segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Como Brasil pode ganhar dinheiro com turismo ecológico sem derrubar a Amazônia.

Para o professor Virgilio Viana, PhD pela universidade de Harvard e superintendente da Fundação Amazônia Sustentável (FAS), “não há dúvida de que o Brasil está perdendo uma enorme oportunidade.”

Em evidência por causa do aumento das queimadas, o interesse internacional na Floresta Amazônica poderia ser usado “a nosso favor”, segundo o especialista, por meio do estímulo ao ecoturismo na região. Ainda incipiente, essa atividade econômica tem forte potencial graças justamente ao fascínio que a beleza da floresta tropical exerce sobe visitantes.
Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil disseram que o turismo autossustentável deu certo em países com florestas tropicais e se mostrou uma forma eficiente de proteger e conservar a floresta e trazer benefícios a populações locais.
Na região amazônica, “o turismo ainda não possui escala econômica ou poder político para substituir o desmatamento em massa, que é a razão dos incêndios”, lamenta o professor Ralf Buckley, da Universidade Griffith, na Austrália, autor de diversos livros sobre o ecoturismo no mundo.
“Mas, uma vez estabelecido, o turismo é muito maior do que a indústria madeireira, agrícola ou de mineração em termos de escala econômica e geração de empregos.”
Buckley calcula que a indústria do turismo e de atividades ao ar livre movimente anualmente 1 trilhão de dólares (ou mais de R$ 4 trilhões) no mundo todo. Faltam, porém, estatísticas globais consolidadas sobe turismo sustentável.
Apesar de a organização de turismo UNWTO, ligada à Organização das Nações Unidas, compilar dados em diversos países, o órgão não dispõe de informações específicas sobre o nicho do ecoturismo. “Não há um único modelo universalmente aplicável”, pondera Buckley. “Cada país tem diferentes histórias, leis políticas, sociedades e economias.”

Experiências na selva

No entanto, há exemplos de negócios que deram certo nessa área e que poderiam servir de inspiração a novos projetos na Amazônia brasileira.
É o caso do ecoturismo na Amazônia peruana, estudado de perto por Amanda Stronza, professora e codiretora do programa de ciência aplicada a biodiversidade da universidade A&M do Texas. Para ela, um dos segredos da viabilidade do modelo de turismo sustentável no Peru esteve em iniciativas de desenvolvimento que tiveram seu ponto de partida nos interesses da comunidade local.
Na comunidade de Infierno, junto ao rio Tambopata e adjacente ao parque nacional de Bahuaja-Sonene, uma parceria entre uma empresa canadense e os índios da comunidade Ese-Eja resultou na construção de em um resort de luxo no anos 1990.
O empreendimento é lucrativo há mais e 20 anos e paga dividendos às famílias locais por estar situado próximo à comunidade indígena.
“É importante lembrar que a Amazônia não é terra selvagem desabitada, terra de ninguém como dizem. Há milhares de pessoas lá, comunidades locais que vivem lá. Esse é o território deles e qualquer empreendimento econômico tem que envolvê-los”, defende Stronza.
Mas ela ressalta que o turismo ecológico “é uma opção que deve ser empregada em conjunto a outras, como a extração vegetal e o manejo da agricultura familiar”.
Outro exemplo de sucesso no ecoturismo em floresta tropical é a Costa Rica, onde passeios de aventura e natureza estão entre os principais chamarizes de turistas estrangeiros.
O pequeno país da América Central, ao norte do Panamá e ao sul da Nicarágua, obteve US$ 3,8 bilhões (R$ 15,44 bi) em renda com a indústria do turismo em 2018. O Brasil todo faturou US$ 5,9 bilhões no mesmo período.
Apesar de o tamanho do território costa-riquenho não chegar a corresponder a 1% do brasileiro, o país recebeu em 2018 mais de 3 milhões de turistas, quase metade do total de 6,6 milhões de visitantes que foram ao Brasil. O turismo corresponde a mais de 6,4% do Produto Interno Bruto do país.
“A Costa Rica é um excelente modelo”, elogia Virgilio Viana, da FAZ.

‘Pousada do Garido’

A própria Fundação Amazônia Sustentável ajudou a orientar projetos que já vingaram nessa área, sempre com participação da população local.
Como exemplo, cita a Pousada do Garido e o restaurante Sumimi, no Estado do Amazonas. A hospedaria envolve sete famílias e garante um faturamento médio mensal bruto por família de R$ 11.200, e o restaurante chega a alcançar faturamento bruto médio por família de R$ 18.842.
“Há histórias muito legais. Na região do Tumbira teve um ex-madeireiro que virou dono de pousada. Isso foi uma revolução”, conta Viana.
“Recentemente, inauguramos mais uma pousada no rio Uatumã que é de uma comunidade que já tem dez pequenas pousadas ligadas à pesca esportiva. No ano passado eles tiveram um faturamento bruto de mais de RS$ 5 milhões, que para esse mundo ali são valores espetaculares”, diz.
Segundo a presidente da Amazonastur, Roselene Silva de Medeiros, o turismo de base comunitária faz parte da estratégia turística da região. “Queremos receber mais gente, sim, e expandir esse tipo de projeto”, afirma.
“Há ações para desenvolver o turismo de base comunitária na região do Baixo Rio Negro e do turismo de pesca esportiva no Alto Rio Negro, nos município de Barcelos e Santa Isabel do Rio Negro.”

