ou seminaturais capazes de oferecer os mesmos benefícios que a “infraestrutura cinza”, fabricada pelo ser humano.
Programas hídricos inspirados no meio ambiente podem trazer outras vantagens, além de melhorias na gestão da água. Mangues e pântanos criados para a filtragem de águas residuais fornecem biomassa para a produção de energia, ampliam a biodiversidade das comunidades e criam espaços de lazer, gerando mais empregos.
As atividades em comemoração ao Dia Mundial da Água são lideradas pela UNESCO e seu Programa Mundial de Avaliação da Água; pela Organização Internacional do Trabalho (OIT); pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD); pela Universidade das Nações Unidas; pela WWF; pelo Conselho Mundial da Água; pelo Secretariado da Convenção da ONU sobre Diversidade Biológica; pela ONU Meio Ambiente; pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN); pela WaterLex; e pela ONU Água, um organismo de aconselhamento técnico com mais de 30 departamentos, agências e secretariados de convenções das Nações Unidas que atuam na área de água e saneamento.
Fonte: ONU

quarta-feira, 7 de março de 2018

‘Jardins do diabo’: a árvore amazônica que abriga um ‘exército assassino’

A árvore em questão é a duroia (Duroia hirsuta), considerada a favorita dos seres sobrenaturais, de acordo com os nativos. À noite, segundo as lendas, eles limpariam as ervas daninhas do jardim e evitariam que qualquer outra planta no local cresça. Assim, ninguém se atreve a entrar nessas áreas após o pôr-do-sol.
Os cientistas encontraram, no entanto, outra explicação para o fenômeno inusitado, quase tão fascinante quanto a versão dos habitantes da floresta.
Realidade alternativa
As hastes das folhas das árvores têm inchaços por onde entram e saem pequenas formigas Myrmelachista schumanni.
mage captionFormigas vivem dentro do caule da árvore
Essas câmaras são seu habitat, desenvolvido especialmente para elas pelas árvores. A salvo de predadores, as formigas guardam nelas seus ovos e larvas.
Elas contam ainda com um armário de mantimentos: se alimentam do líquido doce de outros pequenos insetos.
Image captionNo interior do caule, inseto branco serve de alimento
A oferta de hospedagem também beneficia a árvore nessa curiosa simbiose, uma vez que as formigas oferecem um serviço valioso: protegê-la de seus inimigos.
Vá comer em outro lugar!
Os insetos se alimentam de maneira geral de folhas de plantas, se têm oportunidade… mas no caso das duroias, protegidas por um exército peculiar, eles não têm vez.
mage captionInseto que se parece com um galho é uma ameaça à árvore que hospeda as formigas
Isso também vale para os insetos de grande porte – alguns chegam a ser milhares de vezes maior do que as formigas. Diante do ‘invasor’, esses soldados minúsculos adotam uma estratégia: identificam seu ponto fraco e atacam, até que ele se renda.
Image captionPor maior que seja, o ‘invasor’ tem um calcanhar de Aquiles… e as formigas sabem disso
Mas as formigas não se encarregam apenas de repelir animais que podem trazer danos à árvore. Talvez o mais surpreendente é que mantêm afastadas também plantas que competem com ela.
Guerra química
Regularmente, pelotões de formigas deixam seus quartéis para patrulhar a vizinhança.
Quando se deparam com um broto novo, fazem uma inspeção. Se descobrem que é da família de seu hospedeiro, deixam-no em paz. Se é um intruso, o ataque começa mordendo seus ramos.
Image captionAlerta, intruso!
Quando chegam os reforços, centenas de pequenas garras ferem a planta constantemente, até que ela comece a murchar.

