sexta-feira, 8 de novembro de 2019

As seis mudanças urgentes para conter a emergência climática, segundo 11 mil cientistas.

Um estudo global elaborado por cerca de 11 mil cientistas confirmou as pesquisas que apontam que o mundo está diante de uma emergência climática.
O estudo (em inglês), baseado em 40 anos de dados obtidos a partir de diferentes medições, aponta que os governos estão fracassando no combate a essa crise e que, sem mudanças profundas e duradouras, estamos diante da perspectiva de “sofrimento humano inédito”.
O trabalho também aponta seis áreas em que medidas imediatas poderiam ter um grande impacto na contenção da crise.
1. Energia: A proposta do estudo é que políticos imponham altos impostos sobre a emissão de carbono, de forma a desestimular o consumo de combustíveis fósseis (como petróleo), além de eliminar os subsídios existentes para esse tipo de combustível.
Os pesquisadores defendem substituir o petróleo e o gás por energias renováveis e implementar medidas amplas de práticas de conservação, além de “deixar os estoques remanescentes de combustíveis fósseis no solo” — ou seja, deixar de explorá-los.
2. Poluentes de curta duração: Trata-se de um grupo de gases que ficam por pouco tempo na atmosfera, mas têm grande impacto no efeito estufa. São eles o metano, a fuligem e hidrofluorcabonetos, e os pesquisadores afirmam que limitar sua emissão tem o potencial de reduzir a atual tendência de aquecimento global em até 50% ao longo das próximas décadas, “além de salvar milhões de vidas e aumentar colheitas graças à redução da poluição do ar”.
3. Natureza: O estudo pede mais esforços para a preservação e a restauração de ecossistemas da Terra — por exemplo, fitoplâncton, recifes de corais, florestas, savanas, mangues e pântanos contribuem “significativamente” para a absorção de CO2. “Plantas terrestes e marinhas, animais e micro-organismos têm papéis importantes no armazenamento do carbono”, diz o texto.
“Devemos rapidamente impedir a perda de habitat e de biodiversidade, protegendo as florestas ainda intactas, sobretudo aquelas com alta taxa de absorção de carbono, (…) e ao mesmo tempo aumentar o reflorestamento em grande escala. Embora a terra disponível esteja se limitando em alguns lugares (por causa das mudanças climáticas), um terço da redução de emissões necessária até 2030 para o (cumprimento do) Acordo de Paris pode ser obtido com essas soluções naturais.”
4. Comida: O estudo argumenta que uma alimentação mais à base de frutas, vegetais, grãos e oleaginosas e menos voltada para a proteína animal, particularmente gado ruminante, “pode melhorar a saúde humana e reduzir significativamente as emissões de gases do efeito estufa”, diz o texto, agregando que práticas mais eficientes de cultivo e colheita e redução da “enorme quantidade de desperdício de comida” também são vitais.
5. Economia: Para os cientistas, a extração extensiva de matérias-primas e a exploração em excesso dos ecossistemas, na busca pelo crescimento econômico, devem ser “rapidamente contidas para a manutenção de longo prazo da nossa biosfera”.
“Precisamos de uma economia livre de carbono e políticas públicas que guiem decisões econômicas nesse sentido”, argumenta o estudo. “Nossa meta deve mudar de crescimento do PIB para a sustentabilidade de ecossistemas e a melhora do bem-estar humano, priorizando necessidades básicas e reduzindo a desigualdade.”
6. População: O estudo aponta que a população humana na Terra aumenta em mais de 200 mil pessoas por dia e defende que isso seja estabilizado (e depois reduzido) “com parâmetros que garantam a integridade social”.
“Há práticas comprovadas e eficientes que fortalecem os direitos humanos ao mesmo tempo em que reduzem taxas de fertilidade e reduzem os impactos do crescimento populacional nas emissões de gases-estufa e na perda de biodiversidade”, prossegue o texto. “Essas políticas tornam o planejamento familiar disponível a todas as pessoas, removem barreiras a seu acesso e alcançam a plena igualdade de gênero, incluindo a educação primária e secundária como norma geral, sobretudo para meninas e jovens mulheres.”