Infraestrutura

Para Ralph Buckley, um dos grandes desafios do incremento do turismo sustentável na Amazônia está num passo básico: a criação de uma estrutura adequada.
“A indústria do turismo poderia ter escala, mas ainda não tem. Porque o turismo cresce lentamente e precisa de infraestrutura para transportar as pessoas”, diz.
Segundo Buckley, “falta conectividade confortável pública”.
“Se você é um barão de petróleo, madeira ou gado, poderá entrar em um helicóptero e levar uma frota de escavadeiras para abrir uma estrada. Mas se você é só um turista, não pode circular com segurança e facilidade”, diz.
Ele mesmo visitou a Amazônia e resume a experiência: “A parte da floresta amazônica do Equador e do Peru tem melhor infraestrutura de turismo. No Brasil, você voa até Manaus, mas e daí faz como? Há apenas rios! Há muito turismo fluvial no rio Negro. Mas, para se ir além, até as partes intocadas da floresta, onde verdadeiramente está a vida selvagem, não é fácil. Isso leva dias em barcos pequenos ou eventualmente até em canoas indígenas”.
Para Virgilio Vinana, uma opção para melhorar as conexões na floresta seria a construção de ferrovias. Apesar de ter um custo de construção mais elevado do que o de uma estrada, a ferrovia é mais barata no longo prazo porque têm menor manutenção, cobrindo melhor as grandes distâncias e resistindo às condições extremas do clima amazônico.
A abertura de ferrovias, no entanto, traria duros impactos aos ecossistemas locais. Mas a abertura de autoestradas, segundo o especialista, levaria a um desmatamento mais amplo, porque às margens do caminho costumam se desenvolver novas ocupações.
É um efeito chamado “espinha de peixe”, onde a estrada principal desencadeia a abertura de ramificações laterais irregulares na selva.

De olho nos alemães

Mas a Embratur, agência de promoção do turismo no Brasil, está de olho no problema da conectividade, e quer facilitar a chegada de turistas europeus à região amazônica – em particular, os alemães, tentando ajudar na viabilização de voos direto da Europa com a companhia aérea Condor.
Os números indicam que os turistas alemães têm um perfil de particular interesse para o segmento sustentável, porque a maioria deles prefere florestas à praias.
Dos 209 mil alemães que visitaram o país no ano passado, segundo o órgão, 32,4% o fizeram a lazer, 16,5% a trabalho e 51,1% por outros motivos.
Entre as motivações da viagem, 45,1% expressaram o intuito de praticar ecoturismo e aventura, optando por sol e praia em apenas 24,9% das vezes.
Trazer mais turistas aumenta as chances de estimular o apetite por parcerias no mercado do ecoturismo e tirar proveito do conhecimento europeu em tecnologia de mobilidade.
Apesar de o ecoturismo ser a principal motivação dos visitantes estrangeiros que chegam à região amazônica, em números absolutos a participação de visitantes de fora é pequena: das 6,62 milhões de chegadas de estrangeiros ao país em 2018, 143 mil foram registradas em Estados do bioma amazônico – e destas, boa parte foram de venezuelanos, o que sugere que as estatísticas podem apresentar uma distorção devido à recente crise humanitária-migratória no país vizinho.
Fonte: BBC

Querosene produzido com energia solar promete revolução.

Em uma iniciativa pioneira, na zona industrial de Móstoles, perto de Madri, na Espanha, fica o primeiro reator do mundo a produzir querosene usando energia solar. O projeto chamado Sun-to-liquid é uma iniciativa de pesquisadores da Espanha, Alemanha, Suíça, Holanda e Eslovênia, com financiamento de recursos da União Europeia. Seu objetivo é a produção de combustível sem emissões de CO2, usando menos espaço e recursos que, por exemplo, o bioquerosene.

