quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Ecossistemas poderão ser restaurados por meio da engenharia da biodiversidade.

Pesquisadores avaliam que há condições teóricas, metodológicas e tecnológicas para manipular a composição de comunidades ecológicas e garantir a permanência das funções de um ecossistema ((Trochilus polytmus / foto: Sharp Photography – Wikimedia)
Muitos cientistas consideram que as atividades humanas começaram a ter, a partir do fim do século 18, um impacto tão significativo no clima e nos ecossistemas da Terra a ponto de der dado origem a uma época geológica que denominaram Antropoceno.
As eliminações de espécies nesse período mais recente da história do planeta Terra podem rivalizar com as grandes extinções em massa registradas ao longo de outras eras geológicas. A fim de restaurar essa perda de biodiversidade e o funcionamento do ecossistema terrestre seria preciso aplicar, urgentemente, o conhecimento ecológico existente.
Um estudo de autoria de pesquisadores brasileiros e britânicos indicou que há condições teóricas, metodológicas e tecnológicas sem precedentes para enfrentar esse desafio.
Resultado de uma pesquisa apoiada pela FAPESP e de um pós-doutorado realizado com Bolsa da FAPESP, o trabalho teve resultados publicados na revista Trends in Ecology & Evolution.
“Estamos a apenas alguns passos de possibilitar a realização da ‘engenharia da biodiversidade’, ou seja, manipular a biodiversidade para projetar a composição de comunidades ecológicas e garantir a permanência das funções de um ecossistema”, disse Rafael Luís Galdini Raimundo, professor do Departamento de Engenharia e Meio Ambiente da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e primeiro autor do estudo, à Agência FAPESP.
“Temos agora todas as condições teóricas e metodológicas para entender e prever melhor as consequências da inclusão ou da retirada de uma espécie de uma comunidade para fim de manejo na diversidade funcional de um ecossistema”, avaliou.
De acordo com os autores do estudo, a manipulação de comunidades ecológicas para restauração tem uma longa história científica e é feita há mais de um século, principalmente em países da Europa e nos Estados Unidos.
Tradicionalmente, contudo, as iniciativas de restauração têm sido focadas na inclusão ou na remoção de espécies com o intuito de resgatar padrões de riqueza de plantas e animais, sem se concentrar nas interações ecológicas entre populações, espécies e predadores e presas, por exemplo.
Essas interações ecológicas são determinantes para os padrões de biodiversidade e de funcionamento de um ecossistema por moldar a força e os modos de seleção natural. Eventuais mudanças nos padrões dessas interações provocadas pela extinção de espécies ou pela entrada de espécies invasoras, por exemplo, afetam a evolução de características funcionais ecologicamente relevantes, como o tamanho do bico de aves que se alimentam de frutos (frugívoras) e o tamanho dos frutos que dispersam.
Na Mata Atlântica, a perda de grandes espécies de aves como tucanos (Ramphastidae) e jacutingas (Pipile jacutinga) tem levado à diminuição da dispersão de árvores com sementes grandes. Já a diminuição de espécies dispersoras do palmito-juçara (Euterpe edulis) tem feito com que suas sementes passem a ser distribuídas por poucas áreas do bioma. Consequentemente, tem diminuído o tamanho das sementes da planta, dizem os autores do estudo.
“As interações entre espécies representam a ligação entre processos ecológicos e evolutivos e também podem ser vistas como a conexão entre a estrutura da biodiversidade e o funcionamento do ecossistema”, disse Galdini Raimundo.
Condições propícias
O desenvolvimento de modelos matemáticos de redes adaptativas permitiu a ecólogos compreender melhor como mudanças nos padrões de interações ecológicas – que definem a estrutura de uma rede de interações – são seguidas por mudanças na dinâmica e nas propriedades das populações de cada espécie, como sua abundância e características.
Essas mudanças ecológicas e evolutivas nas propriedades das espécies podem desencadear novas reconfigurações no nível da rede de interações, fechando um ciclo.
“A aplicação da abordagem de rede à ecologia permite gerar previsões para o que acontece com processos evolutivos e ecológicos nessas redes de interações complexas e criar hipóteses testáveis de diferentes estratégias de manejo”, disse Galdini Raimundo. “Com isso, é possível construir comunidades estáveis, com todas as funções ecossistêmicas operando normalmente.”
Apesar do potencial dos modelos de redes adaptativas na gestão de ecossistemas, até recentemente os dados necessários para alimentá-los impediam sua aplicação como uma ferramenta preditiva na ecologia da restauração.
As técnicas de sequenciamento do genoma desenvolvidas nos últimos anos permitiram obter dados de interação de espécies em uma escala sem precedentes, dando origem ao big data da biodiversidade.
Segundo os pesquisadores, essas técnicas de sequenciamento possibilitaram não apenas obter dados da estrutura ecológica de redes, mas também sobre as relações filogenéticas entre espécies dentro de uma comunidade – o que é fundamental para prever como uma rede ecológica irá reconectar sua estrutura e como novas dinâmicas irão remodelar características e a abundância de espécies.
“Fundir técnicas de sequenciamento de genoma de última geração com redes ecológicas fornece novas ferramentas para estudar a resiliência de comunidades interagentes às mudanças ambientais, ao mesmo tempo que incorpora importantes atributos, como a diversidade funcional”, disse Darren Evans, professor da Newcastle University, na Inglaterra, e coautor do estudo.
Alguns dos gargalos para o uso desses modelos ecológicos evolutivos e preditivos são ampliar as colaborações em pesquisa, de modo a permitir monitorar locais para fazer as previsões de rede adaptativas, e aumentar a interação entre pesquisadores que realizam os trabalhos em campo e implementam as práticas de restauração e os teóricos.
“A aplicação desses modelos depende do estabelecimento de uma via de mão dupla entre o pesquisador que faz os modelos e gera as predições e quem está em campo, testando as práticas de restauração nessa escala de comunidade, para aprimorar os modelos, gerar predições mais acuradas e, com o tempo, em longo prazo, conseguirmos refinar essa engenharia da biodiversidade”, disse Galdini Raimundo.
O artigo Adaptive networks for restoration ecology (doi: doi.org/10.1016/j.tree.2018.06.002), de Rafael L. G. Raimundo, Paulo R. Guimarães Jr e Darren M. Evans, pode ser lido por assinantes da revista Trends in Ecology & Evolution em www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0169534718301393
Fonte: FAPESP