‘Obrigação moral’

Os cientistas que endossam o estudo afirmam ter “uma obrigação moral de claramente advertir a humanidade sobre ameaças catastróficas e falar as coisas da forma como elas são”.
“Temos altas emissões, temperaturas crescentes, sabemos disso há 40 anos e não agimos — não é necessário ser um gênio para saber que temos um problema”, diz à BBC um dos principais autores da pesquisa, Thomas Newsome, da Universidade de Sydney.
Divulgado no mesmo dia, 6 de novembro, em que dados de satélite apontam que o mês de outubro foi o mais quente já registrado, o estudo afirma que apenas medir as temperaturas da superfície terrestre é um modo inadequado em evidenciar os perigos reais de um mundo em processo de aquecimento.
Por isso, os autores listaram diversos dados que mostram, nos últimos 40 anos, o crescimento das populações humana e animal, a produção per capita de carne (que é altamente poluente) e o consumo de combustíveis fósseis.
Houve, ao mesmo tempo, avanços em outras áreas. Por exemplo, a energia renovável cresceu significativamente, embora ainda tenha fatia muito menor que o uso de combustíveis fósseis.
Mas, somando tudo, os pesquisadores dizem que estamos indo na direção errada e intensificando a emergência climática.
“Uma emergência significa que se não agirmos ou respondermos aos impactos das mudanças climáticas e reduzirmos as emissões de carbono, a produção de gado, o desmatamento e o consumo de combustíveis fósseis, os impactos provavelmente serão mais severos dos que os que já vivemos atá agora”, prossegue Newsome.
“Isso pode fazer com áreas da Terra se tornem inabitáveis para humanos.”
Os cientistas signatários se dizem, também, frustrados pelo fato de que múltiplas conferências e assembleias climáticas tenham tido poucos efeitos práticos. Mas destacam que “fomos encorajados por uma recente onda global de preocupação com o clima — governos adotando novas políticas, crianças realizando greves, processos judiciais avançando, e movimentos cidadãos demandando mudanças”.
Fonte: BBC

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

“Mudança climática pode provocar sofrimento sem precedentes”