O querosene é um combustível usado em aviões e é particularmente poluente. Já existem diversos projetos que buscam um caminho para a produção de querosene sintético, ou seja, sem petróleo.
Durante o voo, as variantes de querosene produzidas sinteticamente não geram, porém, menos poluentes do que o combustível originário do petróleo. A diferença está no processo de produção.
O engenheiro químico Manuel Romero, diretor da usina, explica que, para a produção de bioquerosene, “florestas são desmatadas para a plantação da matéria-prima. Além disso, há a explosão no preço dos alimentos devido à grande demanda por certas plantas”.
Para o processo Sun-to-liquid, são necessários apenas luz solar, água e dióxido de carbono (CO2). Se o CO2 utilizado for extraído previamente do ar, os poluentes produzidos pela queima do combustível podem posteriormente ser compensados. Assim, o combustível torna-se neutro em carbono.
As modernas tecnologias à disposição atualmente ainda não permitem movimentar aviões e navios usando energia elétrica porque eles são muito pesados. As baterias necessárias seriam enormes e pesadas. Por isso, ainda não há como abandonar combustíveis como o querosene. Diante desse cenário, o querosene neutro em carbono se tornou interessante até mesmo para pesquisadores do Japão e da Croácia, que visitaram a inovadora usina na Espanha.
Como funciona
Mais de 160 espelhos direcionam a luz do sol ao reator, que foi construído numa torre de 20 metros de altura. A câmara do reator é aquecida a cerca de 1500 °C – uma temperatura sem precedentes. Com a ajuda de um catalisador, é produzido então um gás sintético a partir de água e do CO2 extraído do ar.
Especialistas da Organização da Aviação Civil Internacional (ICAO, na sigla em inglês) estimam que a demanda de querosene até o ano de 2050 aumente seis vezes, chegando a 860 milhões de toneladas por ano. Ao mesmo tempo, cresce a pressão política no comportamento de consumo geral como medida para tentar conter o aquecimento global. 
As consequências das mudanças climáticas são sentidas também na zona industrial de Móstoles. Em toda a região de Madri, o solo seco e queimado chama a atenção. Sobre ele, estão os 160 helióstatos, instrumentos dotados de um espelho plano que giram em torno de um eixo, permitindo a projeção dos raios solares sobre um ponto fixo.
“Nunca vivenciei um ano tão seco como este”, conta Romero, que até o final de 2019 trabalhará no projeto ao lado de um jovem engenheiro do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique (ETH). A técnica inovadora de produção de querosene a partir do sol é o tema do doutorado de Stefan Zoller, de 28 anos.
O ETH desenvolveu o catalisador usado no reator solar. O gás produzido nesse processo é liquefeito por meio de um método descoberto pelos alemães Franz Fischer e Hans Tropsch.
Pouco rentável
Companhias aéreas também investem em pesquisa para desenvolver alternativas ao querosene. Um projeto da Lufthansa, em parceria com a refinaria Heide, no norte da Alemanha, estuda a produção do combustível usando energia eólica. Apesar de ser mais sustentável que o bioquerosene, esse processo, assim como o Sun-to-liquid, ainda não é comercialmente rentável.
O diretor alemão do projeto em Móstoles, Christoph Falter, do centro de pesquisa Bauhaus Luftfahrt e.V., calcula o custo de produção do querosene sintético em cerca de dois euros por litro. Isso é quatro vezes mais do que o preço de venda de querosene tradicional, que custa 50 centavos de euros. “Sobre seu preço não é cobrado imposto, diferentemente do combustível para carros”, acrescenta Falter.
A equipe do projeto espera que essa diferença de preço seja compensada em breve por meio de um imposto, um certificado de comércio ou por uma cota para combustível alternativo. “Considerando que os custos externos da degradação ambiental dos combustíveis convencionais não estão sendo levados em conta, há um bom motivo para a introdução de tais medidas”, opina Falter.
Já Romero espera que a cara tecnologia de retirada de dióxido de carbono do ar fique mais barata nos próximos anos. Assim, o preço por litro do querosene sintético também cairia.
Fonte: Deutsche Welle

domingo, 8 de setembro de 2019

Imitando as plantas: fotossíntese artificial cria combustível líquido limpo.

Químicos da Universidade de Illinois, nos EUA, conseguiram desenvolver uma nova forma de fotossíntese artificial. Com isso, foram capazes de produzir com sucesso combustíveis usando água, dióxido de carbono e luz. Ao converter dióxido de carbono em moléculas mais complexas, como o propano, essa descoberta deixa a humanidade mais perto do uso de CO2 para armazenar energia solar.