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

A vida excepcional e selvagem numa plataforma encravada na Floresta Amazônica.

Tranquila, a onça-pintada usa o duto da plataforma de Urucu para cortar caminho no coração da Floresta Amazônica – Guito Moreto / Agência O Globo
Uma onça-pintada preguicenta — animal que costuma se dissimular na mata — exibe-se sobre dutos da Petrobras, indiferente aos olhares a sua volta, perto de uma planta industrial no coração da Amazônia. A visita faz parte da rotina na Província Petrolífera de Urucu, que em 2018 completa 30 anos. São torres metálicas, tanques e esferas gigantes no meio da selva para produzir, por dia, 38 mil barris de petróleo, 13 milhões de metros cúbicos de gás natural e o equivalente a 115 mil botijões de 13 quilos de gás de cozinha (GLP). Uma superestrutura que, apesar de ser a maior produtora terrestre de óleo no país, desaparece na imensidão verde que a cerca, impondo à operação, essencial à Região Norte e a parte do Nordeste, desafios descomunais.
A começar pela odisseia logística para manter as engrenagens desse confim do Brasil, nas entranhas do estado do Amazonas. Em linha reta, as cidades mais próximas são Carauari e Tefé, a 170 e 180 quilômetros de distância, respectivamente. Do centro do município de Coari, onde o território está localizado, são outros 285 quilômetros. E da capital, Manaus, 650 quilômetros. Por recomendação de cientistas na época da construção do polo, não há estradas que liguem Urucu a lugar algum, com o intuito de não estimular o adensamento populacional da região. As únicas que existem estão dentro do complexo da Petrobras e dão acesso a alojamentos, portos e parte dos 65 poços de produção.
Para chegar a esse rincão, todo trabalhador — são cerca de 1.070 simultaneamente, em regime de escalas — aterrissa num avião turboélice, com capacidade para 47 passageiros, em voos diários de aproximadamente uma hora e meia de Manaus, ou três vezes por semana de Carauari. O restante, da alface das refeições a caminhões, válvulas e sondas, vai de barco. A viagem leva de sete a dez dias pelo Rio Solimões e, a partir de Coari, pelo sinuoso Rio Urucu, que se torna estreito e raso no período de vazante na Amazônia. Um complicador, sobretudo de agosto a outubro, que exige mão de obra local qualificada para não deixar encalhar as balsas, com calado de apenas 60 centímetros, nessa época do ano.
“É como navegar numa piscina. Uma pessoa baixa consegue atravessar o rio sem ficar submersa, o que aumenta o isolamento do lugar. Não estamos numa plataforma marítima. Mas o mar em nosso entorno é verde. Não é à toa que, nos dias de trabalho em Urucu, dizemos estar embarcados. Hoje, brinco que o lugar parece um hotel cinco estrelas. No início, no entanto, dormíamos em balsas, andávamos de trator por caminhos de lama, não havia telefone, nada”, contou o paraense Marques Cavalcante, gerente de suporte operacional da Petrobras que aportou na província antes mesmo do início da exploração, há 31 anos.
Grande parte da capital do Amazonas — cidade de mais de 2 milhões de habitantes, a sétima mais populosa do Brasil — tampouco tem a dimensão de quão crucial esse interior se tornou para sua sobrevivência. Desde 2009, há 663 quilômetros de gasoduto que cortam a selva, de Urucu até a Refinaria de Manaus (Reman). Das quatro Unidades de Processamento de Gás Natural existentes na floresta, na segunda semana de agosto partiram 5 milhões de metros cúbicos de gás, quase 90% para a geração de energia nas termoelétricas da capital.
O resto é levado para toda a Região Norte, o Maranhão, o Piauí e parte do Ceará. Também há dutos que conduzem o petróleo e o GLP até Coari, de onde são transportados por via fluvial a outras áreas.
A petroleira russa Rosneft também faz prospecções na região de Carauari e Tefé, depois de ter obtido os direitos de exploração de 16 blocos na Bacia do Solimões que pertenciam à PetroRio, antiga HRT. A questão é que adquirir expertise na selva pode consumir anos a fio. Em Urucu, os poços se espalham por uma área de 350 quilômetros quadrados, maior que 44% dos municípios brasileiros. E alguns são remotos, ou seja, não têm acesso por estrada, às vezes a mais de 50 quilômetros da base. Os helicópteros são usados para carregar de tudo até lá, por içamento com cabos. O transporte de uma única sonda de perfuração, desmontada, pode requerer até 500 viagens.
As onças não são os únicos animais a frequentar as instalações industriais. Em 2014, um avião colidiu com uma anta na decolagem da pista de Urucu. Quando a área do aeroporto foi cercada, vários homens tiveram de fazer força para carregar sucuris que habitavam o matagal. Recentemente, durante uma inspeção numa torre de telecomunicações, os técnicos encontraram outra cobra no alto da estrutura. Já os morcegos obrigaram a empresa a fazer adaptações na linha de produção de energia, que já parou por causa de um bicho-preguiça.
A diversidade de aves é outro cartão de visitas. O canto dos japiins, pássaro amarelo e preto que é nome de um bairro de Manaus, dá as boas-vindas a quem desembarca na província. Jacarés e veados volta e meia dão o ar da graça. E é esperado que eles apareçam, pois são indicadores de qualidade da gestão ambiental na base. Num santuário como esse, aliás, nada pode sair errado, sob pena de um enorme prejuízo à Floresta Amazônica e, por consequência, à Petrobras.
Para mitigar os impactos da atividade na selva, se a supressão de trechos da mata é inevitável, a empresa é obrigada a reflorestar áreas como jazidas e poços desativados. Numa dessas clareiras, está sendo criado um bosque de árvores protegidas, com seringueiras e copaíbas. Para a missão, a base conta com um viveiro de plantas nativas, com 55 mil mudas, um bromeliário e um orquidário, com uma das espécies ainda não identificada pelos botânicos.