Mais de 11 mil cientistas de 153 países advertiram em um manifesto que a humanidade corre o risco de passar por um “sofrimento sem precedentes” se não forem colocadas em prática mudanças radicais para reduzir os fatores que contribuem para as alterações climáticas.
“Declaramos claramente e inequivocamente que a Terra está enfrentando uma emergência climática”, diz o texto, publicado nesta terça-feira (05/11) na revista BioScience. “Para garantir um futuro sustentável, precisamos mudar a forma como vivemos. Isso implica grandes transformações na maneira como nossa sociedade global funciona e interage com os ecossistemas naturais.”
Os cientistas ainda afirmam que não há tempo a perder. “A crise climática chegou e está se acelerando mais rapidamente do que muitos cientistas esperavam. É mais grave do que o previsto, ameaçando os ecossistemas naturais e o destino da humanidade.”
De acordo com o documento, os cientistas analisaram informações recolhidas e publicadas ao longo de mais de 40 anos sobre o uso de energia, registros de temperaturas na superfície da Terra, crescimento populacional, desmatamento, perda de calotas polares, índices de fertilidade, emissões de dióxido de carbono e produto interno bruto das nações. 
A publicação coincide com o aniversário de 40 anos da primeira Conferência sobre Alterações Climáticas, realizada em Genebra, na Suíça, em 1979. Desde então, cientistas que participam de conferências semelhantes vêm alertando sobre a ameaça da mudança climática e advertindo governos e empresas sobre a necessidade de tomar medidas para moderá-la.
“Os cientistas têm a obrigação moral de alertar a humanidade sobre qualquer grande ameaça. Com base nas informações que temos, fica claro que enfrentamos uma emergência climática”, disse Thomas Newsome, da Universidade de Sydney, na Austrália, um dos autores do manifesto.
O artigo ainda inclui indicadores que os pesquisadores descrevem como “sinais vitais” relacionados a essa mudança, bem como as áreas que requerem ação global imediata.  
Alguns desses indicadores de atividade humana são positivos, como a crescente incorporação de fontes de energia renováveis, mas a maioria dos indicadores pinta um cenário sombrio, incluindo a crescente população de animais para consumo humano, perda de florestas e emissões de dióxido de carbono.
Os autores expressaram sua esperança de que esses “sinais vitais” sirvam como guia para governos, setor privado e público em geral para que seja entendida “a magnitude da crise” e para que sejam monitorados “os progressos alcançados” e reorganizadas “as prioridades para mitigar as alterações climáticas”.  
Os cientistas signatários enfatizaram seis objetivos: reforma do setor de energia, redução de poluentes no curto prazo, restauração de ecossistemas, otimização do sistema alimentar, estabelecimento de uma economia livre de dióxido de carbono e uma população humana estável.
Apesar da amplitude de suas preocupações e da magnitude dos esforços que reivindicam, os cientistas expressaram certo otimismo ao mencionarem “um aumento recente na atenção para este problema”.
“Agências de vários governos fazem declarações de emergência climática, há greves de crianças em idade escolar, tribunais movem ações judiciais por danos ambientais, movimentos de cidadãos exigem mudanças, e muitos países, estados, províncias, cidades e empresas estão respondendo”, concluem.
Fonte: Deutsche Welle
“O risco é que o óleo atinja áreas mais sensíveis, os corais. O mais efetivo lá é o patrulhamento do mar. A ideia que a gente está executando é evitar que o óleo atinja essas áreas. Pois a limpeza dos corais é mais complexa e cara, nem se compara com a limpeza de uma praia”, explica Cottens, do ICMBio.
Para Coelho, do Projeto Tamar, o número relativamente baixo de tartarugas mortas devido ao derramamento de óleo é uma grata surpresa. Em todo o Nordeste, foram encontrados cerca de vinte animais mortos. Em Sergipe, por exemplo, a pesca com redes de arrasto mata cerca de mil tartarugas por ano, de acordo com o oceanógrafo. Além disso, ajudou o fato de o petróleo ter vazado em alto mar e, portanto, longe da costa.
“Se o vazamento tivesse ocorrido mais próximo da praia, com certeza a mortalidade das tartarugas teria sido maior. Mas como o vazamento aconteceu longe da costa, os animais aparentemente visualizaram as manchas. Pode ser, mas a gente não sabe exatamente o que está acontecendo”, diz Coelho.
Ainda não está claro se novas grandes quantidades de petróleo atingirão o litoral de Sergipe. De qualquer forma, é preciso estar preparado para tudo, segundo Cottens. “Não há uma previsão, mas há um risco.”
De qualquer forma, especialistas se mostram preocupados. “Existe uma informação vinda do governo de que tem mais óleo para chegar. Estamos apreensivos com essa informação. Se ela se concretizar, será muito ruim para as tartarugas”, afirma Coelho. “Quanto mais óleo chegar de agora em diante, pior para as tartarugas, pois estamos entrando no pico reprodutivo, e mais nascimentos de tartarugas ocorrerão.”
Fonte: Deutsche Welle

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Desmatamento ameaça coalas na Austrália.