A fotossíntese é um dos processos mais incríveis da vida na Terra. As plantas usam a luz solar para impulsionar reações químicas entre a água e o CO2, criando e armazenando energia solar na forma de glicose de alta densidade energética. No novo estudo, os pesquisadores desenvolveram um processo artificial que usa a mesma porção de luz verde do espectro de luz visível usado pelas plantas durante a fotossíntese natural para converter CO2 e água em combustível, utilizando como catalisadores nanopartículas de ouro ricas em elétrons.
“O objetivo é produzir hidrocarbonetos complexos e liquefeitos a partir do excesso de CO2 e outros recursos sustentáveis, como a luz solar. Os combustíveis líquidos são ideais porque são mais fáceis, seguros e econômicos de transportar do que o gás e, como são feitos de moléculas de cadeia longa, contêm mais ligações – o que significa que eles acumulam energia mais densamente”, explica Prashant Jain, professor de química e co-autor do estudo, em matéria publicada no site da Universidade de Illinois.
Os benefícios de realizar fotossíntese artificial em grande escala seriam enormes, dando-nos uma fonte de energia limpa e auto-sustentável que poderia um dia alimentar nossas casas e carros simplesmente imitando o que plantas e outros organismos fazem naturalmente.
Por causa disso, os cientistas estão procurando uma maneira de aproveitar a energia solar como uma fonte de combustível fotossintética ilimitada, até porque ela também pode fornecer um meio de nos ajudar a reaproveitar o perigoso CO2 atmosférico.

Ouro combustível

A nova pesquisa se baseia em um trabalho anterior liderado por Jain em 2018, no qual o uso de nanopartículas de ouro como um substituto para a clorofila foi estudado. “Os cientistas muitas vezes procuram plantas para obter insights sobre métodos para transformar luz solar, dióxido de carbono e água em combustíveis”, disse Jain na época.
Nesses experimentos, a equipe descobriu que minúsculas partículas esféricas de ouro medindo apenas nanômetros de tamanho poderiam absorver luz verde visível e transferir elétrons e prótons foto-excitados.
Na nova pesquisa, Jain e Sungju Yu, pesquisador de pós-doutorado e autor principal do estudo, usaram os catalisadores metálicos para absorver a luz verde e transferir elétrons e prótons necessários para reações químicas entre o CO2 e a água – preenchendo o papel da clorofila na fotossíntese natural.
Segundo os pesquisadores, as nanopartículas de ouro funcionam particularmente bem como catalisadores porque suas superfícies interagem favoravelmente com as moléculas de CO2, são eficientes em absorver a luz e não se degradam como outros metais. 

Artificial x natural

Existem várias maneiras em que a energia armazenada nas ligações do combustível de hidrocarboneto é liberada. No entanto, o método convencional de combustão acaba produzindo mais CO2 – o que é contraproducente para a noção de colheita e armazenamento de energia solar, afirma Jain.
“Há outros usos potenciais menos convencionais dos hidrocarbonetos criados a partir desse processo. Eles poderiam ser usados ​​para alimentar células de combustível para produzir corrente elétrica e tensão. Existem laboratórios em todo o mundo tentando descobrir como a conversão de hidrocarbonetos em eletricidade pode ser conduzida de forma eficiente”, disse Jain.
Por mais empolgante que o desenvolvimento desse combustível de CO2 para líquido possa ser para a tecnologia de energia verde, os pesquisadores reconhecem que o processo de fotossíntese artificial de Jain está longe de ser tão eficiente quanto é nas plantas. “Precisamos aprender a ajustar o catalisador para aumentar a eficiência das reações químicas. Então, podemos começar o trabalho duro de determinar como ampliar o processo. E, como qualquer tecnologia de energia não convencional, haverá muitas questões de viabilidade econômica a serem respondidas também”. [Science AlertUniversidade de Illinois]
Fonte: Hypescience

A injustiça global da crise climática.