Outro ponto sensível, num lugar que opera materiais altamente poluentes, é o lixo e o esgoto. Só no último mês de julho, foram geradas 150 toneladas de resíduos. Sem sua própria Central de Tratamento de Resíduos, essa cidade perdida se inviabilizaria num ambiente tão protegido. Na instalação, os restos de alimentos — uma média de 900 quilos por dia — são misturados com a madeira de pallets descartados e transformados em 1 tonelada diária de adubo, usado no reflorestamento.
A cada sete dias uma embarcação deixa Manaus com alimentos em contêineres, totalizando 100 toneladas de comida por mês — nenhum alimento é produzido ou recolhido da mata na província, onde também é proibido caçar e pescar. Numa semana comum, o cardápio tem sempre opções de carne, arroz, feijão, legumes, frutas e, às vezes, iguarias do Norte, como suco de cupuaçu, vatapá amazonense e farofa com farinha do Uarini, mais grossa e crocante que a tradicional.
O que não é preciso trazer de fora é produzido na base de operações, como o calçamento de vias e a energia elétrica, suficiente para abastecer uma cidade de 50 mil habitantes e que serve os processos de produção e os alojamentos de Urucu. O principal, o Vitória Régia, acomoda 980 pessoas em quartos equipados com ar-condicionado para enfrentar o calor local.
À noite, o lugar tem ares de vilarejo do interior. Os pátios fazem as vezes das pracinhas, onde as pessoas se encontram para bater papo, caminhar e, às vezes, comandar uma roda de samba, um forró ou carimbó. Cercado pela mata, pode parecer também um hotel de selva — com menos luxo do que os lodges de Manaus ou Anavilhanas, claro. Há dois restaurantes, área de jogos, academia de ginástica, cabines de telefone e auditório para palestras e cerimônias religiosas. E ainda quatro salas de TV, uma delas feminina, onde as mulheres têm prioridade na escolha da programação. Uma novidade num ambiente majoritariamente masculino.
As mulheres somam apenas 10% dos trabalhadores de Urucu. E só chegam a esse percentual porque muitas delas estão em atividades como limpeza e hotelaria. Envolvidas na produção e na gestão, elas são poucas, mas dispostas a mudar esse quadro.
“Somos minoria, porém fortes. Derrubamos os outros 900”, disse Roberta Viana. Oriunda de Quixadá, no sertão do Ceará, ela ocupa atualmente um dos mais altos cargos de Urucu. Outra nordestina, Carolina da Silva, do Recife, Pernambuco, comanda uma equipe de homens no centro de operações do polo, onde se monitora toda a província com dados de câmeras e sensores que detectam qualquer sinal de risco à operação. E, pela primeira vez em três décadas, há oito meses Urucu tem uma “prefeita”, Selma Fontes, de Aracaju, capital de Sergipe.
De fala mansa, mas certeira, seu cargo oficial é gerente de base, num regime de 14 dias em Urucu e 21 em casa. Carolina da Silva revelou que, quando Fontes está prestes a chegar, todos tratam de pôr a casa na mais perfeita ordem. “Não é linha-dura, mas justa”, dizem os colegas. Em campo, o rádio é companheiro inseparável da sergipana, solicitada para resolver todo tipo de demanda, dos aspectos da produção à convivência entre os trabalhadores. Acorda assim que o sol surge no horizonte — o café da manhã em Urucu é servido das 6 horas às 7 horas — e só para de noite, numa jornada de trabalho de pelo menos 14 horas.
“Preciso manter a cidade funcionando. É cansativo, mas não tem rotina. A parte mais fácil é trazer as pessoas para Urucu, o que já é bastante difícil. Temos o petróleo com a produção mais barata da Petrobras, com muito rigor no que se faz e se gasta. As pessoas e o ambiente ajudam. Fico muito surpreendida com o fato de ser um local de confinamento onde o nível de animosidade é muito baixo. Talvez porque estejamos na selva, com mais espaço que nas plataformas.”
Além de impor restrições naturais a seus “moradores”, Urucu tem regras rígidas. Assim que descem do avião, por exemplo, os celulares dos trabalhadores são lacrados, por motivo de segurança da informação, já que imagens da base só podem ser feitas com autorização. O uso da internet fica limitado a notebooks — que em tempos atuais também são os porta-retratos para matar a saudade da família — e a uma sala de autodesenvolvimento, novidade implementada por Fontes, onde há computadores para acesso a redes sociais, sites de notícias e cursos à distância.
Os cuidados com a segurança do trabalho também são rígidos — um acidente grave pode significar uma superoperação de transferência até Manaus. Para os demais atendimentos, ao lado do Vitória Régia há um ambulatório com uma infraestrutura que a maioria das cidades do interior do Amazonas não tem. São enfermarias, sala de emergência, espaço para pequenas cirurgias, consultórios e salas de isolamento. Urucu é livre, por exemplo, de malária, mas às vezes aparecem casos de trabalhadores que chegam doentes de suas casas.
Apesar de distantes, as cidades do entorno, no centro do Amazonas, também dependem da Província. De Carauari, com seus aproximadamente 28.300 habitantes, vêm 750 trabalhadores. Já Coari recebeu, no ano passado, R$ 52 milhões em royalties do petróleo e gás produzidos em seu território. Uma riqueza que ainda não se traduziu numa significativa melhoria de qualidade de vida no município, com cerca de 84 mil moradores numa área maior que o estado do Rio de Janeiro.
Com baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) — 0,586, numa escala de 0 a 1 —, Coari vive assombrada por escândalos políticos e pelo tráfico. É uma realidade que pouco lembra a de Urucu, a província instalada em seu território. A cidade virou ponto central da passagem de armas e drogas vindas de países como Peru e Colômbia pela rota do Solimões, o que gera ondas de violência. Um dos crimes de maior repercussão aconteceu em setembro de 2017, quando a atleta britânica Emma Kelty, que viajava de caiaque pela Amazônia, foi morta com tiros de espingarda e jogada no Solimões, depois de ser atacada por piratas no rio.
Fonte: RAFAEL GALDO – Época – O Globo