Image captionAtaque de mordidas
Mas a mordida não é a única arma das formigas. Elas também injetam ácido fórmico nas feridas da vítima.
Image captionInjeção de veneno
O veneno se espalha por meio dos tecidos, acelerando a morte.
Image captionVeneno se dispersa…
Image caption… até que a folha murche
Com sabor
O ácido fórmico é um herbicida orgânico que os seres humanos usam para conservar alimentos, enquanto as urtigas e formigas o utilizam como urticante.
O sabor deste ácido inspirou o nome popular das aguerridas Myrmelachista schumanni: formigas-limão.
Em questão de dias, com a morte dos intrusos, as formigas ampliam seu jardim.
Essa técnica drástica de jardinagem traz benefícios tanto para a árvore quanto para as formigas.
Ao assegurar a seu anfitrião mais espaço para expandir sem competição, as formigas garantem também mais moradias para que possam se reproduzir e aumentar seus exércitos.
Para se ter uma ideia das dimensões, vale resgatar um depoimento que Megan Elizabeth Frederickson, um dos cientistas que estavam investigando o mistério dos ‘jardins do diabo’, deu à imprensa em 2006.
“A maior colônia no campo que eu estou estudando, que acredito datar de 807 anos atrás, tem 1.300 metros quadrados”, escreveu o especialista.
“E é formada por cerca de três milhões de formigas operárias e 15.000 rainhas”.
Fonte: BBC

segunda-feira, 5 de março de 2018

Supremo adia para dia 28 conclusão de julgamento sobre o Código Florestal

A análise foi iniciada em novembro do ano passado, quando o relator dos processos, ministro Luiz Fux, votou para derrubar o perdão de multas e punições criminais concedido na lei a proprietários que, até 2008, haviam desmatado áreas que deveriam ter conservado.
O julgamento foi retomado nesta semana e se estendeu até a sessão desta quinta (22) com o voto de outros nove ministros da Corte: Marco Aurélio Mello, Cármen Lúcia, Alexandre de Moraes, Edson Fachin, Luís Roberto Barroso, Rosa Weber, Dias Toffoli, Ricardo Lewandowski e Gilmar Mendes.
Durante duas sessões, houve ampla divergência entre os ministros sobre a anistia e outras dezenas de regras estabelecidas no Código Florestal.
Só após o último voto, a ser proferido por Celso de Mello no dia 28, a presidente do STF, Cármen Lúcia, proclamará o resultado anunciando o que mudará na lei.
Quando o julgamento começou, em novembro, Fux afirmou que até 2012, ano em que foi aprovado o Código Florestal, o desmatamento no Brasil vinha caindo constantemente. A partir daquele ano, porém, os índices cresceram, atingindo alta de 74,8% em 2016.
“Certamente a anistia das infrações cometidas até 22 de julho de 2008 pode ser apontada como uma das possíveis causas para esse aumento. Ao perdoar infrações administrativas e crimes ambientais pretéritos, o Código Florestal sinalizou uma despreocupação do estado para com o direito ambiental, o que consequentemente mitigou os efeitos preventivos gerais e específicos das normas de proteção ao meio ambiente”, disse.
Na retomada do julgamento nesta semana, vários ministros divergiram de Fux, sob o argumento de que o perdão para quem desmatou além do permitido antes de 2008 foi condicionado à reparação da vegetação devastada, mediante a assinatura de um termo de compromisso com o governo.
“Mesmo para fatos ocorridos antes de 2008, os infratores ficam sujeitos a punição se não aderirem ou descumprirem os ajustes firmados nos termos de compromisso, medidas administrativas suscetíveis de execução, se não recompostas as áreas degradadas, sejam em áreas de preservação permanente ou reserva legal, para que o infrator seja transformado em agente de recuperação das áreas degradadas”, afirmou Cármen Lúcia em seu voto.
Além da anistia, os ministros também analisam outros questionamentos ao Código Florestal, considerado por ambientalistas mais frouxo na preservação da vegetação nativa do que as leis anteriores.
Um dos pontos da nova legislação, também contestado, permite que um proprietário que desmatou além do permitido possa comprar outro terreno preservado e mantê-lo intacto para compensar a perda em sua terra – a chamada compensação ambiental.
O Código Florestal, no entanto, permitiu que esse terreno fosse adquirido no mesmo bioma – mesmo que localizado numa região distante – e não na mesma microbacia, isto é, numa área próxima banhada pelo mesmo rio ou seus afluentes.
Também é questionada a permissão para reduzir as áreas de preservação nas propriedades localizadas em estados onde já existem muitas áreas indígenas e unidades de conservação pública. Outro ponto discutido é a possibilidade de ocupar as áreas de preservação – na beira de rios ou encostas – com lixões ou instalações esportivas, por exemplo.
Fonte: G1

domingo, 4 de março de 2018

A ilha do litoral de São Paulo com a segunda maior concentração de cobras do planeta