Ver os animais sofrendo após um incêndio é uma das partes mais difíceis do trabalho de Cheyne Flanagan no hospital para coalas de Port Macquarie, na costa sudeste da Austrália.
“O choro de um coala queimado é um som tão triste”, contou Flanagan, diretora clínica do hospital, à DW, acrescentando que o calor radiante após um incêndio pode ser o mais prejudicial para essa espécie única.
“O pobre animal fica virtualmente cozido. É como estar num micro-ondas, derretendo seu pelo”, explicou Flanagan. E aqueles que saem vivos das chamas precisam suportar o sofrimento durante todo o processo de recuperação. “As queimaduras são realmente muito dolorosas”, disse.
De acordo com um relatório do Climate Council, uma ONG sediada em Melbourne e especializada em pesquisa climática, a temporada de incêndios florestais começou mais cedo nos últimos anos e queimou áreas que não esperadas.
Em setembro deste ano, os estados de Nova Gales do Sul e Queensland, no leste australiano, sofreram os piores incêndios da história. Teme-se que 350 coalas raros tenham morrido num incêndio que atingiu uma área não muito longe do hospital de Port Macquarie, a cerca de 400 quilômetros ao norte de Sydney, na semana passada.
Especialistas apontaram o desmatamento para a agricultura em larga escala como uma das causas dos recentes incêndios florestais na Austrália. As árvores derrubadas liberam carbono na atmosfera, que alimenta o aquecimento, que, por sua vez, aumenta o risco do fogo.
“O calor severo das mudanças climáticas causa mais e piores incêndios”, disse Stuart Blanch, diretor de políticas de conservação de florestas e bosques da Austrália na ONG ambiental World Wide Fund for Nature (WWF), em Sydney.
Blanch estima que o coala será “funcionalmente extinto” nos próximos 50 anos. Isso significa que não haveria mais populações saudáveis e geneticamente diversas suficientes na natureza. Não apenas devido ao fogo, mas, sobretudo, devido à perda do habitat natural.
Segundo a WWF, cerca de 395 mil hectares de vegetação nativa foram devastados no estado de Queensland entre 2015 e 2016, o que causou a morte de cerca de 45 milhões de animais, incluindo coalas, pássaros e répteis.
“A Austrália é o único país desenvolvido que faz parte da lista global de focos graves de desmatamento da WWF”, disse Blanch à DW. Ele acrescentou que, enquanto Queensland continua derrubar florestas “num ritmo alarmante”, o governo de Nova Gales do Sul flexibilizou as leis sobre a derrubada de árvores em agosto deste ano.
“Todos os dias nos últimos dois anos, mais de 3 mil hectares têm sido devastados no último habitat remanescente de coalas em Nova Gales do Sul”, acrescentou Blanch.
Uma cura silenciosa para os coalas
Embora não possam salvar sozinhos as espécies que sofrem ferimentos ou queimaduras, Flanagan e sua equipe encontraram em 2013 um método que parece tratar com sucesso queimaduras em coalas se os animais forem resgatados a tempo.
“Foi uma descoberta casual depois de um incêndio que me ensinou que nutrição e tranquilidade são essenciais no processo de cicatrização após um incêndio”, contou Flanagan. A especialista e um grupo de voluntários levaram oito coalas com queimaduras relativamente leves ao hospital de Port Macquarie. “Eles estavam enlouquecendo porque estavam com muito medo”, recordou.
Ela colocou os coalas em recintos com muitas folhas para comer, água, sombra e silêncio. Embora o termo coala signifique “sem beber” em algumas línguas aborígenes, eles bebem quando estão doentes ou depois de um incêndio.
“Foi tão surpreendente que, sem medicação, e apenas com alimentos de boa qualidade e um ambiente calmo, eles começaram a se curar”, recordou Flanagan.
Em poucas semanas, as patas e as unhas queimadas dos coalas, que são de vital importância para escalar e viver nas árvores, começaram a se curar. Os animais também pareciam ter poucas infecções secundárias devido aos ferimentos.
Atualmente, Flanagan treina voluntários de todo o mundo sobre cuidados com os coalas. O interesse e o apoio de países como Alemanha, Estados Unidos e Suíça são vitais, pois podem levar a doações essenciais para ajudar na preservação dos animais selvagens.
Mas, segundo Flanagan, a maior ajuda de todas seria proteger o habitat natural dessa espécie icônica da Austrália. “As florestas são tão cruciais. Precisamos parar de derrubar as árvores.”
Fonte: Deutsche Welle

“O pior está por vir”, diz Bolsonaro sobre óleo no Nordeste.