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Argentina desenvolve projeto para recuperar populações da onça-pintada.

Onça-pintada, o maior felino das Américas. Foto: Flickr (CC)/Hans De Bisschop

Na Argentina, a criação em dezembro de um novo parque nacional promete ampliar o potencial de um projeto que quer reintroduzir a onça-pintada na natureza. O animal teve sua população reduzida no país devido à caça e à perda do habitat.

Atualmente, existem apenas cerca de 200 espécimes do felino no país sul-americano. O relato é da ONU Meio Ambiente.

“Resilvestramento” é a palavra da moda entre os conservacionistas nos últimos tempos. Mas o que esse termo complicado significa? A palavra é uma forma de se referir a iniciativas que ajudam a natureza a se recuperar, reintroduzindo espécies, biodiversidade e processos ecossistêmicos em áreas afetadas pela atividade humana.
A vida silvestre do mundo entrou em colapso nos últimos cem anos, conforme a população humana e a atividade econômica — especialmente a agricultura comercial — se proliferaram. Mas existe agora uma crescente constatação de que a sobrevivência dos humanos no planeta exige áreas protegidas bem gerenciadas, onde a flora e a fauna possam florescer. A natureza fornece um leque de serviços ecossistêmicos que, em muitas partes do mundo, está sendo rapidamente degradado pela exploração humana dos habitats naturais.
Em dezembro de 2018, o Congresso da Argentina aprovou uma legislação que determinou a criação do Parque Nacional Iberá, com quase 160 mil hectares, a fim de garantir sua proteção no longo prazo. Douglas e Kristine Tompkins, empreendedores bem-sucedidos dos Estados Unidos, compraram a terra por meio de duas fundações, a Conservation Land Trust e a Flora y Fauna Argentina, que posteriormente doou a propriedade para o público, para que a área se tornasse um parque nacional.
“Hoje é um dia para celebrar”, afirmou Kristine Tompkins, presidente da Tompkins Conservation, na data em que a lei foi adotada. “Para a vida silvestre (que está) em casa aqui, para o povo da Argentina e para as futuras gerações, que vão vivenciar a beleza e a biodiversidade dessa paisagem incrível, a designação do novo parque é uma grande vitória.”
O novo parque nacional ladeia uma área protegida muito maior, de 553 mil hectares, o Parque Provicinal Iberá, criando uma enorme faixa contígua de parques. A região toda é centrada em uma das maiores zonas úmidas de água doce de toda a América do Sul. Combinados, esses perímetros de conservação formam o maior parque natural da Argentina.
“Essa é uma conquista fantástica da Kristine Tompkins, uma patrona da ONU Meio Ambiente para as Áreas Protegidas, e de seu falecido marido”, afirma a coordenadora da campanha Feroz pela Vida (Wild For Life, em inglês) da ONU Meio Ambiente, Lisa Rolls.
Segundo a especialista da agência das Nações Unidas, o organismo está explorando uma mudança estratégica na sua campanha, a fim de promover o “resilvestramento”.
Estima-se que, em dez anos, o Parque Iberá vai receber mais de 100 mil visitantes por ano. Isso deverá promover a prosperidade econômica nas comunidades locais, vizinhas ao parque, que em anos recentes, testemunharam o crescimento do ecoturismo.
Um dia histórico para os esforços de “resilvestramento” da Tompkins Conservation foi o 6 de junho de 2018, quando dois filhotes de onça-pintada nasceram no Parque Iberá. Eles foram os primeiros espécimes do animal a nascer na região em décadas.
A onça-pintada é o maior felino das Américas, bem como um dos mais icônicos do continente. Mas a caça, a perda do habitat e outras ameaças deixaram a espécie em perigo de extinção na Argentina. Com a perda de 95% de sua distribuição original, estimativas indicam atualmente que existem apenas cerca de 200 espécimes no país. Eles estão espalhados principalmente por extensões isoladas de selva na província de Missiones e nas florestas de encostas montanhosas, nas províncias de Salta e Jujuy.
Um programa pioneiro de conservação e reintrodução da onça-pintada foi iniciado em 2011. A equipe na Argentina — que inclui cientistas, veterinários, atores comunitários e gestores de políticas — tem colaborado com a meta de criar uma geração de onças que poderia ser solta em seu habitat natural e sobreviver de forma independente na natureza. A iniciativa conta com cinco onças adultas que vieram de zoológicos e centros de resgate em toda a América do Sul — os animais não são opções viáveis para a soltura no meio ambiente, mas podem procriar — e mais de 700 mil hectares de habitat em Iberá. O território é repleto de jacarés, capivaras e outras fontes de alimento, o que dá ao projeto um potencial incrível para apoiar o retorno dessa espécie ecologicamente importante e culturalmente icônica.
O parque não é apenas o berço dos primeiros filhotes de onça, como também o lar de populações recuperadas de espécies perdidas, incluindo o tamanduá-bandeira, o veado-campeiro, a anta, o caititu e a arara-vermelha.
Fonte: ONU