A Ilha da Queimada Grande, conhecida como Ilha das Cobras, se destaca ainda por ter a segunda maior concentração desses animais por área no mundo: cerca de 45 cobras por hectare – mais ou menos equivalente ao tamanho de um campo de futebol –, perdendo apenas para a Ilha de Shedao, na China.
Com comprimento e largura máximos de 1.500 e 500 metros, respectivamente, e altitude que não supera os 200 metros, a Ilha das Cobras, de 43 hectares, foi descoberta em 1532, pela expedição colonizadora de Martim Afonso de Souza.
De acordo com as biólogas Karina Nunes Kasperoviczus, hoje na Universidade de Sydney, na Austrália, e Selma Maria de Almeida-Santos, do Instituto Butantan, provavelmente Afonso de Souza e seus oficiais protagonizaram o primeiro caso de depredação do local.
No artigo científico Instituto Butantan e a jararaca-ilhoa: cem anos de história, mitos e ciência, publicado nos Cadernos de História da Ciência, do Instituto Butantan, elas contam que, de passagem pela costa sudeste do Brasil, os navegadores aportaram na ilha, caçaram diversas fragatas e mergulhões e, antes de voltarem aos navios, receosos de má sorte, atearam fogo no local.
Não existe, no entanto, registro de que durante a permanência por lá Martim Afonso de Souza e seus homens tenham tido qualquer contato com a Bothrops insularis.
Segundo Karina e Selma, a prática de atear fogo à ilha se tornou corriqueira algum tempo depois. “No final do século 19, a Marinha do Brasil implantou um farol lá, cuja manutenção era realizada por faroleiros que residiam no local”, escrevem.
“Com medo das serpentes, a própria Marinha colocou por diversas vezes fogo na mata na tentativa de acabar com a população excessiva delas. O nome ‘Queimada Grande’ é resultado dessas recorrentes queimadas, que, por vezes, eram tão fortes que podiam ser avistadas do continente.”
Evolução
A história da Ilha das Cobras é bem mais antiga, no entanto. Ela se formou no final da última era glacial, há cerca de 11 mil anos, quando o nível do mar subiu, separando aquele morro (que fazia parte da Serra do Mar) do continente, transformando-o numa ilha e isolando uma população de jararacas comuns (Bothrops jararaca).
Ao longo dos milhares de anos seguintes, a espécie se diferenciou de suas parentes de terra firme e se transformou na Bothrops insularis.
Segundo o pesquisador e especialista em animais peçonhentos Vidal Haddad Júnior, da Faculdade de Medicina de Botucatu da Universidade Estadual Paulista (Unesp), o isolamento e as condições geográficas da ilha lentamente modificaram as características das cobras em relação às jararacas continentais, criando a nova espécie.
“Ela é menor e menos pesada, para facilitar sua locomoção e a caçada diurna nas árvores”, explica. “Sua cauda adquiriu capacidade preênsil (ou seja, de se agarrar a algo) e a dentição ganhou um aspecto mais curvo, para prender as aves mais facilmente e não soltá-las enquanto o veneno age.”
Para se tornar uma cobra que vive sobretudo em árvores (ou arborícola), a jararaca-ilhoa desenvolveu outras características evolutivas únicas.
“Para subir em árvores, sua pele se tornou mais elástica do que a de suas parentes do continente”, explica Otávio Marques, pesquisador e diretor do Laboratório de Ecologia e Evolução do Instituto Butantan, que realizou várias pesquisas com essa serpente.
“Além disso, como ela ergue mais a cabeça, seu coração ficou mais próximo dessa parte de sua anatomia, para bombear com mais facilidade o sangue para o cérebro.”
Nova espécie
Não é de hoje que o Instituto Butantan estuda a ilha e a jararaca-ilhoa. O primeiro lote dessa espécie foi recebido pela instituição em 1911, enviado pelo zelador do farol, que residia no local, Antônio Esperidião da Silva. Elas logo começaram a ser estudadas pelo herpetólogo João Florêncio Gomes, que não chegou a concluir o trabalho, pois morreu em 1919, aos 33 anos.