Nos últimos anos, ambientalistas e cientistas vêm alertando que os países mais pobres, que têm pegadas de carbono muito baixas, estão sofrendo o impacto das emissões de dióxido de carbono da fatia mais rica do mundo. Um relatório da agência beneficente britânica Christian Aid mostra essa disparidade. 
O relatório Greve de fome: o índice de vulnerabilidade climática e alimentar aponta que os dez países que registram os maiores índices de insegurança alimentar no mundo geram menos de meia tonelada de CO2 por pessoa. Combinados, eles geram apenas 0,08% do total de CO2 global. 
“O que realmente me surpreendeu e me chocou foi a forte correlação negativa entre pobreza alimentar e a baixíssima emissão per capita”, diz a autora do relatório, Katherine Kramer. “É muito maior do que esperávamos.” 
No topo do ranking está o Burundi, na África Central, que registra 0,027 toneladas, a menor emissão de CO2 per capita entre todos os países. O número é tão baixo que é muitas vezes arredondado para zero. Em comparação, os alemães, americanos e sauditas geram, em média, a mesma quantidade de CO2 que 359, 583 e 719 burundeses, respectivamente. 
Conforme destacado no último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), a insegurança alimentar é uma das principais ameaças à vida humana que podem ser provocadas pelas mudanças climáticas. Esse risco é especialmente maior no Hemisfério Sul, onde as pessoas dependem da agricultura em pequena escala e são mais vulneráveis a secas, inundações e condições climáticas extremas. 
No Burundi, que já vem enfrentando insegurança alimentar como resultado da instabilidade política – e onde a prevalência de desnutrição crônica é a mais alta do mundo – a mudança dos padrões climáticos é encarada com preocupação. 
As chuvas no país africano foram muito esporádicas nos últimos três anos, particularmente em algumas regiões dependentes da agricultura. E o relatório prevê que inundações e secas extremas resultarão em um declínio da produção de entre 5% e 25% nas próximas décadas. 
“O Burundi é uma testemunha vivo da injustiça da crise climática”, diz Philip Galgallo, diretor do braço da Christian Aid para o Burundi. “Apesar de produzirmos quase nenhuma emissão de carbono, nos encontramos na linha de frente das mudanças climáticas, sofrendo com temperaturas mais altas, produção mais baixa das colheitas e chuvas cada vez menos regulares.”
É uma história parecida com a do segundo país com maior índice insegurança alimentar do mundo: a República Democrática do Congo (RDC), que também tem a segunda menor pegada de carbono. A elevação rápida das temperaturas implica um risco ainda maior de disseminação de doenças entre os animais e nas lavouras. Além disso, os padrões de chuva estão mudando, deixando os agricultores congoleses inseguros sobre quando plantar e quando colher. 
Risco de subnutrição 
As mudanças climáticas não afetam apenas a produção das plantações e a capacidade de cultivar alimentos. O CO2 também afeta diretamente os nutrientes presentes nas colheitas. 
Um estudo recente da revista científica Lancet Planetary Health analisou como as mudanças climáticas e os níveis crescentes de dióxido de carbono na atmosfera estão reduzindo a prevalência de nutrientes em alimentos básicos, como arroz, trigo, milho e soja. Cerca de 50% das calorias consumidas do mundo vêm desses grãos. 
O estudo constatou que, nos próximos 30 anos, a disponibilidade de nutrientes críticos para a saúde humana, incluindo ferro, proteína e zinco, poderá ser significativamente reduzida se o planeta continuar a produzir emissões de CO2 no mesmo ritmo. 
“Vamos enfrentar uma redução de 14% a 20% na disponibilidade global de ferro, zinco e proteína em nossa dieta”, prevê o autor do estudo Seth Myers. 
E as implicações dessa redução são muito significativas. 
“A deficiência de ferro e zinco nos alimentos hoje já faz com que cerca de 60 milhões de anos de vida sejam perdidos anualmente. Então essas deficiências já provocam grandes cargas globais de doenças”, afirma Myers. 
“Como resultado do aumento dos níveis de CO2, centenas de milhões de pessoas vão passar a correr risco de morrer por causa de deficiências de zinco e proteínas. E cerca de um bilhão de pessoas que já têm essas deficiências vão vê-las serem exacerbadas”, diz.
Tais deficiências aumentam a mortalidade infantil por doenças e enfermidades como malária, pneumonia e diarreia. 
As pessoas mais afetadas estarão no Hemisfério Sul, diz Myers. Isso porque aquelas que correm maior risco de sofrer com essas deficiências nutricionais já contam com dietas menos diversificadas e um menor consumo de alimentos de origem animal, como carne, leite, ovos, queijo e iogurte. 
“E isso não deixa de ser meio irônico, já que essas são as pessoas que têm menos responsabilidade pela emissão de dióxido de carbono que está tornando os alimentos menos nutritivos”, explica Myers. Ele descreve a situação como uma emergência de saúde pública e uma crise moral. 
“Não há desculpa para não agir com a máxima urgência quando são as emissões da parte mais rica do mundo que estão colocando as pessoas mais pobres do planeta em perigo”, afirma.
Senso de urgência moral
Kramer, da Christian Aid, por sua vez, diz que existem várias medidas que o mundo desenvolvido precisa adotar para combater a insegurança alimentar e ajudar a combater as mudanças climáticas. 
“A primeira e mais importante é reduzir drasticamente e muito rapidamente suas próprias emissões”, diz ela. “Podemos continuar a nos refugiar em ambientes fechados, com nossos ventiladores e ar-condicionado. Temos acesso a estoques de água para nos refrescar. As mudanças ainda não nos atingiram da mesma maneira, mas já estão afetando o mundo em desenvolvimento.” 
Myers concorda. “Temos que parar de queimar combustíveis fósseis. Precisamos fazer a transição para fontes renováveis e evitar as emissões de dióxido de carbono o mais rápido possível. Precisamos também ter um senso de urgência moral para essa transição”, afirma. 
Outro passo importante é dar apoio aos países em desenvolvimento. Kramer diz que isso pode ser feito com incentivo financeiro ou com o fornecimento de tecnologia e educação, principalmente para a instalação de sistemas de alerta prévios que permitam que os países prevejam quando um desastre natural está prestes a acontecer e possam se preparar adequadamente. 
Ainda segundo Myers, também é preciso ajudar os países em desenvolvimento a melhorar sua produtividade e resiliência (capacidade de resistência e recuperação de um ecossistema). 
Por meio do Acordo de Paris sobre o clima, quase todos os países desenvolvidos do mundo já se comprometeram a fornecer recursos para ajudar países em desenvolvimento a combater os efeitos das mudanças climáticas, mas não estão previstas penalidades para aqueles que não cumprirem suas promessas. 
É por isso que Kramer acredita que as pessoas precisam pressionar seus governos a cumprir as metas. “Se não diminuirmos nossas emissões e resolvermos a crise climática como uma comunidade global, os impactos serão cada vez piores, e milhões de vidas estarão em risco”, conclui. 
Fonte: Deutsche Welle