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Orcas estão passando fome nos EUA.

As orcas que vivem em Puget Sound, uma enseada do Oceano Pacífico localizada na costa noroeste dos EUA e pertencente ao estado de Washington, estão passando por graves problemas. Uma foto tirada na véspera de Ano Novo de uma das orcas, conhecida como “J-17”, mostra que o animal está morrendo de fome. Segundo matéria do portal Komo News, que faz a cobertura da região, Ken Balcomb, pesquisador do Center for Whale Research, diz que uma das orcas do local também está perigosamente magra devido à falta de peixe.
Existem apenas 74 orcas restantes na região, o número mais baixo em 35 anos. O governo do estado de Washington lançou um Plano de Recuperação das Orcas orçado em 1,1 bilhão de dólares. O plano inclui lidar com o escoamento da poluição, ajudar os incubatórios de peixes e adicionar balsas elétricas híbridas mais silenciosas. “Nossas orcas estão criticamente em perigo”, diz Chris Wilke, diretor executivo da organização defensora da água limpa Puget Soundkeeper, na matéria do Komo News.
“Precisamos tirar produtos químicos tóxicos do nosso esgoto. Precisamos proteger nossa água da chuva. E precisamos limpar nossos córregos em áreas rurais para garantir que eles sejam hospitaleiros para o salmão, para que possamos ter os abundantes recursos de salmão que já tivemos”, explica Wilke.
A Folha de S. Paulo reproduziu uma matéria do New York Times em julho de 2018 alertando para o problema. “Classificadas como espécie ameaçada desde 2005, as orcas estão morrendo de fome porque sua presa preferencial, o salmão rei, ou chinook, está em extinção. No mês passado, outro integrante do grupo Southern Resident de orcas, conhecido pelo apelido Crewser, que não é visto desde novembro, foi considerado como morto pelo Center for Whale Research”, diz o texto.
Uma outra ameaça, vinda de outro país mais ao norte, também é citada. “O recente acordo entre o governo canadense e o grupo Kinder Morgan para a expansão do oleoduto Trans Mountain Pipeline multiplicaria em 700% o tráfego de petroleiros no habitat das orcas, de acordo com algumas estimativas, e as exporia a ruídos excessivos e a possíveis vazamentos de petróleo. A construção deve começar em agosto, a despeito da oposição do governador Inslee e de muitos ambientalistas”.