O presidente Jair Bolsonaro disse na noite deste domingo (03/11) que o vazamento de óleo que há mais de dois meses afeta o Nordeste foi, “ao que tudo parece”, criminoso e que a situação deve piorar.
“O que chegou às praias é uma pequena parte do que foi derramado. O pior está por vir, uma catástrofe muito maior”, afirmou o presidente em entrevista à TV Record.
Porém, o ministro da Defesa, Fernando Azevedo, não confirmou as declarações de Bolsonaro. Segundo o ministro, o governo não dispõe de informações sobre o volume total de óleo que ainda pode chegar à costa brasileira.
“Nós não sabemos a quantidade derramada, o que está por vir ainda”, disse o ministro.
Azevedo ainda afirmou que a Marinha está acompanhando as ocorrências de óleo na costa, mas que o avanço das manchas não é facilmente detectado por satélites ou radares. “É difícil, porque ele [o óleo] fica a meia água, é imperceptível”, disse.
Ainda nesta segunda-feira, os dois maiores navios da Marinha do Brasil saíram do Rio de Janeiro em direção ao Nordeste para ajudar no combate ao vazamento. A medida foi tomada mais de 60 dias após o material ser detectado na costa da região.
No domingo, Bolsonaro disse que “todos os indícios levam ao cargueiro” da Delta Tankers.
A empresa grega, dona do navio petroleiro Bouboulina, tido pelas autoridades brasileiras como principal suspeito pelo vazamento, negou no sábado estar envolvida no caso.
A companhia afirmou, através de comunicado, que a embarcação saiu da Venezuela em 19 de julho e que chegou a seu destino sem problemas, onde “descarregou sua carga total sem perdas”.
“Não há evidências de que o navio parou, realizou qualquer tipo de operação STS (de navio para navio), sofreu algum vazamento, ou desviou-se de sua rota, em seu caminho da Venezuela para Melaka, na Malásia”, acrescenta a nota.
O Bouboulina atracou na Venezuela em 15 de julho, ficou ali por quatro dias e continuou viagem rumo à Malásia, pelo Atlântico, vindo a aportar apenas na África do Sul, em 9 de agosto. Segundo suspeitam os investigadores, foi no trajeto que ocorreu o vazamento.
Investigações indicaram que o vazamento de petróleo bruto ocorreu a cerca de 700 quilômetros da costa brasileira “entre 28 e 29 de julho”. De acordo com autoridades brasileiras, apenas o navio de bandeira grega atravessou a região no período.
Na sexta-feira, a Polícia Federal efetuou dois mandados de busca em escritórios no Rio de Janeiro ligados ao navio grego suspeito de causar o vazamento. O ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, disse a jornalistas que a Delta Tankers já havia sido notificada sobre o assunto.
A Marinha disse que o óleo coletado nas praias do litoral nordestino foi submetido a análises em laboratórios que comprovaram ser originário de campos petrolíferos da Venezuela.
Desde o início de setembro, cerca de quatro mil toneladas de petróleo chegaram a 314 praias do Nordeste.
No domingo, Azevedo e Silva acompanhou as operações em Abrolhos, região que abriga o arquipélago homônimo, no sul da Bahia, e a maior biodiversidade marinha de todo o Atlântico Sul, e onde as manchas começaram a aparecer nos últimos dias.
O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) diz que o óleo pode chegar ainda ao Sudeste, nos estados do Espírito Santo e Rio de Janeiro. O órgão foi acionado pelo comitê de crise do governo federal e atua para detectar movimentação do óleo no mar.
Fonte: Deutsche Welle

Escassez alimentar e hídrica deve gerar colapso da natureza nos próximos 30 anos.

Cerca de cinco bilhões de pessoas, principalmente na África e Ásia Meridional, serão prováveis vítimas da escassez de alimento e água potável nas próximas décadas com o declínio da natureza. Outras centenas de milhões podem ficar vulneráveis ao aumento dos riscos de grandes tempestades litorâneas, de acordo com um inédito modelo que examina de que forma a natureza e os humanos podem sobreviver juntos.
“Eu acredito que não seja surpresa para ninguém que bilhões de pessoas podem ser afetadas até 2050”, diz Rebecca Chaplin-Kramer, ecologista de paisagens naturais da Universidade de Stanford. “Sabemos que dependemos da natureza para muitas coisas”, afirma Chaplin-Kramer, principal autora do artigo “Global Modeling Of Nature’s Contributions To People” (“Modelagem Global das Contribuições da Natureza ao Homem”, em tradução livre), publicado na revista científica Science.
Esse acentuado declínio da natureza foi explicitado na inédita avaliação global da biodiversidade, já divulgada este ano. A atividade humana resultou na severa alteração de mais de 75% das áreas terrestres do planeta e 66% dos oceanos, colocando um milhão de espécies em risco de extinção, de acordo com o Relatório Global de Avaliação da Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos.