sábado, 7 de setembro de 2019

Seria possível reflorestar a Alemanha?

Após Alemanha cortar verbas para projetos de proteção à Floresta Amazônica, Bolsonaro sugeriu que dinheiro fosse usado para reflorestar o país europeu. Mudanças climáticas e falta de espaço indicam cenário desanimador.
Grandes áreas de florestas desapareceram nos últimos anos. Árvores cortadas para abrir estradas e para uma agricultura que precisa cada vez mais de espaço. A morte das florestas assume formas dramáticas, e os danos chegam a bilhões de euros. Essa é a atual situação na Alemanha.
"Não precisamos falar sobre reflorestamento na Alemanha enquanto não pararmos o desmatamento em grande escala. Os interesses econômicos da indústria e também dos transportes sempre estão à frente da ecologia no país", afirmou Jana Ballenthien, especialista em florestas da ONG alemã Robin Wood.
Em apenas um ano, as florestas alemãs perderam 120 mil hectares, uma área do tamanho de Berlim, segundo a organização Sociedade de Proteção da Floresta Alemã (SDW). E elas voltaram a ser um tema de debate agora que as queimadas na Amazônia e suas possíveis consequências devastadoras para o clima chamam atenção mundo afora. 
As atitudes do governo de Jair Bolsonaro em relação ao meio ambiente e o avanço do desmatamento levaram a Alemanha a suspender, em meados de agosto, o repasse de 35 milhões de euros (cerca de 155 milhões de reais) a projeto de proteção da Floresta Amazônica e da biodiversidade no Brasil. Em resposta ao congelamento dos recursos, Bolsonaro sugeriu que a chanceler federal da Alemanha, Angela Merkel, usasse esse dinheiro para reflorestar a Alemanha.
"São necessários no mínimo 150 anos para o reflorestamento ideal de florestas na Alemanha, com uma grande diversidade de espécies de árvores de diferentes idades e um sistema ecológico funcional", afirmou Ballenthien.
A ministra alemã da Agricultura, Julia Klöckner, da União Democrata Cristã (CDU), se reúne nesta quinta-feira (29/08) com proprietários de florestas, silvicultores e ambientalistas para conversar sobre a situação das florestas e as mudanças climáticas.
De acordo com a estimativa de Klöckner, serão necessários 1,5 bilhão de euros (cerca de 6,9 bilhões de reais) nos próximos anos para salvar florestas alemãs que sofreram severos danos. Um reflorestamento massivo sairia ainda mais caro.
Efeitos das mudanças climáticas
Enquanto a Amazônia enfrenta desmatamento e queimadas, as mudanças climáticas que trouxeram secas e a proliferação de escolitíneos, uma espécie de besouro, castigam as árvores alemãs.
"Se houver chuva suficiente, as árvores conseguem se defender dos ataques de escolitíneos, pois produzem uma resina como mecanismo de defesa. Mas se houver pouca água, elas não produzem resina na quantidade necessária e se tornam uma presa fácil para os besouros", afirma Ulrich Dohle, presidente da Federação de Trabalhadores Florestais alemães.
Devido às mudanças climáticas, as árvores alemãs também não conseguem mais resistir a vendavais. "Elas simplesmente caem com ventos de intensidade sete ou oito, pois, com a seca, suas raízes se degeneram", acrescentou Dohle,  engenheiro florestalresponsável por uma floresta no estado de Mecklenburg-Vorpommern.
Quando caminha por sua floresta, Dohle vê uma situação dramática. "Pequenos lagos e riachos simplesmente secaram. Em 2018, caiu apenas metade da chuva. Não vi algo assim nos últimos 20 anos", comenta.
A salvação das florestas alemãs requer um grande esforço. As monoculturas, que compõem um quarto dessas áreas, não resistirão ao aquecimento global e precisam rapidamente ser transformadas em florestas híbridas estáveis, principalmente com carvalhos e pinheiros.
"Se seguirmos o ritmo atual de transformação das florestas, terminaremos em 120 anos. As mudanças climáticas, porém, não nos dão esse tempo", afirma Dohle.
Tal mudança e reflorestamento precisam ainda de mão de obra. Mais engenheiros florestais precisam ser contratados, mas a realidade na Alemanha é outra.
"Nos últimos 25 anos, o pessoal florestal foi reduzido à metade. Essa redução foi tanta que na Saxônia e na Turíngia militares foram enviados para combater os escolitíneos", conta Dohle.
Falta de espaço
Um estudo do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique (ETHZ) causou recentemente barulho ao afirmar que o reflorestamento seria o meio mais eficaz contra as mudanças climáticas. Segundo o estudo, as novas florestas poderiam armazenar 200 bilhões de toneladas de carbono. Para isso, seria preciso que árvores fossem plantadas numa área do tamanho dos Estados Unidos.
Ballenthien, porém, questiona onde haveria espaço para árvores num país densamente povoado e focado na agricultura como a Alemanha.
"Temos aqui muitas instalações industriais, muitas estradas e o agronegócio. As terras que poderiam ser consideradas para o reflorestamento simplesmente não existem", acrescentou a especialista.
O sonho de um reflorestamento mundial se tornará uma utopia, se países como os Estados Unidos permitirem o desmatamento de florestas no Alasca. E ele também é impossível enquanto consumidores mundo afora não mudarem seus hábitos, reduzindo a ingestão de carne, por exemplo, diz a especialista. 
Fonte: Deutsche Welle