Apocalipse no oceano

As orcas estão ameaçadas de extinção em todo o planeta, principalmente por causa da poluição. Um estudo publicado em setembro de 2018 aponta que metade da população destes animais estaria condenada.
“É como um apocalipse de baleias assassinas”, diz Paul Jepson, da Zoological Society of London, parte da equipe de pesquisa internacional por trás do estudo, em matéria publicada no jornal The Guardian.
O maior problema são os PCBs, compostos químicos venenosas que poluem os oceanos. Eles se concentram na cadeia alimentar, o que faz com que as baleias assassinas, os principais predadores, sejam os animais mais contaminados do planeta. E o que é pior, seu leite, rico em gordura, passa em doses muito altas para seus filhotes recém-nascidos. Some-se a isso a lentidão das orcas para se reproduzirem – baleias assassinas saudáveis levam 20 anos para atingir o pico de maturidade sexual e 18 meses para gestar um filhote, e o risco se torna enorme.
As concentrações de PCB encontradas em baleias assassinas podem ser 100 vezes maiores do que as concentrações seguras, danificando gravemente os órgãos reprodutivos, podendo causar câncer e danificar o sistema imunológico. A pesquisa analisou as perspectivas para as populações de baleias assassinas ao longo do próximo século e descobriu que aquelas no mar das nações industrializadas poderiam desaparecer entre 30 e 50 anos.
PCBs foram utilizados em todo o mundo a partir da década de 1930 em componentes elétricos, plásticos e tintas, mas sua toxicidade já é conhecida há 50 anos. Eles foram proibidos pelas nações nos anos 1970 e 1980, mas 80% dos 1 milhão de toneladas produzidos ainda não foram destruídos e ainda estão vazando para os mares através de aterros sanitários e outras fontes. [Komo News, The Guardian, Folha de S. Paulo]
Fonte: Hypescience

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Oslo, a capital ecológica da Europa.

A orla de Oslo costumava ser um monte de contêineres e um vasto cruzamento engarrafado de carros expelindo fumaça. Hoje, o tráfego é desviado através de um túnel submarino, e boa parte dele é composta de carros elétricos ou híbridos. Acima, a paisagem começa a ser dominada por um novo museu de arte sobre Edvard Munch e uma biblioteca central – ambos a serem inaugurados em 2020.
O novo empreendimento tem credenciais ambientais e culturais impressionantes, com todos os novos edifícios atendendo aos padrões de eficiência energética, explica Anita Lindahl Trosdahl, gerente de projetos do ano de Oslo como “Capital Verde da Europa”.
O escritório dela fica à beira-mar, a poucos passos de outro colosso cultural em fase de conclusão – o novo museu nacional. Ao mesmo tempo, novas moradias têm surgido em toda a cidade.
Os edifícios não são projetados apenas para funcionar de forma sustentável – o conselho da cidade também garante que as construções tenham um impacto ambiental limitado.
“Usamos nosso poder de mercado para introduzir uma construção livre de combustíveis fósseis”, diz Trosdahl. “Assim, a edificação será tão sustentável quanto possível não só durante seu tempo de utilização, mas também durante o período da construção em si”.
Mais ao norte, longe da orla marítima, fica o bairro de Vulkan, outro centro importante para construções ecologicamente corretas. No século 19, ele abrigava grande parte da indústria manufatureira de Oslo. Hoje, você pode encontrar colmeias no telhado de um dos edifícios modernos daqui, o Scandic Vulkan Hotel.
“Neste verão, tivemos 500 mil abelhas que produziram 271 quilos de mel”, diz Monica Egeberg, gerente-geral do hotel. A rede hoteleira vê as abelhas como um símbolo de sua abordagem respeitosa frente ao meio ambiente. “Também somos quase autossuficientes em energia”, diz Egeberg.
O hotel foi construído em 2011, quando o resto da antiga área industrial foi convertido em um bairro badalado com bares, restaurantes, entretenimento, escritórios e casas.
Uma usina de energia construída no porão de um antigo salão industrial, que agora também funciona como o maior mercado de Oslo, fornece mais de 80% de toda a eletricidade necessária para a vizinhança inteira usando um sistema de recuperação de calor, poços geotérmicos e painéis solares térmicos.
Iniciativas verdes urbanas como essas ajudaram Oslo a superar outras 13 cidades e receber o título de Capital Verde da Europa em 2019. A competição, lançada em 2008 pela Comissão Europeia, visa mostrar soluções que outras cidades possam imitar ou nas quais podem se inspirar.
Numa escala global, Oslo é uma cidade pequena: tem uma população de menos de 700 mil. Por si só, seus valiosos esforços para reduzir as emissões não retardarão em muito as mudanças climáticas. Mas Trosdahl acredita que a capital norueguesa seja perfeitamente adequada para a implantação de ideias pioneiras que possam fazer uma diferença real internacionalmente.
“Somos grandes o suficiente para testar soluções que também possam ser transferidas para cidades maiores”, aponta. “Estamos entre os melhores do mundo quando se trata da introdução de veículos elétricos, por exemplo, e outras cidades podem usar nosso modelo”.
Quase metade de todos os carros novos vendidos aqui são totalmente elétricos. Há bondes, ônibus elétricos e balsas, todos operando com energia hidrelétrica renovável. Durante os invernos gelados, uma usina de incineração de resíduos esquenta muitas casas da cidade.
A cidade pretende cortar as emissões em 36% em relação aos níveis de 1990 até o final do próximo ano e 95% até 2030. Para alcançar esse objetivo, o conselho municipal introduziu seu próprio orçamento climático – possivelmente o primeiro do tipo no mundo.
“Contamos as emissões de carbono da mesma maneira que contamos dinheiro”, diz o prefeito de Oslo, Raymond Johansen. “Todas as partes de Oslo precisam informar o quanto podem reduzir suas emissões, com metas significativas muito claras”.
O orçamento climático dá ao conselho uma visão geral das medidas tomadas em toda a capital, de modo que sempre se sabe se Oslo está no caminho certo para alcançar suas metas climáticas. E até agora, tudo indica que sim.
Johansen lidera uma coalizão do governo municipal que inclui seu próprio Partido Trabalhista, os Verdes e a Esquerda Socialista. Desde que chegou ao poder, há quatro anos, ele impôs sua agenda verde de forma implacável, algo a que alguns se opuseram.
As empresas, em particular, se opuseram a tornar grande parte do centro da cidade livre de carros, e os planos foram reduzidos. Carros serão banidos de algumas ruas principais. Em outras áreas, pedestres e ciclistas ganharão mais espaço.O tráfego rodoviário é a maior fonte de emissões de Oslo.
Os pedágios já causaram um corte considerável no setor. Mas como os preços têm aumentado ano a ano – de 3,2 euros em 2016 para 5,6 euros em 2019 para um carro particular – críticos dizem que o limite já foi alcançado por muitos.
“Agora, o principal desafio para avançarmos é reduzir o número de carros particulares”, diz Johansen. Mas ele admite que essa é uma ideia difícil de emplacar, porque a cidade não pode exercer tanta pressão econômica sobre os motoristas.
Os veículos totalmente elétricos são isentos de pedágio, contribuindo para o rápido aumento das vendas de carros movidos a combustíveis não fósseis. Mas é uma tática que favorece os que estão em melhor situação, fazendo com que muitos que não podem se dar ao luxo de trocar seus veículos a gasolina ou a diesel se sintam punidos injustamente.
Ainda assim, a maioria dos cidadãos de Oslo apoia as metas de emissões da cidade. Uma pesquisa recente mostrou que três em cada quatro moradores concordam ser importante fazer o necessário para reduzir as emissões em 95% até 2030.
Pouco mais da metade disse apoiar os objetivos de tornar o centro da cidade livre de carros, enquanto 63% disseram acreditar que as medidas introduzidas para alcançar as metas climáticas tornarão Oslo uma cidade melhor para se viver.
Fonte: Deutsche Welle