O pesquisador Afrânio do Amaral deu continuidade às pesquisas e, em 1922, descreveu cientificamente a nova espécie. “Ele logo descobriu que ela se alimentava quase exclusivamente de pássaros, ao contrário das espécies do continente, que predam pequenos mamíferos e répteis”, conta Vidal Haddad.
Amaral descobriu ainda que a peçonha destas jararacas era muito mais ativa em aves e altamente potente, o que despertou o interesse sobre a espécie, que só existe na ilha.
“O veneno da jararaca-ilhoa é mais tóxico para aves do que para mamíferos”, explica o biólogo Marcelo Ribeiro Duarte, do Laboratório de Coleções Zoológicas do Instituto Butantan. “O que prova a grande adaptabilidade da espécie.”
A Bothrops insularis mede entre meio metro e um metro, com as fêmeas sendo ligeiramente maiores. “Como a fauna da ilha é muito escassa, não existindo roedores nem outros mamíferos (com exceção de morcegos), os adultos da espécie se alimentam de aves migratórias (os pássaros residentes não são predados)”, diz Haddad. “Os filhotes comem pequenos lagartos, anfíbios e artrópodes, como as lacraias, por exemplo.”
Outra característica dessa serpente é que ela é vivípara (não põe ovos, mas gesta a prole de maneira semelhantes aos mamíferos) e dá à luz 10 filhotes no período quente do ano.
Mitos e lendas
Talvez por ser muito numerosa e altamente venenosa, a jararaca-ilhoa é objeto de diversos mitos e lendas. Uma delas diz que as cobras foram colocadas lá por piratas, para proteger um tesouro escondido.
De acordo com outra, um faroleiro e sua família foram mortos por suas picadas. Mas isso não ocorreu. No máximo foram mortos alguns animais domésticos, como cães, gatos e galinhas.
De qualquer forma, não existe mais o risco de algum faroleiro ser morto por uma picada da jararaca-ilhoa. O farol foi automatizado em 1925 e sua manutenção é feita uma vez por ano por uma equipe da Marinha do Brasil. O acesso à ilha é estritamente controlado e requer de autorização do Governo Federal. Esta é dada principalmente para pesquisadores.
“Apesar do óbvio risco que as cobras representam para quem entrar no local desavisado, ele quase não existe na prática”, tranquiliza Haddad. “(A ilha) é desabitada e quem a visita está ciente dos cuidados que deve tomar para evitar picadas.”
Ameaça de extinção
De acordo com ele, hoje quem tem que ter cuidado são as cobras. Apesar de a Ilha da Queimada Grande ser uma Área de Relevante Interesse Ecológico (ARIE) e pertencer à Área de Proteção Ambiental (APA) de Cananéia-Iguape-Peruíbe, a jararaca-ilhoa está criticamente ameaçada de Extinção.
A espécie faz parte da Lista Nacional das Espécies da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção e da Lista Vermelha das Espécies Ameaçadas da organização União Internacional pela Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês).
A ameaça de extinção decorre das queimadas, feitas por pescadores que querem desembarcar no local, e pela biopirataria, ou seja, a captura ilegal para venda. Um exemplar da cobra pode alcançar R$ 30 mil no mercado negro.
“Se pensarmos na capacidade de venenos serem a base de medicamentos e na fantástica evolução e adaptação das cobras em um ambiente isolado, elas são mais um tesouro a ser preservado do que uma ameaça aos humanos”, diz Haddad.
Só isso já justificaria o interesse científico na Bothrops insularis. Mas há outras razões. “O isolamento de cobras a partir das grandes massas continentais é uma oportunidade única para se estabelecerem relações evolutivas sob condições severas na maioria das vezes, como, por exemplo, falta de fontes de água e escassez de presas”, explica Duarte.
“Além disso, a presença dessa espécie isolada é um testemunho dos fenômenos de flutuação do nível dos oceanos no período Pleistoceno (1,8 milhão a 11 mil anos atrás).”
Fonte: BBC