A relação entre o homem e a natureza

O bem-estar humano depende das contribuições da natureza, também chamadas de serviços ecossistêmicos. O novo modelo analisou três das contribuições ou serviços da natureza: provisão de água potável; proteção costeira e polinização de plantações. O modelo revela que os futuros declínios desses serviços afetarão os povos da África e da Ásia Meridional com mais intensidade, pois eles dependem mais diretamente da natureza, afirma Chaplin-Kramer em uma entrevista. Os habitantes de países mais ricos sentem menos os impactos devido à importação de alimentos e infraestrutura.
Para analisar a provisão de água potável, o modelo mapeou plantas que crescem nas proximidades de lagos e rios. Dependendo da topografia, clima, escoamento superficial e outros fatores, é possível estimar a quantidade de fertilizante de nitrogênio residual nos cursos d’água, oriundo de plantações localizadas à montante. Quando feita uma sobreposição com mapas de fontes de água potável para consumo humano, tem-se uma estimativa da possível exposição à poluição por nitrato. “Foram utilizados outros estudos que mediram os níveis efetivos de poluição para validar o modelo”, diz Chaplin-Kramer.
De mesma forma, também foi feita uma sobreposição entre mapas de recifes de corais, manguezais, algas marinhas e sapais, que oferecem proteção contra erosão litorânea e maré de tempestade, e mapas de áreas povoadas no litoral.
Os polinizadores silvestres precisam de um habitat natural para sobreviver, então também foi feita uma sobreposição entre mapas de áreas de cultivo de alimentos e áreas atuais de habitat natural.
O modelo, em seguida, mapeou as nossas necessidades sociais em termos de escoamento total de nitrogênio, risco litorâneo e produção alimentar com dependência de polinização. Esse mapeamento foi comparado a áreas onde a natureza ainda presta esses serviços, de modo a revelar lacunas entre o que a humanidade precisa e o que natureza nos fornece.
Os pesquisadores, então, analisaram três diferentes cenários futuros envolvendo o uso da terra, o clima e a mudança populacional até 2050, conforme uma análise realizada pela Carbon Brief. São cenários padronizados que incorporam mudanças na sociedade, na demografia e na economia.
O estudo faz um “retrato altamente preocupante do ônus social que teremos que enfrentar ao perdermos a natureza”, escreve Patricia Balvanera, ecologista da Universidad Nacional Autónoma de México, em um artigo publicado na mesma edição da revista científica Science. “O que assusta é que o modelo analisou somente três das 18 contribuições para o bem-estar humano identificadas por nós”, diz Balvanera em uma entrevista.
(Saiba a opinião de E.O. Wilson, uma das maiores autoridades em biologia e preservação, sobre o que devemos fazer para salvar a natureza.)

Revirando cada canto da Terra

O declínio da natureza é visível — já perdemos 85% de todas as áreas úmidas, por exemplo —, mas os impactos desse prejuízo não o são, ela afirma. O novo modelo torna tangíveis esses tipos de impactos, mostrando exatamente quantas pessoas serão afetadas, e onde. Sua precisão também é suficiente para revelar os efeitos da perda da natureza em cada parcela de 300 x 300 metros da Terra. “Com isso, sabemos onde a recuperação da natureza ou sua preservação garante os maiores benefícios”, diz Balvanera.
A magnitude desses impactos não será minimizada pela tecnologia ou pela infraestrutura, afirma. A Ásia Meridional precisaria construir milhares de unidades de tratamento de água para fornecer água potável às pessoas, ao passo que a natureza faz isso de graça. Madagascar não dispõe de recursos para erguer muros litorâneos para proteger seus litorais, mas poderia recuperar suas comunidades costeiras de manguezais e algas marinhas.
O relatório global de avaliação concluiu que são necessárias mudanças drásticas nos nossos sistemas econômicos, energéticos, de governança, de produção de alimentos e outros, diz Sir Robert Watson, ex-Presidente da Plataforma Político-Científica Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), que realizou a avaliação.
“É esse tipo de ferramenta que analisa os futuros plausíveis com base na ciência, e que ajuda os governos a evitar desfechos desfavoráveis”, diz Watson.
O modelo está disponível online para que qualquer pessoa possa estudar os possíveis impactos de diferentes decisões políticas, inclusive as consequências imprevistas. Por exemplo, se a sociedade focar na bioenergia como forma de combater as mudanças climáticas, o modelo pode mostrar os possíveis impactos dessa decisão sobre a biodiversidade e a segurança alimentar, diz Watson.
Fonte: Stephen Leahy – National Geographic

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Como a Europa multiplicou suas florestas (e por que isso pode ser um problema).