"Humanidade deve demonstrar humildade perante a natureza", diz Merkel.

Em encontro com líderes nórdicos na Islândia, chanceler federal alemã visita usina geotermal e elogia as iniciativas do pequeno país para lidar com desafios das mudanças climáticas, afirmando que podem servir de exemplo.
As mudanças climáticas deverão ser um dos temas centrais de um encontro entre a chanceler federal da Alemanha, Angela Merkel, e líderes nórdicos na Islândia nesta terça-feira (20/08). Após chegar ao país, a chefe de governo alemã defendeu que a humanidade demonstre mais humildade em relação à natureza.
Os líderes da Alemanha, Islândia, Dinamarca, Finlândia, Noruega e Suécia participam da reunião do Conselho de Ministros Nórdicos, que também reúne os territórios autônomos da Groenlândia e Ilhas Faroé. O conselho foi criado em 1952 para reforçar a cooperação interparlamentar e intergovernamental entre esses estados do Hemisfério Norte.
Merkel chegou a Reykjavík, onde ocorre o encontro, na segunda-feira e se reuniu com a primeira-ministra Katrin Jakobsdottir. A chanceler federal alemã destacou que foi lembrada da força da natureza quando a erupção de um vulcão na Islândia em 2010 gerou distúrbios no tráfego aéreo da Europa durante várias semanas.
Antes de reunir-se com os demais líderes, Merkel visitou a usina de energia geotermal Hellisheidi. A Islândia, conhecida por seus vulcões e atividades geológicas, utiliza a energia geotermal para abastecer o sistema de aquecimento e a produção elétrica.
O país desenvolve também um projeto para capturar dióxido de carbono e armazená-lo no subsolo.
A Islândia deverá se tornar um país climaticamente neutro até 2040, uma década antes da data prevista para a Alemanha. Os outros países nórdicos também expressaram ambições semelhantes.
"Das mudanças nos padrões de mobilidade aos temas da geração de energia, acredito que temos desafios comuns", disse Merkel. "Com o exemplo da Islândia, podemos aprender novamente que a humanidade deve tratar a natureza com cuidado e também deve demonstrar um pouco de humildade perante a natureza."
Fonte: Deutsche Welle

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Com apoio da ONU, Albânia capacita equipes em gestão sustentável de florestas.