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Como a Finlândia fabrica roupa com madeira usada.

A primeira-dama finlandesa, Jenni Haukio, com um vestido feito de bétula reciclada
A Finlândia começou a fazer roupas de madeira.
Num baile de gala recente, a primeira-dama usou um vestido feito de bétula, um tipo de árvore.
Não foi uma escolha feita por acaso: ela usou-o para apoiar uma nova tecnologia que pode reduzir o dano ambiental provocado pela indústria da moda.
O vestido escolhido por Jenni Haukio, poeta e mulher do presidente, foi criado por acadêmicos da Universidade Aalto, na Finlândia, usando uma nova tecnologia sustentável chamada Ioncell.
Seus criadores dizem que o processo é mais respeitoso com o meio ambiente do que usar algodão ou fibras sintéticas e aproveita uma madeira que, do contrário, seria desperdiçada.

Tecido ‘suave e bonito’

O processo cria fibras têxteis a partir de materiais como madeira, jornais, papelão e algodão e os converte em vestidos, cachecóis e pastas para laptop.
A professora Pirjo Kaariainen, da Universidade Aalto, está satisfeita com as reações ao vestido.
“Ele foi desenhado por um jovem estudante de moda daqui que quis mostrar seu respeito pela natureza finlandesa e pela tradição do país de ter mulheres fortes”, diz ela.
A docente ressalta que a fibra funciona bem para a fabricação de roupa porque é “suave ao tato, tem um brilho incrível e cai muito bem”.
Há uma demanda crescente para que a indústria da moda reduza urgentemente seus impactos danosos ao meio ambiente.

Moda sustentável

A indústria da moda produz 10% das emissões de carbono globais e usa quase 70 milhões de barris de petróleo a cada ano para fabricar fibras de poliéster que podem levar mais de 200 anos para se decompor.
As microfibras de plástico de roupas sintéticas compreendem uma grande parte dos materiais feitos pelo ser humano que se acumulam nos oceanos.
Os ecologistas pedem aos consumidores que comprem roupa nova com menos frequência, mas mudar o comportamento das pessoas é difícil quando as empresas de moda promovem novas coleções a cada temporada.
Fazer roupas com materiais sustentáveis poderia ser uma alternativa mais realista.
A técnica foi desenvolvida por químicos e engenheiros da universidade, mas a professora Kaariainen ressalta que foi muito importante que estilistas fizessem o vestido para atrair o interesse das pessoas.
“As pessoas querem se vestir de um jeito que as faça sentir bem, então o desenho tem que ser bom”, diz ela.
“Precisamos fazer uma mudança para que os materiais sustentáveis sejam integrados ao sistema e as pessoas possam comprar facilmente roupas bonitas e confortáveis e que não causem danos ambientais.”

Repensando a moda

A primeira dama da Finlândia não foi a primeira usuária famosa de Ioncell. O presidente da França, Emmanuel Macron, levou um cachecol feito de jeans reciclados quando visitou Aalto em agosto passado.
Ana Portela, uma estilista que promove tecidos sustentáveis, diz que se pessoas influentes aderirem a essa nova moda os consumidores vão ter vontade de experimentar.
“Esse vestido não é para todo dia, mas definitivamente cumpriu a missão e é importante que pessoas como a primeira-dama advoguem por opções mais sustentáveis e promovam inovações”, diz ela.
Portela acha que os consumidores devem “liderar a revolução” usando seu poder de compra para incentivar empresas a fazerem coleções sustentáveis.
“Precisamos adotar um enfoque diferente sobre como vemos a moda”, diz ela.
“Isso poderia se traduzir na compra de produtos usados, produtos de origem certificada, uso de fibras naturais mais eficientes, como o cânhamo, na compra de um filtro para a máquina de lavar que evite que as microfibras entrem no sistema de água ou em pressão sobre as empresas para que tenham uma postura melhor.”
A equipe de Aalto espera ter uma linha de produtos feita com a nova fibra até 2020 e quer que essas roupas feitas de bétula façam parte da lista de compras de Natal de 2025.
Fonte: BBC

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Os segredos do clima guardados pela ilha mais isolada do mundo.