Ao caminhar pela Floresta de Landes, no sudoeste da França, é difícil imaginar que todos aqueles pinheiros não estavam ali há dois séculos. A área de 14 mil km² era uma região pantanosa cercada por dunas. A partir do século 19, começaram a ser plantadas árvores para produzir madeira e resina.
Hoje, Landes é não apenas a maior floresta da França, mas também a maior já criada pelo homem na Europa ocidental — e um bom exemplo para explicar como a Europa ficou mais verde.
Dados da Agência Ambiental Europeia (EEA, na sigla em inglês) apontam que, desde 1990, o continente ganhou ao menos 170 mil km² de florestas, área equivalente à do Uruguai, uma expansão de pouco mais de 10% da área total até então.
Mas esse processo vem ocorrendo há mais tempo, diz Annemarie Bastrup-Birk, especialista em florestas da EEA. “Os últimos 200 anos da Europa são uma história de florestamento”, afirma ela, em referência ao método de criação de áreas verdes em regiões que antes não eram ocupadas por florestas, por meio do cultivo de árvores.
Originalmente, a vegetação natural europeia era formada por florestas, explica Bastrup-Birk. Mas, com a colonização do continente, elas foram derrubadas para usar sua madeira para construção, produção de energia, aquecimento, fabricação de móveis, entre outras atividades.
“Diante da necessidade de obter mais madeira, o que restava passou a ser preservado e também se começou a plantar árvores para atender a essa demanda de forma planejada.”
Assim, enquanto a área florestal europeia perdeu, entre 1750 e 1850, cerca de 190 mil km², de 1850 até os dias de hoje cresceu cerca de 386 mil km². Hoje, é 10% maior do que antes da Revolução Industrial.

‘Não encontrei 1 km² de floresta na Europa’, disse Bolsonaro

As florestas da Europa ganharam destaque em meio à crise gerada pela suspensão de repasses para projetos de conservação ambiental por Alemanha e Noruega.
Esses e outros países europeus criticaram a política ambiental do governo de Jair Bolsonaro (PSL), especialmente após o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) apontar um aumento acentuado do desmatamento na Floresta Amazônica neste ano.
Entre janeiro e setembro, houve um crescimento de 92,7% em comparação com o mesmo período de 2018, de acordo com os dados mais recentes.
Em reação, o presidente disse que gostaria de “mandar um recado” à chanceler alemã, Angela Merkel, que suspendeu um financiamento de US$ 80 milhões para projetos de proteção da Amazônia. “Pegue essa grana e refloreste a Alemanha, ok? Lá está precisando muito mais do que aqui”, afirmou em agosto.
Um mês antes, o presidente já havia questionado a autoridade de Merkel e do presidente francês, Emmanuel Macron, de criticar a política ambiental brasileira. “Sobrevoei a Europa por duas vezes e não encontrei 1 km² de floresta”, disse.
Em 2007, o ex-presidente Lula fez declarações semelhantes ao afirmar que o Brasil “ainda tem 69% da sua mata original preservada, enquanto os países ricos, que tentam nos dar lição, só têm 0,3% das suas florestas preservadas”.

Menor uso de madeira e êxodo rural

No entanto, florestas ocupam hoje 1,8 milhão de km² da Europa — ou 43% de todo o continente, o que faz dele uma das regiões do mundo mais ricas em florestas, de acordo com a EEA.
De fato, grande parte da vegetação original não existe mais: apenas 3% da área total de florestas na Europa é de mata nativa, segundo a EEA.
A maior parte do que existe hoje se deve ao florestamento, mas não só. Mais recentemente, especialmente desde 2000, vem ocorrendo uma expansão natural das florestas já existentes.
Uma combinação de fatores permitiu a volta das árvores. “Com a eletricidade e os combustíveis fósseis, o consumo de madeira caiu drasticamente”, diz Bastrup-Birk.
Ao mesmo tempo, esse crescimento florestal foi favorecido pelo êxodo das zonas rurais para as urbanas, explica o diretor-adjunto para florestas do World Resources Institute (WRI), organização não governamental dedicada a pesquisas na área ambiental.
“Em países como Espanha e Itália, há vilarejos que estão sendo abandonados, assim como campos de cultivos menores, porque o preço destes produtos não está alto, e seus donos os vendem e vão para as cidades em busca de empregos”, afirma Stolle.
“Também há uma preocupação maior de muitas prefeituras de criar áreas verdes e ampliar as florestas em suas cidades e nas regiões do entorno para o proveito dos moradores e para atrair turistas.”