Florestas em todo o mundo são extremamente importantes por uma série de razões, desde a purificação do ar que respiramos até o fornecimento de habitats para milhares de espécies, passando pela garantia de meios de subsistência para os seres humanos.
Na Albânia, autoridades buscam novas estratégias para restaurar ecossistemas e ampliar a gestão sustentável das florestas. O relato é da ONU Meio Ambiente.
Edmond Prifti, um especialista em projetos e investimentos de Kolonja, na Albânia, tenta há anos cultivar certas espécies de árvores em sua cidade. Embora terras possuídas pelo Estado estejam prontas para esse fim, a falta de conhecimentos de Prifti dificultou bastante o progresso na empreitada.
A Albânia tem sido palco de uma série de episódios infelizes na área ambiental, incluindo desmatamento, extração ilegal de madeira, erosão e enchentes. Esses acontecimentos contribuem para tornar a degradação do solo um grande problema no país.
“A degradação do solo agrícola e das pastagens, junto com o desmatamento dramático, representa um sério risco à segurança socioeconômica geral da região dos Bálcãs Ocidentais, especialmente levando em conta as rápidas mudanças climáticas”, afirma Sonja Gebert, da ONU Meio Ambiente.
As temperaturas nos Bálcãs Ocidentais devem aumentar 1,2°C no futuro próximo. Até o final do século, a elevação pode variar de 1,7 a 4,0°C, dependendo dos níveis de emissões globais de gases do efeito estufa. O aquecimento terá grandes impactos na agricultura, silvicultura e saúde da região.
Florestas em todo o mundo são extremamente importantes por uma série de razões, desde a purificação do ar que respiramos até o fornecimento de habitats para milhares de espécies, passando pela garantia de meios de subsistência para os seres humanos. Quando geridas de forma sustentável, as florestas podem ser uma ajuda valiosa na mitigação ou adaptação às mudanças climáticas.
Para ajudar pessoas como Prifti a superar lacunas de conhecimento, a ONU Meio Ambiente, o Fundo Mundial para o Meio Ambiente (GEF) e o Ministério do Turismo e do Meio Ambiente da Albânia uniram esforços para promover a gestão sustentável de terras, por meio da restauração de ecossistemas.
O projeto tem o apoio do Centro de Treinamento Florestal da Áustria, que está ajudando autoridades albanesas a capacitar seus agentes. Técnicos austríacos têm compartilhado boas práticas com seus pares albaneses, gerando aprendizado e respostas mais eficientes à degradação do solo. O objetivo é impulsionar a gestão sustentável dos recursos florestais da Albânia.
A ONU Meio Ambiente lembra que esse tipo de cooperação é uma maneira de promover abordagens multilaterais para responder às mudanças climáticas. A troca também pode ter um impacto positivo mais amplo na região dos Bálcãs Ocidentais.
A Áustria é conhecida por seu uso sustentável da terra. Seu setor de florestas se tornou um forte pilar econômico do país, mas sem prejudicar o meio ambiente ou a biodiversidade. O exemplo austríaco mostra que é possível desenvolver um setor próspero de processamento de madeira e, ao mesmo tempo, proteger ecossistemas.
“Gerir nossas florestas com sucesso, dentro de limites ecológicos, econômicos e técnicos, e ao mesmo tempo melhorar a segurança, (isso) exige especialistas com um alto nível de conhecimento teórico e de habilidades práticas”, aponta Johann Zöscher, chefe do Centro de Treinamento Florestal da Áustria, localizado em Ossiach.
Com seus colegas austríacos, autoridades albanesas adquiriram conhecimentos sobre gestão e planejamento de florestas e descobriram como a tecnologia desempenha um papel essencial no setor florestal austríaco. Ela é usada, por exemplo, para colher madeiras e para realizar inventários florestais, produzindo dados que são usados em decisões políticas e também na construção de redes internacionais de monitoramento.
Participantes do workshop aprenderam ainda como produzir e armazenar sementes e mudas. Especialistas austríacos compartilharam habilidades em gestão sustentável de viveiros de árvores. No país, esses “criadouros” funcionam como empresas parcialmente estatais.
“Adotar este tipo de modelo comercial na Albânia, especialmente em Kolonja, onde já temos terras possuídas pelo Estado para este propósito, será um grande passo para ajudar nossas florestas a crescer”, reconheceu Prifti.
O aumento da cobertura florestal também pode diminuir os riscos de saúde ambiental mais urgentes de nosso tempo: a poluição do ar, que todos os anos mata 7 milhões de pessoas no mundo. As principais fontes de poluição do ar são as mesmas que impulsionam as mudanças climáticas — o que significa que esforços para mitigar um problema podem ajudar a combater o outro.
Árvores podem contribuir com essa causa, pois conseguem absorver grandes quantidades de gases causadores do efeito estufa e remover poluentes. Uma única árvore consegue retirar mais de uma tonelada de CO2 da atmosfera durante seu tempo de vida, dando aos viveiros de árvores um bom custo-benefício para limpar o ar e mitigar as mudanças climáticas.
Os benefícios de ecossistemas florestais são amplos e podem ser ambientais, socioculturais e econômicos. A proteção das florestas, por meio de estratégias viáveis de gestão, como a que a Albânia busca, é essencial para garantir um futuro sustentável para todos.
A poluição do ar é tema do Dia Mundial do Meio Ambiente deste ano, celebrado em 5 de junho. A qualidade do ar que respiramos depende das escolhas que fazemos todos os dias. Saiba mais sobre como a poluição do ar afeta você e o que está sendo feito para limpar o ar. O que você está fazendo para reduzir a pegada das suas emissões? As celebrações do Dia Mundial do Meio Ambiente 2019 serão sediadas pela China.
Fonte: ONU