Tarefa de coletar dados na Ilha é díficil – o clima pode mudar de uma hora para outra e só é possível chegar até lá de helicóptero
É assim que a pesquisadora Liz Thomas descreve a sensação de trabalhar na inóspita Ilha Bouvet, uma pequena rocha vulcânica no Atlântico Sul. Esse território no meio do oceano, ao sul da Antártica, com altos penhascos cobertos por gelo, fica a milhares de quilômetros da civilização.
O clima lá não ajuda. As condições meteorológicas podem se deteriorar de maneira imprevisível. Em um momento, o céu está claro, mas no outro, você se vê rodeado por nuvens e névoas. Não é a toa que navegadores chamam Bouvet de a ilha mais remota do mundo e escritores e diretores de filmes de ficção científica a mencionam ou descrevem em livros e roteiros.
Mas essa ilha solitária tem chamado cada vez mais a atenção de cientistas pelo quanto ela pode nos informar sobre o clima da Antártica no passado.
Bouvet está em posição privilegiada para prover informações valiosas, já que ela se situa em um meio a um cinturão de ventos do oeste que têm efeito profundo na mudança climática.
Eles contribuem, por exemplo, para o aumento do nível do mar, ao mover para a superfície águas quentes do fundo do oceano que, então, derretem geleiras.
Pesquisadores coletam núcleos de gelo para desvendar informações sobre as mudanças climáticas através dos anos.
“Sabemos, por meio do histórico de observações, que esses ventos têm aumentado de força, mas esses registros só vão até 30 ou 40 anos atrás”, diz Liz Thomas, do instituto de pesquisa British Antarctic Survey (BAS)
“O que nos interessa é saber se esse aumento da força do vento é resultado de uma variação natural. Eles aumentam em velocidade e depois diminuem? Ou isso é algo incomum, um efeito do impacto humano sobre o clima?”, questiona.
Thomas e colegas pesquisadores recentemente desceram até a ilha de helicóptero – a única maneira de chegar lá – para coletar amostras de um núcleo de gelo. Os flocos de neve compactados são como um filme que registra o passado.
Quanto mais forte e rápido o sopro do vento, mais neve deve ser incorporada ao núcleo. E há outros marcadores. Diátomos – uma alga minúscula – que vivem na superfície do oceano são transportados da água para a neve.
Quanto mais vento, mais concentrada é a presença desses organismos nas camadas de neve da Ilha de Bouvet.

Gelo no mar

E não é apenas o registro do vento que a equipe de Thomas quer computar.
O grupo quer saber o tamanho do deslocamento anual de gelo nas águas, vindo da Antártica. Em alguns anos, as correntes chegam a empurrar o gelo até Bouvet.
A estudante de doutorado Amy King está examinando o núcleo de um composto orgânico específico que chegou até a ilha e que pode servir de base para entender as condições do gelo no mar existentes no passado.
A visibilidade para o acesso à ilha pode ficar prejudicada pelo acúmulo inesperado de nuvens
Esse composto orgânico é um químico associados com uma alga que floresce no mar quando o volume de gelo diminui (pelo derretimento), liberando pigmentos fotossintéticos.
“Quanto mais gelo sobre as águas a gente recebe no inverno, maior o volume (desses químicos). Quando o gelo derrete na primavera, há uma área maior para o fitoplâncton crescer”, explica King.
“Quanto mais fitoplâncton, mais desses compostos e ácidos metasulfônicos vamos encontrar no núcleo do gelo. Então, se estamos vendo compostos dessas origens no gelo, isso significa que houve um volume maior de gelo sobre as águas este ano (vindo da Antártica).”
As descobertas do time de Thomas foram apresentadas na American Geophysical Uninon, o maior encontro anual de cientistas que estudam a Terra e o espaço.
O pedaço de 14 metros de gelo retirado de Bouvet pela equipe de pesquisadores só traz dados sobre as condições de gelo aquático e de vento de 2001 para cá. Mas cientistas estão convencidos de que, se o grupo puder retornar à ilha, vai encontrar áreas de gelo e neve com registros mais antigos.
“Só ficamos em Bouvet por algumas horas, porque só podíamos trabalhar numa janela climática boa e tivemos que deixar a ilha rapidamente quando as nuvens começaram a baixar”, explica Thomas.
“Mas eu definitivamente acho que existe a possibilidade de voltar lá e coletar um núcleo mais profundo de gelo que traga informações de centenas de anos, se não milhares, sobre as variações climáticas.”
A pesquisa de Thomas foi feita em conjunto com as universidades de Maine, nos Estados Unidos, e Copenhague, na Dinamarca. Foi conduzida como parte da expedição antártica liderada pelo instituto de pesquisa Swiss Polar.
Fonte: BBC