quinta-feira, 1 de março de 2018

Pesquisadores brasileiros desenvolvem material potente para dessalinização de água salobra

Existem algumas formas de realizar o processo. Os dois principais métodos para filtrar a água marinha — a destilação e a osmose reversa — são custosos para desenvolver e fazer a manutenção. Além disso, a energia consumida nos processos é outro fator limitante para muitos países.
Um meio mais recente trazido dos Estados Unidos tem sido estudado por cientistas brasileiros, a deionização capacitativa, e pode deixar o processo bem mais em conta. Apesar de ainda não ser capaz de filtrar a água do mar, consegue transformar água salobra em potável sem utilizar muitos recursos energéticos.
O professor de engenharia química Luís Augusto Martins Ruotolo, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), com sua equipe, vem testando o método. O grupo desenvolveu um dos materiais mais potentes e fundamentais para o processo, um carvão ativado, que pode ser feito com casca de coco ou até bagaço de cana-de-açúcar.
Um carvão especial
A equipe brasileira aposta no carvão resultante de um polímero condutor de eletricidade conhecido como polianina, que possui capacidade de retenção de elementos químicos quase seis vezes maior do que outros materiais do mercado. A descoberta rendeu um pedido de patente no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) pela Agência de Inovação da UFSCar.
Na deionização capacitiva, o carvão ativado, produzido com qualquer material que contenha carbono em sua constituição, filtra o sal da água. Casca de coco, lignina, bagaço de cana de açúcar são alguns dos materiais testados. Para chegar à peça, os pesquisadores passam o material escolhido por um processo conhecido como carbonização. Diferente da combustão, a carbonização não utiliza oxigênio. A ideia não é queimar o objeto, mas retirar o gás de sua constituição.
Colocando o material em uma câmara de alta temperatura, ele sairá de lá totalmente carbonizado, com uma grande quantidade de poros, ideal para o método. Os gases que resultam do processo são muito poucos, explica Ruotolo. Depois da carbonização, os resíduos são borbulhados em água para depois serem tratados, evitando a contaminação do meio ambiente.
Com o material escolhido pronto, os pesquisadores o colocam entre dois eletrodos para ser ativado por uma pequena carga elétrica de no máximo 1,2 volts. “As pilhas comuns que compramos em supermercado têm voltagens maiores. Ou seja, é um gasto bem pequeno de energia”, esclarece.
O carvão ativado é então colocado na água e, com a carga elétrica, separa o cloreto de sódio da água. No momento, o método funciona apenas para concentrações de até 10 gramas de sal por litro — muito abaixo das concentrações de águas marinhas, que chegam a 35 gramas por litro. Mas o processo é ideal para águas salobra, as águas levemente salgadas que existem em mangues e em vários reservatórios subterrâneos espalhados pelo país.
“O método pode ser utilizado em locais de seca e que não possuem energia elétrica. O plano é colocar painéis solares para gerir a eletricidade necessária para ativação do carbono e, dessa forma, obter água potável sem muito custo para a manutenção do processo, algo que até hoje é um dos maiores problemas da osmose reversa”, afirma Ruotolo.
Entre membranas e vapores
Hoje, a osmose reversa é o método mais utilizado no mercado. Nele, membranas artificias com pequenos poros são responsáveis pela separação dos sais da água. Por meio de grandes pressões aplicadas no aparelho, é possível fazer a dessalinização tanto da água salobra quanto da marinha. Israel, por exemplo, tem as maiores plantas do mundo desse tipo de produção e o governo brasileiro também tem projetos para atender à região Nordeste dessa forma.
O outro método mais comum é conhecido como destilação. O processo se resume à evaporação da água marinha, que acaba deixando para trás os sais contidos em sua constituição. Depois, ela é condensada novamente à sua forma original. A destilação é o jeito mais caro de dessalinização, já que exige uma grande quantidade de energia para realizar o processo. É uma forma muito utilizada em países orientais, como Índia e Arábia Saudita.
Fonte: National Geographic Brasil