Impactos negativos no meio ambiente

Mas a expansão das florestas não é acompanhada apenas por boas notícias e pode, inclusive, não ser de todo benéfica, de acordo com estudos recentes.
Uma pesquisa da União Internacional pela Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês), organização britânica que monitora o status de espécies biológicas, aponta que, entre as 454 espécies de árvores nativas da Europa, 42% estão ameaçadas de extinção no continente.
Entre as espécies endêmicas, aquelas que não existem em nenhum outro lugar do mundo, a situação é ainda pior: 58% estão ameaçadas.
Isso se deve à perda ou destruição de áreas naturais e pelo avanço da agricultura e de espécies invasoras e as mudanças climáticas, diz o estudo.
“Isso mostra a terrível situação de muitas espécies negligenciadas e subvalorizadas que formam a espinha dorsal dos ecossistemas da Europa e contribuem para um planeta saudável”, diz Luc Bas, diretor do escritório europeu da IUCN.
Ao mesmo tempo, a ideia de que plantar árvores ajuda a combater as mudanças climáticas porque elas absorvem carbono foi questionada por outra pesquisa, publicada em 2016 na revista Science.
Cientistas apontam que, na Europa, árvores cultivadas intensificaram o aquecimento global. Eles afirmam que a substituição de espécies de folhas largas, como carvalhos, por coníferas, como pinheiros, é uma das principais razões do impacto negativo.
Nos últimos 150 anos, privilegiou-se o cultivo de árvores de crescimento mais rápido e maior valor comercial, como coníferas. Por outro lado, estas espécies são geralmente mais escuras e absorvem mais calor do que árvores de folhas largas.
“Devido à mudança para espécies de coníferas, houve um aquecimento na Europa de quase 0,12°C, porque as coníferas absorvem mais radiação solar”, afirma Kim Naudts, principal autora do estudo.
Os pesquisadores afirmam que este aumento equivale a 6% do aquecimento global atribuído à queima de combustíveis fósseis e que impactos semelhantes são prováveis em regiões onde ocorreu o mesmo tipo de florestamento. Por isso, sugerem ser necessário examinar com cuidado os tipos de árvores que são plantadas.

‘Nem sempre plantar árvores é uma boa ideia’

Bastrup-Birk, da EEA, diz que o resultado deste estudo é relevante, mas ressalta que leva em conta apenas um aspecto destes ecossistemas.
“Florestas são multifuncionais, porque retiram carbono da atmosfera e o estocam, promovem uma maior biodiversidade, impactam a qualidade de vida. Então, precisamos olhar para isso”, afirma especialista.
“Mas este estudo reforça que não basta plantar árvores. É importante saber o que e onde plantar e fazer um melhor gerenciamento florestal para termos os melhores resultados possíveis daqui a 50 ou 100 anos, que é o tempo que se leva para formar uma nova floresta.”
A expansão das florestas também deve ter um limite, diz Stolle, da WRI, para que não seja negligenciada a necessidade de cultivar alimentos para uma população mundial que cresce em ritmo acelerado.
“Precisaremos produzir mais comida para suprir as necessidades de quase 10 bilhões de pessoas em 2050. Os cálculos apontam que será necessária para isso uma área extra equivalente a quase duas vezes o tamanho da Índia em relação à área usada globalmente para agricultura em 2010, e o mundo tem uma quantidade de terras limitadas”, afirma Stolle.
“Então, plantar árvores nem sempre é uma boa coisa, se fizermos isso em um solo que é bom para a agricultura. Locais assim devem continuar produzindo.”
Esse é um dos motivos pelos quais Bastrup-Birk acredita que o aumento da área florestal na Europa esteja se mantendo estável nos últimos anos. “Talvez tenhamos atingido seu pico, porque a terra deve ter outros usos. Precisamos buscar um equilíbrio.”
Fonte: BBC